Quando falamos de ícones da música portuguesa existe um nome em que todos pensam: Amália Rodrigues. Inspirou várias gerações de artistas e continua a ser uma presença ativa na memória coletiva de todos os portugueses.
Por estas razões, e muitas outras, a cantora tornou-se a protagonista de uma exposição imersiva que está patente em Marvila, Lisboa, e que chegou ao Porto este ano. Foi instalada na Immersivus Gallery, na Alfândega do Porto, onde ficará até ao final de novembro deste ano. Chama-se Ah Amália - Living Experience.
"É uma viagem multissensorial pelas diferentes dimensões de Amália Rodrigues com o intuito de celebrar o seu legado e de manter viva a sua memória", explica Edoardo Canessa, um produtor executivo do ateliê OCUBO, em entrevista à VERSA.
Revela ainda que "a mostra recorre a um conjunto de instalações imersivas e interativas que veiculam o seu universo e o seu legado de uma forma muito próxima, numa linguagem adaptada à realidade dos dias de hoje, com recurso a novas tecnologias".
Fazem parte da exposição alguns figurinos da artista, assim como como imagens de arquivo e referências dos acessórios que ajudaram a construir a sua identidade visual inconfundível. Nós aproveitámos a ocasião para falar sobre uma das coisas que mais nos interessa (e fascina) o guarda-roupa da fadista.
A exposição Ah Amália propõe uma viagem sensorial pelo universo da artista. Como é que a secção dos figurinos contribui para essa viagem? Que papel têm os vestidos na construção desta narrativa imersiva?
De entre as diversas facetas de Amália Rodrigues - mulher, fadista, atriz, poetisa - os seus figurinos e os elementos que marcaram o seu estilo pessoal dentro e fora de palcos são uma parte indissociável da sua construção enquanto ícone global, revelando, em primeira mão, a dimensão material da sua presença.
Cada vestido e acessório, cuidadosamente selecionados a partir do acervo da Casa - Museu e de arquivos fotográficos, funcionam como elos entre os momentos performativos de Amália, a sua vida pessoal e a memória coletiva que o público mantém dela. Mais do que presenciar objetos e imagens históricas, aqui o público entra em contacto com a materialidade do que foi usado nos palcos, nas câmaras, no quotidiano.
Com ela assistimos a uma sofisticação da estética do fado, desenvolvida através da forma como inovou a sua imagem, cosmopolita, refinada e cuidadosamente construída, marcada pelos longos vestidos e por joias impactantes."
Podemos dizer que Amália foi uma pioneira no uso da moda como extensão da sua arte? Em que medida o seu estilo antecipou tendências que hoje reconhecemos no movimento das portuguese girls?
Sim, sem dúvida. Amália foi pioneira na introdução da moda na sua projeção artística. A sua indumentária nunca foi mero adorno, mas parte integrante da expressão cénica, afetiva e cultural do fado. Com mais de 150 vestidos preservados na Casa-Museu, dos quais uma significativa porção revela cores vibrantes e escolhas estéticas muito próprias, que usava sobretudo no estrangeiro, Amália demonstrava um apurado sentido de estilo e uma consciência da imagem pública como instrumento artístico.
Com ela assistimos a uma sofisticação da estética do fado, desenvolvida através da forma como inovou a sua imagem, cosmopolita, refinada e cuidadosamente construída, marcada pelos longos vestidos e por joias impactantes. A sua afirmação de que “estar bem vestida é quando uma pessoa olha para o espelho e se sente bem, mesmo que seja fora de moda” resume a ousadia com que se posicionava perante as convenções.
Amália introduziu o negro no fado e idealizou muitos dos seus vestidos, que foram cuidadosamente concretizados pela sua modista pessoal, Dona Ilda Aleixo, com a cintura estrategicamente baixa para favorecer a sua estatura. Colaborou também com diversos estilistas portugueses, como Ana Maravilhas, Pinto de Campos e Teresa Mimoso.
No que se refere às joias, a sua impressionante coleção inclui brincos – longos e brilhantes, que deveriam ser visíveis da última fila da sala de espetáculos –, pregadeiras, anéis e pulseiras, maioritariamente de fabrico nacional, em ouro, filigrana, e pedras preciosas como esmeraldas, diamantes ou rubis.
Essa preocupação com a forma como se apresentava em palco, qualquer que ele fosse, o seu sentido estético apurado e, sobretudo, a sua sensibilidade artística permitiram-lhe desenvolver um estilo único e eclético, mas acima de tudo profundamente pessoal, algo que podemos observar na estética das portuguese girls, que também elas inovam na celebração de uma portugalidade contemporânea através da indumentária.
Reconhecidas pela ousada combinação de cores e padrões, as portuguese girls colhem de certa forma inspiração em elementos do património visual português, reinventando-os com criatividade e liberdade. Neste movimento podemos identificar pontos de contacto com o estilo de Amália Rodrigues, nomeadamente no uso expressivo da cor, nos vestidos, nas estampas marcantes, nos óculos de sol, nos leques e numa abordagem maximalista aos acessórios, com especial destaque para os brincos vistosos, que ecoam os da fadista, não tanto por semelhança formal, mas pelo gesto de afirmação que representam.
Na instalação de figurinos conseguimos ver peças icónicas do guarda-roupa de Amália. Que elementos ou detalhes visuais mais definem a sua identidade estética?
Os figurinos expostos refletem uma identidade estética marcada por tecidos nobres, como veludo e seda, silhuetas fluidas e pormenores estruturais adaptados ao palco, como mangas amplas, pregas, conjugados com uma paleta emocional que vai do negro, símbolo incontornável do fado, ao verde profundo e a ousadas combinações de cores.
Que critérios orientaram a escolha dos vestidos e acessórios apresentados? Há alguma peça que considerem particularmente emblemática?
A curadoria desta instalação baseou-se em critérios de relevância histórica, emocional e de performance. Foram privilegiadas peças associadas a momentos de grande impacto e relevância no percurso de Amália, como, por exemplo, concertos dos 50 anos de carreira. Um dos mais emblemáticos em exposição foi o utilizado num concerto no Olympia de Paris, em 1986.
Na exposição há também referência à paixão de Amália por sapatos. A sua coleção de 219 pares de sapatos, de marcas como Sergio Rossi, Prada, Versace, Yves Saint Laurent e Salvatore Ferragamo, eram usados em palco e em eventos formais, mas a verdadeira curiosidade são os 17 pares de sapatos que usava nos seus espetáculos: todos com entre 15 e 17 cm e fabricados em Portugal, foram pensados para que parecesse mais alta do que os seus 1,58 metros de altura.
Esta exposição permite observar o percurso de Amália também pelo prisma visual. Como se transforma a sua estética ao longo das décadas? Como é que essa transformação dialoga com as mudanças na sociedade portuguesa?
Se no início do seu percurso o estilo de Amália remetia para a iconografia tradicional do fado, à medida que Portugal se modernizou e a carreira de Amália rapidamente se internacionalizou, as suas roupas e acessórios acompanharam essa evolução, deixando transparecer uma mulher cada vez mais autêntica e contemporânea, uma mulher do mundo.
A relação entre arte e moda está cada vez mais valorizada. Acredita que esta abordagem estética da figura de Amália pode atrair novos públicos à exposição?
A moda é uma linguagem universal e transgeracional, parte indissociável da construção artística. Os figurinos e esta componente da exposição oferecem um motivo de atração diferenciado para, por exemplo, jovens criadores, estudantes de moda, amantes do design ou simplesmente curiosos, que poderão encontrar nestas peças não apenas a história do fado, mas também valores de identidade cultural e expressividade estética.
