João Rodrigues na prova ALUT – Algarviana Ultra Trail | Fotografia: D.R.
João Rodrigues na prova ALUT – Algarviana Ultra Trail | Fotografia: D.R.
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Se duvidares das metas para 2025, lembra-te: "A sabedoria está em avaliarmo-nos"

João Rodrigues alcançou um feito: correr 308 km em 37h17 no ALUT – Algarviana Ultra Trail. O relato feito à VERSA inspira-nos a alcançar as metas traçadas para 2025.

A chegada de um novo ano é muitas vezes marcada por novas metas, pessoais e profissionais. Por vezes, são difíceis de escrever no papel de tão irrealistas que parecem, mas só se não formos atrás é que, definitivamente, não as cumprimos. 

Se há uns anos dissessem a João Rodrigues que um dia iria ganhar e até superar o record do britânico Paul Gibly na famosa prova ALUT – Algarviana Ultra Trail, que envolve 308 km de trilhos por nove concelhos do Algarve num limite de 72 horas, talvez não acreditasse.

Mas a verdade é que o feito foi alcançado a 30 de novembro de 2024, data em que o atleta de Barcelos cruzou a meta após 37 horas, 17 minutos e 28 segundos a correr 308 km, sem dormir, de Sagres até Alcoutim. João Rodrigues superou assim o recorde de 38h06 conquistado por Paul Giblin em 2019 e superou-se a si mesmo, com algumas táticas. 

No arranque deste novo ano, o atleta partilha com a VERSA as estratégias e toda a experiência da prova, relato que pode ajudar outros a não desistirem das metas traçadas para 2025. E se uma delas for correr, o atleta deixa ainda dois conselhos.

Independentemente da meta, a auto-avaliação é a primeira chave para os objetivos do novo ano. A segunda é esta entrevista inspiradora e motivacional. 

Quem é o João Rodrigues? É possível existir um João sem desporto? 

Tenho 47 anos, casado e pai de dois filhos: um rapaz com 23 anos e uma rapariga com 19 anos. Sou de Barcelos e trabalho numa empresa (Motorline) de automatismos para portões, toldos, estores e outros produtos. O meu hobby principal é correr, mas também gosto de bicicleta, escalada e alpinismo, tendo também já subido o Monte Blanc (4810 metros de altitude).

Lembra-se de quando começou a interessar-se pela corrida?

Sim lembro, foi em 2014! Não gostava de correr, gostava era de andar de bicicleta e a minha esposa corria com um grupo aqui de Barcelos. Estava sempre a desafiar-me, mas não me via a correr. Então ela começou a dizer que eu não conseguia correr como ela, tanto insistiu que eu acabei por ceder e comecei a correr no mesmo grupo e depressa vi que estava ao nível dos melhores homens do grupo. Foi uma questão de semanas até me inscrever numa prova, na qual acabei em 5.° lugar. E com isso veio o gosto pelos trilhos.

O que o João faz é muito mais do que correr. Por que razão decidiu dedicar-se ao trail running?

O gosto pelos trilhos foi imediato, pois achava que conhecia os montes de Barcelos por andar de bicicleta, mas afinal não conhecia nada. O trail running para mim é conhecer locais e paisagens onde só se chega caminhando ou correndo. Ao mesmo tempo há um sentimento de liberdade e restaura energia.

A última prova, o ALUT – Algarviana Ultra Trail, terá sido uma das mais desafiantes da sua vida e a que lhe deu maior prazer por ter conquistado o 1.º lugar e o recorde absoluto da prova. Como é que se preparou para uma prova tão exigente a nível físico e mental? Quanto tempo demorou esse processo?

Foi de facto o maior desafio que realizei e conseguir quebrar o recorde da prova deixou-me muito orgulhoso do feito. Isso faz com que agora pense em novos desafios. 

Desde a minha decisão de me inscrever no ALUT até ao início da prova foram quatro meses. Comecei por analisar o percurso, saber o desnível e onde estavam os locais mais desafiantes, também saber os tempos que os vencedores tinham feito, para ajustar o treino ao ritmo que eu achava que podia ser possível. No primeiro mês fazia uns 80 km de corrida por semana, nos últimos três meses eram entre os 140 km e 170 km e mais umas voltas de bicicleta. Treinava todos os dias entre 2h a 2h30. Sábados treinava 6h ou 7h. Domingo umas 3h, alternando entre corrida e bicicleta. Quando treinava focava o pensamento nas horas que ia correr no ALUT, isso ajudou-me a mentalizar. Pensava como iria ser o prova, por exemplo: se os atletas corressem mais rápido do que eu, fazia a corrida no meu ritmo e ao longo dos km iria alcançar alguns, ou se a corrida começar lenta eu vou ter que tomar a dianteira, pensei em todos os cenários possíveis.

Durante a prova alguma vez duvidou que conseguiria terminar no limite de 72 horas? O que é que se pensa quando se quer desistir?

Nunca duvidei que terminaria. Sempre me questionei se seria possível terminar com 40h, mas se não fosse como eu queria não ia desistir pois também queria ganhar a experiência necessária para um dia poder lutar pelo pódio. Só uma lesão me podia impedir de desistir. Nunca desisti de uma prova e as provas que me correram pior, foram aquelas em que mais aprendi.

Sente que a idade está a começar a dificultar as provas ou, pelo contrário, tem-lhe dado ainda mais sabedoria sobre como se preparar devidamente?

No meu caso não posso dizer que a idade dificulta, agora sinto é que para atingir uma forma adequada são precisos mais meses. Por outro lado, conhecemos melhor o nosso corpo. A sabedoria está em conseguir avaliar-nos e avaliar as provas.

Surgiram no último ano vários clubes de corrida em Portugal, como o Social Run in Lisbon ou o Rookie Run Club. Qual a sua opinião sobre estes novos grupos de corrida que acabam em cafés?

Para mim o desporto ao ar livre é libertador. Sou a favor destes novos conceitos que juntam pessoas com os mesmos gostos.

Com esta e outras provas, o João Rodrigues é uma inspiração para muitos. Quem é que o inspira a si?

Quando eu nem corria 1h, falava-se na televisão e nos jornais dos feitos do Carlos Sá e eu nem queria acreditar que alguém corria dois dias. Uns anos depois conheci o Carlos Sá e os seus desafios. Acho que foi o ídolo de todos os praticantes em Portugal e também o meu. 

Atualmente a minha inspiração vem das pessoas que me felicitam e acreditam em mim. Tento não as desiludir e estas vitórias são para elas.

Para aqueles que querem começar a correr, quais os melhores conselhos para começar um caminho bem sucedido no próximo ano?

O meu conselho é começar aos poucos e ter equipamento bom ou no mínimo adequado, porque isso vai fazer a diferença. Se uma pessoa corre 10km com uma sapatilhas fracas e no dia seguinte lhe dói tudo, nunca mais vai quer correr.

Para aqueles que querem evoluir, aconselho procurarem um treinador que analise e ajuste o treino aos objetivos.

O que pensar enquanto se corre para nunca parar até atingir a meta?

Quando corro nunca ouço música, vou a pensar só na prova. Se estou bem? Como estão as pernas? Se não estava a correr rápido de mais? Se o meu treino foi suficiente ou, ao contrário, exagerei e podia chegar à prova com fadiga? Qual a minha média? Consigo acabar nas 40h? Como ia fazer para dormir, se fosse necessário? Como vai ser depois das 24h de prova? Não tinha certezas, mas as coisas estavam a correr bem. E depois dos 200 km, já com a concorrência longe, foquei-me no recorde e já só pensava na velocidade que tinha que correr para ser possível.

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