Afinal, o que é o autismo?
O Autismo, ou melhor, a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) corresponde a um grupo heterogéneo de perturbações do neurodesenvolvimento que se caracterizam por dificuldades na comunicação (verbal e não verbal), interação social e existência de comportamentos repetitivos e/ou um leque restrito de interesses ou atividades. É também frequente a inflexibilidade ou apego a rotinas e uma hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais (luzes, sons, texturas ou cheiros).
É uma condição neurológica, permanente, que altera o funcionamento cerebral, ao nível do processamento da informação necessária à aprendizagem social, fazendo que cada criança se relacione com o mundo de maneira diferente.
A perturbação afeta três a quatro vezes mais o sexo masculino do que o feminino.
O termo "espetro" está relacionado com a grande variabilidade de sintomas e graus de gravidade, levando a quadros clínicos muito discrepantes.
Não são conhecidas as causas exatas da PEA. Admitem-se fatores genéticos, que influenciam o sistema de comunicação dos neurónios nos cérebros das crianças, e existem também fatores ambientais, que podem interferir nos genes, contribuindo para a variabilidade dos sintomas.
O diagnóstico de PEA tem vindo a aumentar nas últimas décadas, havendo várias justificações: aumento real do número de casos, maior conhecimento da situação pelos pais e técnicos, com alerta para o comportamento das crianças, mudança nos critérios de diagnóstico e melhor capacidade de avaliação pelos profissionais.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de uma em cada 100 crianças em idade escolar tem PEA, o que é concordante com a estimativa da Federação Portuguesa de Autismo para Portugal, embora os últimos dados estatísticos sejam de 2005.
A partir de que idade se começa a manifestar?
Os sintomas podem estar presentes desde o nascimento, manifestando-se geralmente nos 3 primeiros anos de vida, particularmente na faixa etária dos 15 meses aos 3 anos, altura em que é esperada uma grande evolução nas competências de comunicação das crianças.
Volto a referir a relevância do conceito de "espetro ", em que alguns casos apresentam sinais claros em idades muito precoces, enquanto outros evidenciam sintomas subtis ou leves, evidentes apenas mais tarde, particularmente com impacto na idade jovem ou adulta, quando se verifica uma maior exigência em relação ao comportamento social.
A que sinais os pais devem estar atentos?
Cada criança desenvolve-se ao seu próprio ritmo e nem todas seguem as etapas "normais". No entanto, nos primeiros dois/três anos de vida, as crianças com PEA geralmente revelam alguns sinais de alerta precoces:
– Alteração da comunicação/interação social (não sorrindo de volta, não usar o contacto visual e pouca expressão facial);
– Não responder ao nome;
– Não apontar com o dedo para pedir ou mostrar;
– Não imitar;
– Não brincar ao faz de conta;
– Pouco interesse no ambiente que o rodeia;
– Dificuldades na aquisição e desenvolvimento da fala (não palrar aos 12 meses, não dizer palavras isoladas aos 24 meses, não fazer frases de duas palavras aos 36 meses):
– Tom de voz monocórdico;
– Apresentar comportamentos repetitivos;
– Alinhar ou ordenar objetos;
– Manifestar interesses restritos e intensos;
– Inflexibilidade comportamental com descontrolo emocional nas mudanças de rotinas;
– Regressão de alguma aquisição ou marco do desenvolvimento adquirido previamente.
Mais tarde, são evidentes dificuldades em entender emoções e segundos sentidos, fazer amigos ou partilhar interesses.
Como se faz o diagnóstico?
As crianças estão a ser diagnosticadas mais cedo. De acordo com a norma da Direção Geral de Saúde de 2019, quando existirem sinais de alarme, a criança deve ser referenciada para uma consulta de especialidade hospitalar, que deverá ser realizada num prazo máximo de 30 dias, na suspeita de PEA em crianças até aos 3 anos.
O rastreio precoce pode ser feito nas consultas de vigilância infantil, pelo pediatra ou médico de medicina geral e familiar, através do uso do questionário M-CHAT, para crianças entre os 16 e 30 meses de idade.
Nas consultas de pediatria do neurodesenvolvimento, de pedopsiquiatra ou neuropediatria, faz-se a integração de dados da história clínica da criança e da família, com a observação clinica e resultados de avaliação do desenvolvimento, cognitiva, testes específicos (ADI-R/ADOS) e ainda recurso a outros questionários, quando necessários, adequados à idade e perfil de cada criança.
O processo de avaliação pretende não só obter um diagnóstico, mas também permitir um perfil de áreas fortes e de maior fragilidade, orientando para a intervenção.
Reforço que em alguns casos os sintomas são ligeiros e transitórios, e com medidas adequadas, atenuam-se com a idade. Por este motivo, o diagnóstico definitivo deve ser cauteloso em idades muito precoces.
Que tipo de acompanhamento estas crianças precisam de ter?
Cada criança autista é única, variando nas suas competências e necessidades de suporte.
Existem diversos modelos de intervenção na PEA, dependendo do perfil da criança e dos recursos existentes. Numa fase inicial, são particularmente importantes as estratégias comportamentais e o diagnóstico precoce e a intervenção atempada são fundamentais para o desenvolvimento e prognóstico, através da estimulação das competências de comunicação, interação social e independência/autonomia nas tarefas do dia a dia.
O acompanhamento envolve uma equipa multidisciplinar, que na vertente terapêutica contempla terapia da fala, psicomotricidade, terapia ocupacional, psicologia e técnicos de ABA. Na vertente pedagógica, em contexto escolar, estão técnicos de intervenção precoce, ensino especial e dos centros de apoio à aprendizagem.
O número de horas de intervenção é muito importante, devendo envolver sempre os pais e educadores/professores, para que exista coerência e consistência nos vários contextos da criança.
Em algumas situações a medicação pode ser prescrita, para as crianças ficarem mais tranquilas e atentas, aumentando a sua colaboração na intervenção, beneficiando as aprendizagens e progressos.
Atualmente não é conhecida nenhuma cura para a PEA. O prognóstico é determinado pelo nível cognitivo da criança e pela resposta à intervenção, principalmente nas competências comunicativas alcançadas.
O grau funcional atingido pelas pessoas com PEA é muito variável, desde formas mais graves que necessitam de supervisão constante de terceiros, até formas muito leves com sintomas residuais e uma vida independente, integrada na sociedade, com um percurso regular na escola e uma vida profissional e familiar.
