Durante as últimas semanas, a amamentação tornou-se um dos temas mais debatidos no país, com opiniões muito distintas em destaque. Tudo começou quando a Ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, colocou a hípotese de limitar o horário reduzido por amamentação aos dois primeiros anos de vida da criança, explica a CNN Portugal.
Já em entrevista à TSF e Jornal de Notícias, afirmou que tem "conhecimento de muitas práticas em que as crianças parece que continuam a ser amamentadas para efeitos de dar à trabalhadora o horário reduzido que é duas horas por dia que o empregador paga até andarem na escola primária".
Entretanto, Adriano Rafael Moreira, Secretário de Estado do Trabalho, entrevistado pela CNN, não conseguiu esclarecer esta questão, nem indicar números de mães que pediram dispensa para amamentar após os dois anos da criança.
Perante isto e a crescente discussão em Portugal sobre a amamentação, a VERSA falou com Lígia Morais, doula e especialista em aleitamento materno, para aprofundar o tema.
Qual a importância da amamentação para o bebé e para a mãe?
O aleitamento materno é muito mais do que apenas a oferta de alimento ao bebé. É um acto de amor, cuidado e um vínculo profundo entre mãe e filho. O leite materno é a nutrição ideal para os recém-nascidos, oferecendo todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida e protegendo o bebé contra infecções e doenças.
Que tipo de vantagens nutricionais e imunológicas pode ter o leite materno?
O leite materno é amplamente reconhecido pela comunidade científica como o alimento ideal para o recém-nascido, oferecendo vantagens nutricionais e imunológicas únicas.
Vantagens nutricionais
- Composição ideal e adaptável: o leite materno contém todos os nutrientes essenciais - proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais - em proporções adequadas para cada fase do desenvolvimento do bebé;
- Alta digestibilidade: os nutrientes são facilmente absorvidos, reduzindo o risco de problemas gastrointestinais;
- Ácidos graxos essenciais (DHA e ARA): cruciais para o desenvolvimento cerebral e da visão;
- Prevenção de deficiências nutricionais: ajuda a evitar anemia, deficiência de vitamina A e outras carências comuns na infância;
Vantagens imunológicas
- Transferência de anticorpos maternos: especialmente imunoglobulina A (IgA), que protege as mucosas do bebé contra vírus e bactérias;
- Células imunológicas vivas: como linfócitos e macrófagos, que ajudam a combater infeções;
- Fatores imuno-moduladores: citocinas, factores de crescimento e oligossacarídeos que regulam e fortalecem o sistema imunológico do bebé;
- Proteção contra doenças auto-imunes: estudos mostram que a amamentação prolongada está associada à redução do risco de diabetes tipo 1, doença celíaca, asma e alergias;
- Promoção da microbiota intestinal saudável: o leite materno estimula o crescimento de bactérias benéficas, fundamentais para a maturação imunológica.
Estes benefícios não apenas protegem o bebé nos primeiros meses de vida, mas também têm efeitos duradouros na saúde, reduzindo a incidência de doenças crónicas e fortalecendo o sistema imunológico ao longo da infância, conforme a amamentação perdura.
O Ministério da Saúde, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Direção Geral de Saúde (DGS), recomendam o aleitamento exclusivo até os seis meses e a continuação da amamentação pelo menos dois anos ou mais, podendo ser estendida conforme desejo da mãe e da criança."
Quais os benefícios para as mães?
Durante a amamentação, o corpo libera oxitocina, uma hormona que ajuda o útero a voltar ao tamanho normal e reduz o sangramento pós-parto. O aleitamento continuado por pelo menos dois ou mais anos está relacionado com a redução do risco de desenvolver cancro da mama e ovário.
Estudos recentes vieram demonstrar que uma amamentação de pelo menos dois ou mais anos também protege a mulher de ter tensão alta, diabetes ou osteoporose depois da menopausa.
Para muitas mães, amamentar é também uma experiência profundamente gratificante, que fortalece o vínculo emocional com o bebé e oferece um sentido de realização.
Até que idade a amamentação é considerada adequada do ponto de vista médico?
O Ministério da Saúde, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Direção Geral de Saúde (DGS), recomendam o aleitamento exclusivo até os seis meses e a continuação da amamentação pelo menos dois anos ou mais, podendo ser estendida conforme desejo da mãe e da criança.
Há riscos ou desvantagens em prolongar a amamentação para além do que é mais comum?
Antes de mais, gosto de dizer amamentação continuada, e não prolongada, porque não estamos a prolongar nada, simplesmente estamos a cumprir com a nossa biologia.
Não há evidência científica de riscos físicos para a criança ou para a mãe. Os principais desafios são sociais e culturais, como preconceito, falta de apoio e pressão para o desmame. A amamentação continuada continua a oferecer benefícios imunológicos e emocionais.
Quais os principais obstáculos que as mães enfrentam para manter a amamentação?
Embora os benefícios do aleitamento materno sejam amplamente reconhecidos, muitas mães enfrentam desafios que podem dificultar o processo. Entre os principais obstáculos está a falta de apoio imediato no hospital, pois nem todos os profissionais de saúde têm formação nesta área.
