Em minha casa, certas histórias foram contadas vezes sem conta e, eventualmente, algumas marcaram a minha infância, ao ponto de as levar para a minha vida adulta. Numa altura em que falar sobre a liberdade parece cada vez mais essencial, lembrei-me de uma dessas histórias, a do meu pai e do pequeno papel que representou num Portugal a adaptar-se a um depois da Revolução dos Cravos.
Amadeu Alves Ribeiro nasceu em Rio Tinto. É filho de um pintor de construção civil e de uma empregada doméstica, e é um de cinco irmãos. Uma família humilde de trabalhadores que vivia num país marcado pela opressão, em que os dias não pareciam ter cor.
Para a minha família, as coisas mudaram durante uma manhã de inverno, em 1958. O meu avô estava na Ponte Luis I, no Porto, no "tabuleiro de baixo com a sua bicicleta", conta o meu pai que celebrou, este ano, 73 anos, mas não esquece todos os detalhes.
De repente, passou um carro que atirou panfletos da campanha de Humberto Delgado pela janela, o meu avô, analfabeto, decidiu pegar num para ver do que se tratava. Pouco depois, um carro da PIDE apareceu e levou-o. Esteve preso um ano e só foi libertado porque a família conhecia um padre que ajudou.
Chegou a casa com ferimentos, orelhas cortadas e marcas nas costas, e muita revolta. De acordo com o meu pai, o meu avô sempre teve "muita consciência de classe", "sabia que era explorado" no seu trabalho e que "os senhores é que mandavam", mas, nesta altura, começou a perceber realmente qual o "lado que defendia os interesses dele".
Quando o meu pai tinha 9 anos, a família mudou-se para Amarante, onde ainda hoje vive, agora ao lado da minha mãe, com que se casou em 1976 e teve três filhas, incluindo eu.
E foi com essa idade que começou a trabalhar. "Fiz a quarta classe [o equivalente ao 4.º ano nos dias de hoje] de manhã e de tarde fui trabalhar para a construção civil", contou-me milhares de vezes ao longo dos anos.
Com o tempo, o meu avô criou o hábito de ouvir a rádio Moscovo, uma rádio clandestina em que alguns presos políticos portugueses e outros que fugiram para a Rússia incentivavam o povo "a se erguer e lutar contra o regime de Salazar". Sempre que o fazia, chamava o meu pai e o meu tio para ouvirem.
Já o meu pai continuou a trabalhar, mesmo quando mudou de cidade e, aos 14 anos, começou a fazê-lo na Tabopan, uma conhecida fábrica de aglomerados de madeira. É lá que acontece o centro da nossa história.
Depois de ouvir tantas as vezes a rádio com o meu avô, o meu pai começou a ter mais consciência, especialmente de como os trabalhadores pareciam ter (e tinham) menos direitos. Trabalhavam horas a mais, sem receber por elas, e só podiam ir à casa de banho uma vez por dia, uma pausa de apenas cinco minutos. Tudo isto o deixava revoltado.
Chegou, aliás, a roubar uma lata de tinta vermelha para escrever "vamos mandar matar Salazar" numa estrada da cidade, isto acabou por mexer com a população toda, mas, felizmente, ninguém soube quem o fez.
Lembra-se perfeitamente do dia em que tudo mudou: 25 de abril de 1974. Ia trabalhar, mas estava com um amigo que decidiu levá-lo para Vila Nova de Gaia, mais especificamente para a Serra do Pilar, onde festejou a liberdade. "Foi um dia muito lindo."
Logo a seguir à Revolução dos Cravos sindicalizou-se e ajudou muitos trabalhadores amarantinos a fazer o mesmo. Foi nomeado delegado sindical do Sindicato da Construção Civil do Norte e, com os seus colegas, conseguiu parar a fábrica durante uma semana, uma greve em que reivindicaram salários em atraso.
Quando tinha 21 anos, em 1977, estava marcada uma visita de Ramalho Eanes — que estava no seu primeiro mandato como Presidente da República — à Tabopan. Durante uma das reuniões semanais do sindicato surgiu a ideia de fazer uma intervenção durante esta visita e o meu pai voluntariou-se.
Escreveu o seu discurso num pequeno papel, com a ajuda da minha mãe. Quando chegou finalmente o dia, o meu pai e os outros delegados sindicais não podiam entrar para almoçar com o chefe de Estado, mas lá conseguiu.
Quando entrou, deparou-se com mesas cheias de cravos que o deixaram ainda mais revoltado. Foi direto a Ramalho Eanes, pediu autorização para o saudar em palco e começou...
"Temos pena que Vossa Excelência não venha cá mais vezes almoçar pois assim os trabalhadores não teriam de andar todos os dias de marmita na mão, a comer comida fria na borda das estradas ou entre as pilhas de madeira." Foi este o mote para um discurso que expôs a desigualdade ali vivida.
"Alguém disse aqui que somos todos uma família. Se o somos, e dado o conjunto de problemas que nos afetam, somos os parentes pobres", concluiu.
Este discurso foi recebido com insultos e ameaças de morte. Eanes interviu, colocou-se ao lado do meu pai e pediu silêncio para que continuasse. "Se precisar de alguma coisa de mim, sabe onde moro", disse-lhe.
Mesmo depois de tudo isto, as ameaças continuaram, em forma de telefonemas que chegavam a meio da noite, com mensagens como "é a última noite que dormes" e, eventualmente, acabou por ser despedido. Chegou a ter um segurança a protegê-lo — uma ajuda que veio do próprio presidente, segundo o meu pai.
Mas, felizmente, as consequências deste discurso não foram todas más e, a certa altura, o telefone voltou a tocar... Era Adriano Correia de Oliveira que ligou para lhe pedir autorização para transformar o seu discurso numa canção.
Nasceu assim, em 1982, a música Se Vossa Excelência... com letra de Alfredo Vieira de Sousa, música e interpretação de Adriano Correia de Oliveira. Está no disco Notícias de Abril e, na capa, conta-se a história do meu pai. Hoje, conto eu essa história.
