Humidade | Fotografia: Unsplash
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Bolor em casa pode ser mais perigoso do que parece — médico partilha história de criança

Em altura de níveis elevados de humidade em casa, um artigo educativo assinado pelo Professor Dr. Pedro Martins, presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clinica (SPAIC).

Prof. Dr.º Pedro Martins, Presidente da SPAIC

Em dezembro de 2020, no Reino Unido, Awaab Ishak, uma criança de dois anos, morreu após uma doença respiratória grave. O inquérito concluiu que a exposição prolongada a humidade e bolor na habitação teve um papel determinante nesse desfecho. O caso foi um alerta claro: o bolor dentro de casa não é apenas um problema estético, pode ser um risco real para a saúde.

Os fungos (bolores) que surgem em paredes e tetos libertam esporos e partículas microscópicas que permanecem em suspensão no ar. Ao serem inalados, entram em contacto com as vias aéreas e podem desencadear reações variadas, dependentes da suscetibilidade individual, da intensidade e duração da exposição e da existência de doença respiratória prévia.

A manifestação mais comum é irritativa e inflamatória, sem que exista necessariamente alergia. Pode traduzir-se por congestão e corrimento nasal, tosse persistente, garganta irritada, pieira e sensação de falta de ar. Em pessoas com asma ou DPOC, o bolor e a humidade associada podem agravar os sintomas, aumentar a necessidade de medicação de alívio e levar a maior recurso ao serviço de urgência.

Em alguns doentes, desenvolve-se sensibilização alérgica, com rinite, sinusite, conjuntivite e asma. Nas crianças, a combinação de vias aéreas mais vulneráveis e maior tempo em casa tende a tornar o problema mais evidente, com pieira recorrente e infeções respiratórias mais frequentes.

Há ainda complicações menos comuns, mas clinicamente relevantes, como as pneumonites de hipersensibilidade. A infeção invasiva por fungos é rara, contudo, em pessoas muito imunodeprimidas pode ser grave e potencialmente fatal.

A boa notícia é que a prevenção é possível e começa por controlar a humidade no interior. Medidas simples fazem diferença: arejar diariamente, usar exaustor na cozinha e na casa de banho, reduzir a condensação (sobretudo no inverno), não encostar mobiliário a paredes frias e evitar secar roupa no interior sem renovação de ar. Se existirem infiltrações ou fugas de canalização, nenhuma solução “cosmética” é suficiente: é indispensável corrigir a origem. A limpeza do bolor pode ser necessária, mas não substitui a correção estrutural do problema.

Passamos mais de 80% do tempo em ambientes interiores, por isso, a qualidade do ar em casa tem impacto direto na saúde. Tratar o bolor como algo “normal” é aceitar, no quotidiano, um fator nocivo evitável. A história de Awaab Ishak mostrou-nos o pior desfecho possível - e reforça a urgência de agir.

Controlar a humidade e garantir ventilação adequada é, muitas vezes, uma intervenção simples, com benefícios reais para a saúde respiratória de toda a família.

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