O álcool é a droga mais aceite na nossa sociedade. É quase parte da nossa etiqueta social beber um copo de vinho ou dois ou mais em determinados eventos. Nunca deixamos de olhar de lado para quem bebe água num jantar de anos ou quem recusa um brinde com champanhe num evento de trabalho. Há algo de estranho nisto. “Vais a conduzir?”, “Estás a tomar antibiótico”. Procuramos uma qualquer explicação válida.
Numa qualquer sala onde entremos, até quase 5 homens e 3 mulheres em cada 10 bebe além da conta. Umas vezes o álcool está lá desde sempre. Mais nos homens. É um abuso que surge à vista de todos. Não surge por uma causa, a maioria das vezes há mais pessoas na família com o mesmo problema. São pessoas impulsivas. Há muito álcool, há outras drogas, há jogo – o abuso (este ou outro) é um padrão da vida inteira. São situações difíceis de tratar. Outras vezes o álcool surge mais tarde, como “automedicação”, para outras questões para as quais a pessoa não procurou ajuda - a falta de sono, a tristeza, as preocupações, o excesso de trabalho, uma perda importante, um evento difícil, os problemas com a família. Há mais mulheres quando o problema surge mais tarde. E sabem que mais? Um copo de vinho ajuda mesmo – o álcool relaxa, ajuda a dormir, pode fazer-nos rir. Mas atenuar, disfarçar, pôr para debaixo do tapete, não é tratar. E uma doença não tratada, vai agravando. O ciclo vicioso instala se rápido. O vinho não é aconselhado como tratamento para qualquer problema relacionado com a saúde mental e é improvável que isso mude no futuro. Com o avançar das coisas, há muitas vezes uma necessidade de esconder este descontrolo dos outros mas quando a ajuda chega, o prognóstico é bom. O tratamento da depressão, da ansiedade, dos problemas de sono permite uma redução dos consumos que permanece a longo prazo.
Não é fácil conscientizar a pessoa com dependência de álcool sobre a sua doença. O vício “está (sempre e sem excepção) sobre controlo”. “Toda a gente bebe”, “um copo de vinho até faz bem ao coração”. E a pessoa que chega à consulta porque foi intimidada por alguém importante (“venho porque a minha mulher me fez um ultimato”) ou porque já perdeu tudo ou quase tudo.
E é tão importante saber pedir ajuda. O alcoolismo não é apenas uma questão de falta de força de vontade ou falta de controlo. Envolve alterações complexas na química do nosso cérebro. As áreas relacionadas com o prazer, a recompensa, a tomada de decisão e o controlo dos impulsos estão todas alteradas e isto contribui para a dificuldade em interromper o consumo de álcool e para os sintomas de abstinência que podem surgir quando se tenta parar.
O álcool continua a ser o grande elefante branco na sala. Está em todo o lado, é aceite, incentivado e elogiado. E isto torna-o muito mais perigoso? É banal — e por isso passa despercebido. É difícil de ver, de aceitar, de tratar. A dependência raramente começa no fundo do copo. Começa muito antes — na normalização, na desculpa social, no “só hoje”, no “eu controlo”. É urgente falar nisto. Não podemos deixar este assunto sair da ordem do dia.
