Bem-estar num mundo de cosméticos
Bem-estar num mundo de cosméticos | Fotografia: Gordon Parks/Conde Nast
Nécessaire

Testei o desmaquilhante que me fez perceber que o problema nunca foi a maquilhagem

A Neuraé diz que o stress deixa marcas na pele. Depois de algumas semanas a testar o novo The Caring Cleanser, comecei a suspeitar que talvez deixe mais do que isso...

Há duas formas de olhar para o momento de retirar a maquilhagem ao final do dia. A primeira é tratá-lo como mais uma obrigação: responder ao último email, escolher a roupa para amanhã, limpar a pele, apagar a luz. A segunda — e infinitamente mais interessante — é vê-lo como um ritual de despedida.

Já há muitos anos que a indústria da beleza nos convence de que a skincare serve para corrigir, prevenir ou atrasar. Menos rugas. Mais firmeza. Mais luminosidade. Como se estivéssemos permanentemente a tentar negociar com o espelho. A nova proposta da Neuraé parece seguir o caminho que prefiro: e se a pele não fosse apenas um reflexo da idade, mas também daquilo que carregamos connosco ao longo do dia?

Foi precisamente essa premissa que me despertou curiosidade para experimentar o novo The Caring Cleanser, um dos mais recentes lançamentos da marca, enriquecido com extrato de Myrothamnus flabellifolia (planta da ressurreição, por outras palavras. E, para surpresa de ninguém que aprecia um bom ritual de beleza, aquilo que começou como um simples teste acabou por se transformar num dos momentos mais agradáveis da minha rotina noturna.

 

The Caring Cleanser (120ml - €85)
The Treatment Lotion (150ml - €110)

À primeira utilização, a textura oil-in-gel capta imediatamente a atenção. Não porque seja particularmente extravagante, mas porque faz aquilo que tantas fórmulas prometem e poucas conseguem cumprir: transforma o ato de limpar a pele numa experiência sensorial. O gel converte-se em óleo, depois numa emulsão leitosa, dissolvendo maquilhagem, impurezas e os vestígios invisíveis de um dia inteiro em frente a ecrãs, trânsito e notificações. Sim, a pele fica mais sedosa... sente-se e nota-se. 

E depois há a embalagem. Não reinventa nada — até porque, sejamos honestos, dificilmente haverá aqui uma roda por inventar no universo da beleza. Mas há um mérito em saber reconhecer aquilo que funciona. O design é elegante, minimalista e silencioso, alinhado com aquela estética de quiet luxury que não precisa de chamar a atenção para marcar presença. É o tipo de produto que não se esconde dentro de uma gaveta da casa de banho.

Mas aquilo que realmente ficou comigo não foi a eficácia — embora seja impossível de ignorar a reputação da marca e o efeito regenerador. Foi a fragrância.

Há produtos que desaparecem da memória no instante em que fechamos a embalagem. Este não. O perfume subtil acompanha o ritual e permanece o tempo suficiente para criar uma sensação rara: a de que o dia terminou oficialmente.

Talvez seja aqui que a conversa sobre neurocosmética faça mais sentido. Até porque a marca desenvolveu o aroma de forma a influenciar o nosso estado de espírito, numa conversa cientifica com o nosso corpo. Não, um desmaquilhante não vai resolver todos os níveis de stress acumulados entre reuniões, mensagens urgentes e prazos apertados, mas, a esta fórmula, junta-se a obrigação de pararmos durante alguns minutos. E, atualmente, isso já é quase um ato de rebeldia, ou um luxo que sabe a pecado. 

Tenho utilizado o The Caring Cleanser sobretudo à noite, depois de dias particularmente longos de trabalho, e o efeito mais inesperado não foi apenas acordar com a pele visivelmente mais equilibrada. Foi a forma como aquele momento passou a funcionar como um convite ao descanso. Como uma pequena transição entre quem fui durante o dia e quem quero ser quando finalmente desligo.

A marca aproveitou ainda para apresentar outra novidade, a The Treatment Lotion, uma loção de preparação concebida para potenciar a absorção dos cuidados seguintes e reforçar a hidratação da pele. Juntas, as duas fórmulas completam a visão da Neuraé: uma rotina menos centrada na correção e mais focada no equilíbrio.

Porque talvez o bem-estar em 2026 não seja encontrar mais um produto milagroso. Talvez seja simplesmente encontrar alguns minutos de silêncio entre o fim do dia e o início da noite.

E, nesse aspeto, este desmaquilhante entrega mais do que promete. Pensar que tenho de remover a maquilhagem, já não me parece um problema (até a minha embalagem terminar).

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