Também no regresso ao trabalho nem sempre existem as condições necessárias para a extração de leite, uma vez que não se devia tirar o leite nas casas de banho, mas num gabinete médico ou pelo menos numa sala de reuniões.
Para além disso, a pressão social para desmamar precocemente (antes dos dois anos), as dificuldades fisiológicas na produção de leite (por exemplo, uma hipoplasia mamária não detetada na gravidez), e a falta de informação adequada e de apoio familiar. Não existe cultura de amamentação.
E os mitos e crenças que persistem como por exemplo “o leite é fraco”.
O que pode ser feito em termos de políticas públicas ou apoio social para facilitar essa escolha?
É essencial que as mães tenham acesso a recursos de apoio, tanto no nível familiar quanto comunitário e institucional. As políticas públicas desempenham um papel crucial nesse sentido, pois podem apostar desde a licença maternidade ampliada - uma licença exclusiva de seis meses, tal como a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza a nível de amamentação exclusiva -, até a implementação de espaços apropriados para a amamentação em locais públicos e no local de trabalho.
Para além disso, a educação pré-natal e o acompanhamento pós-parto por profissionais de aleitamento/lactação qualificados é essencial para garantir que as mães recebam as orientações necessárias (tanto a nível do regresso ao trabalho, como para o desmame após dois anos).
Existe a SOS Amamentação, uma linha telefónica gratuita (213 880 915), e os Consultores de Lactação pela International Board Certified Lactation Consultant (IBCLC), ou seja, pessoas certificadas internacionalmente, espalhadas pelo país.
O Estado apostar em campanhas nacionais sobre aleitamento materno, seria também algo que daria mais confiança e conhecimento às mulheres/famílias.
A ausência de políticas eficazes de apoio à amamentação - como licenças parentais adequadas ou espaços apropriados nos locais de trabalho - torna a prática difícil para muitas mulheres."
É um tema que gera alguma polémica. Porquê?
A amamentação, embora seja reconhecida como uma prática essencial para a saúde materno-infantil, continua a ser alvo de polémicas intensas. Estas controvérsias não se limitam à esfera médica, mas envolvem questões culturais, sociais, políticas, emocionais, de género, trabalho, autonomia feminina e saúde pública.
Em muitas sociedades, existem expectativas rígidas sobre o que é considerado “normal” em relação à amamentação, seja na sua duração, no local onde ocorre (em público ou privado), ou no papel da mulher como mãe. A amamentação continuada, por exemplo, pode ser vista com estranheza, mesmo sendo cientificamente recomendada até pelo menos dois anos ou mais.
Mães que amamentam podem ser criticadas por “exagerar” ou por fazê-lo em público. Por outro lado, mães que não amamentam enfrentam julgamento por “não fazer o melhor pelo bebé”. Esta dualidade cria um ambiente de culpabilização constante, em vez de apoio e compreensão.
A ausência de políticas eficazes de apoio à amamentação - como licenças parentais adequadas ou espaços apropriados nos locais de trabalho - torna a prática difícil para muitas mulheres. Quando o tema é instrumentalizado politicamente, como justificativa para decisões controversas, isso gera ainda mais tensão e desinformação.
Persistem ideias como “leite fraco”, “o bebé já não precisa”, ou “amamentar estraga o corpo da mulher”. A falta de informação baseada em evidência científica alimenta o preconceito e dificulta escolhas informadas por parte das famílias.
A amamentação está no centro de debates sobre o corpo da mulher, o papel da maternidade e a liberdade de escolha. Algumas correntes defendem a amamentação como forma de empoderamento; outras alertam para o risco de impor um modelo único de maternidade, desconsiderando a diversidade de contextos e decisões.
Cada mãe e cada bebé têm uma experiência única. O que funciona para uns pode não funcionar para outros. A falta de empatia e compreensão dessa diversidade gera conflitos entre profissionais, familiares e até entre mulheres/mães.
A chave para reduzir a polémica está em informar com base em evidência científica, respeitar as escolhas individuais e garantir apoio real às famílias. A amamentação deve ser uma escolha livre, consciente e apoiada - nunca uma imposição ou motivo de julgamento.
Qual a chave para que cada mãe e cada bebé encontrem o equilíbrio certo?
A chave para que cada mãe e cada bebé encontrem o equilíbrio certo na amamentação está em respeitar a individualidade, oferecer apoio e garantir liberdade de escolha informada. É essencial proteger o direito à amamentação com base em evidência científica e no respeito pelas decisões das famílias.
Cada bebé tem ritmos, necessidades e temperamentos diferentes. Cada mãe tem uma história, um corpo, uma realidade emocional e social própria. O equilíbrio surge quando se reconhece que não existe um modelo único de maternidade.
A mãe deve sentir-se livre para decidir quando começar, continuar ou terminar a amamentação. O equilíbrio não está em seguir padrões, mas em sentir-se segura, apoiada e respeitada.
Evitar comparações entre mães e promover uma cultura de escuta são atitudes fundamentais. Cada decisão deve ser valorizada como parte de um processo de cuidado, e não como motivo de crítica.
Em conclusão, a amamentação é uma jornada íntima e complexa. Encontrar o equilíbrio certo exige informação, apoio, respeito e liberdade. Quando esses elementos estão presentes, cada mãe e cada bebé podem viver essa experiência de forma plena e saudável.
