Vais para a caminhada matinal com os auriculares nos ouvidos, segues para os transportes públicos a ouvir um podcast e, já no trabalho, manténs os auriculares por perto para atender chamadas ou entrar numa reunião. Ao fim da tarde, voltam a acompanhar o treino no ginásio ou o passeio até casa. Para muitas pessoas, passar várias horas sem auriculares tornou-se quase tão estranho como sair sem o telemóvel.
E a popularidade dos auriculares Bluetooth não é difícil de explicar. São pequenos, leves, não têm fios a enrolar-se e permitem ouvir música, podcasts ou atender chamadas praticamente em qualquer lugar. Com cancelamento de ruído, tornam-se ainda mais apelativos em ambientes movimentados, como estações, aeroportos, cafés ou ginásios.
Mas será que esta presença quase permanente nos nossos ouvidos é tão inofensiva quanto parece?
O especialista em longevidade Patricio Ochoa, citado pelo jornal espanhol El Economista, deixou um alerta que rapidamente chama a atenção: usar auriculares Bluetooth seria, nas suas palavras, "como pôr um microondas na cabeça".
A comparação é, no mínimo, provocadora. Tanto os microondas, como os dispositivos Bluetooth, recorrem a ondas eletromagnéticas, mas isso não significa que tenham o mesmo efeito sobre o organismo. A diferença fundamental está na quantidade de energia envolvida. Um microondas utiliza níveis de potência muito superiores, precisamente para aquecer alimentos, enquanto os auriculares Bluetooth necessitam apenas de uma ligação sem fios de curta distância.
É também importante distinguir os diferentes tipos de radiação. O Bluetooth utiliza radiação não ionizante, uma categoria que inclui outras ondas de rádio e que não possui energia suficiente para ionizar átomos ou quebrar ligações químicas, ao contrário do que acontece com radiações como os raios X ou os raios gama.
Por isso, quando se fala nos potenciais riscos dos auriculares, há uma questão muito mais concreta que merece atenção: o volume a que os utilizamos.
Passar várias horas por dia a ouvir música, podcasts ou chamadas com o som demasiado alto pode contribuir para uma perda auditiva progressiva. E aqui está talvez o paradoxo dos auriculares modernos: quanto melhor conseguem isolar-nos do mundo exterior, mais facilmente podemos esquecer o volume a que estamos a ouvir.
O verdadeiro desafio pode, afinal, não estar na tecnologia sem fios que carregamos junto à cabeça, mas na forma como a integramos na nossa rotina. Usar auriculares durante uma caminhada, numa reunião ou numa viagem não é necessariamente um problema. O cuidado está em evitar volumes elevados durante períodos prolongados e em dar aos ouvidos algum descanso.
Afinal, numa época em que passamos o dia com algo nos ouvidos, talvez a pergunta mais importante não seja apenas "que tipo de auriculares estou a usar?", mas também "durante quanto tempo e a que volume?"
