O que é o autismo?
O que é o autismo? | Fotografia: Unsplash
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“Sempre fui assim”. Mas ninguém percebeu que era autismo

O autismo tem sido tema de debate desde um episódio do "Extremamente Desagradável", de Joana Marques, sobre a atriz Mafalda Matos. Longe da discussão sobre o humor, importa perceber o que é este diagnóstico. A explicação num artigo educativo assinado pela médica psiquiatra Maria Moreno.

Não chegam à minha consulta com um rótulo. Chegam à minha consulta por ansiedade, depressão, ataques de pânico ou por um cansaço que não sabem explicar e que os impede de fazer tudo.

Teimam em não me facilitar o trabalho explicando-me: “Acho que sou autista.” Dizem antes, e apenas depois de eu insistir: “Sempre fui assim, mas antes conseguia.”. Conseguia estudar, tinha os meus amigos de sempre, ajudava em casa. Até deixar de conseguir.

Podem olhar-me nos olhos, responder adequadamente e manter uma conversa durante o tempo que dura a consulta. O que eu não vejo é que prepararam num primeiro momento é que prepararam mentalmente aquela conversa durante dias. Que estão a calcular quando devem olhar, quando devem desviar o olhar e quanto tempo podem falar antes de parecer “demais”. Que aprenderam a reconhecer expressões faciais como quem aprende uma língua estrangeira. E que, quando saírem dali, talvez precisem do resto do dia a recuperar daquele “esforço”.

Na realidade, uma consulta pode ser o lugar onde o autismo menos se vê numa primeira observação. É um ambiente calmo, previsível, individual, com regras claras e uma conversa orientada. Não é uma reunião com dez pessoas a falar ao mesmo tempo, um almoço cheio de ruído, uma mudança inesperada de planos ou uma relação em que é preciso interpretar tudo aquilo que não é dito.

A Perturbação do Espectro do Autismo é uma condição que afeta a maneira como as pessoas interagem com os outros, comunicam e se comportam. Numa frase, é uma forma diferente de ver e interagir com o mundo. Para estas pessoas, é mais difícil entender gestos, expressões faciais ou conversar com outras pessoas. Gostam de fazer as mesmas coisas repetidamente, como alinhar brinquedos ou seguir uma rotina rigorosa, e podem ter um grande interesse em um assunto específico, como comboios ou animais.

O autismo é um espectro – o que é que isto quer dizer? Quer dizer que não há duas pessoas com autismo iguais. Algumas precisam de apoio constante no dia a dia, outras vivem de forma independente. Algumas falam pouco ou nada, outras falam sem parar sobre os seus interesses. Algumas têm dificuldades severas, outras apenas algumas diferenças na forma de pensar e sentir o mundo. Algumas têm limitações marcadas nas interações sociais, outras conseguem disfarçá-las tão bem que passam despercebidas – até que a exaustão e a ansiedade se acumulam. Algumas são o estereótipo do “autista prodígio”, que sabe tudo sobre matemática ou toca piano como um mestre, mas, infelizmente, a maioria não. O rótulo diz pouco, as possibilidades abrem-se diante de nós.

No meio disto tudo, há sempre um ponto comum: o autismo não desaparece com a idade. Aprender a mascarar os sinais do autismo não significa que o autismo desapareceu – significa apenas que essa pessoa passou anos a adaptar-se sozinha a um mundo que não foi feito a pensar nela. Sorri quando não percebe uma piada, treina respostas sociais, ensaia olhares ao espelho, evita falar dos seus interesses para não ser vista como “esquisita” ou “estranha”.

Durante anos, estas pessoas aprenderam a “saber estar” da forma “certa” e, algumas, com muito sucesso. O autismo não apareceu quando entraram na universidade, começaram a trabalhar, saíram de casa, tiveram filhos ou perderam uma rotina protectora. O que desapareceu foi a estrutura que o mantinha escondido — e a energia necessária para continuar a representar “tão bem” este papel. Porque há e sempre houve um esforço desmedido para estar com os outros, uma necessidade maior de rotina, uma exaustão depois de socializar e a sensação antiga de estar sempre a representar.

É muitas vezes este o momento em que o diagnóstico chega – após um colapso. Quando esta depressão, ansiedade, burnout, ... são tratados, mas sobra algo. E juntos damos um nome a uma experiência que sempre existiu. Afinal, “sempre fui assim” pode ser o início de uma história que ninguém soube ler.

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