Bad Bunny, um fenómeno global | Fotografia: Kevin Mazur, Getty
Bad Bunny, um fenómeno global | Fotografia: Kevin Mazur, Getty
Evasão

Ninguém vai aos concertos de Bad Bunny só pela música

Lisboa percebeu isso esta semana. Os novos Swifties falam espanhol e Benito é mais um algoritmo emocional do que música.

Enquanto milhares de pessoas se preparam para o segundo concerto da "DeBÍ TiRAR MáS FOToS World Tour", no Estádio da Luz, já se percebeu que o que está a acontecer à volta de Bad Bunny ultrapassa completamente a lógica tradicional de um espetáculo ao vivo. Isto não é apenas uma digressão. É um fenómeno cultural, social e económico que transforma a cidade durante dias.

Basta olhar para o ambiente em Lisboa desde que Benito chegou: filas desde cedo, grupos inteiros vestidos como se fossem entrar num videoclipe, restaurantes e cafés cheios antes do concerto, hotéis ocupados, Ubers impossíveis, TikToks a documentar outfits, vídeos de pessoas a decorar coreografias, stories do estádio ainda antes das luzes apagarem ou acenderem. O concerto já começou muito antes da primeira música.

E talvez seja precisamente isso que define a dimensão atual de Bad Bunny: ninguém vai ali apenas para ouvir música. 

Tal como Taylor Swift transformou os concertos pop em experiências emocionais totais, Bad Bunny tornou-se o equivalente latino dessa histeria coletiva — mas numa versão mais física, mais dançada, mais noturna e menos sentimental. Se os concertos da Eras Tour funcionavam como grandes sessões confessionais, os de Benito parecem uma gigantesca discoteca emocional onde um estádio inteiro entra em sintonia.

E Portugal aderiu completamente a essa lógica.

Hoje, um concerto destes começa semanas antes. Começa nos vídeos de “fit check”, nos grupos de WhatsApp a coordenar roupa, nas pessoas que compram óculos pequenos, tops, camisolas vintage de futebol ou correntes apenas para esta noite. O espetáculo espalha-se pela cidade inteira e continua online em permanência.

Aliás, talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes desta geração de concertos: já não existe verdadeiramente uma separação entre quem está no estádio e quem acompanha tudo à distância. Quem não conseguiu bilhete, consegue assistir ao concerto através das redes sociais. Há lives, stories, reels editados em tempo real, vídeos do público a cantar refrões inteiros, drones emocionais improvisados por milhares de telemóveis levantados ao mesmo tempo.

O concerto já não termina no palco. Multiplica-se em centenas de ecrãs.

Mas reduzir tudo isto a uma questão de internet seria falhar completamente o fenómeno.

Porque há uma dimensão física e coletiva nestes concertos que raramente existe hoje na música pop. Ninguém está quieto. O Estádio da Luz deixa de funcionar como plateia tradicional e transforma-se temporariamente num superclube onde toda a gente dança, canta, salta, grava, sua e participa. Não existe distância entre artista e público porque o público também faz parte do espetáculo.

Na verdade, não interessa realmente o rótulo musical do artista. Reggaeton, trap, pop, ou apenas música latina... Pouco importa como definem a música do porto-riquenho, até mesmo se é boa música. Neste momento, ame-se ou goste-se pouco, Benito é provavelmente a maior estrela musical nos dias de hoje porque percebeu algo que muitos artistas ainda não entenderam: as pessoas já não procuram apenas músicas; procuram experiências coletivas capazes de interromper a rotina e transformar uma noite num acontecimento.

Mesmo que este seja um simples entretenimento descartável... há qualquer coisa de profundamente revelador em ver dezenas de milhares de pessoas no Estádio da Luz a cantar em espanhol como se estivessem dentro do mesmo organismo coletivo (e quem fala em Portugal, poderia falar dos restantes concertos da tour mundial). Não é apenas sobre música latina. É sobre pertença, energia, libertação e festa.

E há ainda outra mudança interessante: os homens também entraram nesta histeria. Durante décadas, o entusiasmo extremo na pop foi tratado como território feminino, das fãs dos Beatles às Swifties. O que se vê agora quebra essa lógica. Homens planeiam outfits, filmam-se, decoram letras, dançam sem qualquer ironia e vivem o concerto como o grande acontecimento social do ano.

Isso diz muito sobre Bad Bunny, mas talvez diga ainda mais sobre esta geração.

Porque estes concertos funcionam menos como espetáculos e mais como espaços temporários de identidade coletiva. Lugares onde as pessoas vão para existir em conjunto durante algumas horas. Não apenas para ouvir música, mas para participar num ambiente onde toda a gente parece sincronizada emocionalmente. E economicamente...

O impacto económico também já é impossível de ignorar. A cidade adapta-se ao concerto: hotéis lotados, transportes reforçados, bares com festas temáticas, revenda frenética de bilhetes, marcas a copiar a estética “Benito-core”, criadores de conteúdo a viver semanas inteiras à volta deste universo visual. O concerto transforma-se numa pequena economia paralela.

No fundo, ninguém vai aos concertos de Bad Bunny só pela música porque o verdadeiro produto já não é apenas o alinhamento. É a sensação de fazer parte de um clube: os "coonejs".

Durante estas noites em Lisboa, o Estádio da Luz não é apenas um estádio. É uma pista de dança gigante. Uma montra social. Um clube temporário. Uma celebração coletiva da vida.

Gourmet

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