Como nos contos de fadas, poderíamos falar da Cinderela. Mas esta história não começa com uma abóbora nem termina à meia-noite. Começa em 1972, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha — e volta a ser contada porque se assinalam 50 anos de casamento entre o rei da Suécia e a mulher que mudou as regras da monarquia.
De plebeia a rainha
Naquele dia, Carl XVI Gustaf, então príncipe herdeiro, reparou numa jovem intérprete que trabalhava como anfitriã oficial do evento. Chamava-se Silvia Sommerlath, era poliglota, filha de pai alemão e mãe brasileira, e não tinha qualquer ligação à aristocracia europeia. Uma plebeia, à luz de um sistema que durante séculos escolhera rainhas por sangue, não por afinidade.
Ao longo dos anos, a história do primeiro encontro foi sendo recontada, incluindo pela revista Hola!, em várias reportagens retrospectivas. Numa delas, é recordado que Silvia se apercebeu de que o príncipe a observava com um par de binóculos — mesmo estando a escassos metros de distância. Quando o confrontou, ele terá respondido que estava a olhar para outra coisa. Poucos acreditaram. E foi aí que começou o romance.
O próprio Carl Gustaf viria mais tarde a admitir, em declarações recuperadas pela revista, que a convidou para jantar apesar de saber que era "totalmente improvável", já que era o herdeiro do trono e deveria seguir o protocolo. Não seguiu. Queria conhecer melhor a mulher que hoje é rainha.
Quando subiu ao trono, em 1973, tudo indicava que o amor teria de esperar. Reis não se casavam no exercício do poder. Reis não escolhiam plebeias. Ainda assim, em 1976, Carl Gustaf quebrou uma tradição de séculos e casou com Silvia, tornando-a a primeira mulher, em cerca de 200 anos, a tornar-se rainha da Suécia sem linhagem aristocrática.
Amor à prova de escândalos
Se o início parece um conto de fadas moderno, os capítulos seguintes trouxeram uma realidade bem menos romântica.
Em 2010, a publicação da biografia não autorizada O Monarca Reticente (Thomas Sjoberg), lançou uma sombra sobre o casamento real. O livro descrevia alegados casos extraconjugais, visitas a clubes de striptease, festas privadas com modelos nuas e até uma suposta relação com a cantora Camilla Henemark — tudo isto alegadamente do conhecimento da rainha.
As revelações provocaram choque num país habituado a uma monarquia discreta e levantaram dúvidas sobre a solidez do casamento. Ainda assim, o casal manteve-se unido e evitou confrontos públicos.
Anos mais tarde, em declarações recordadas pela Vanity Fair Espanha, o rei afirmou que falou com a família e com a rainha e que decidiram "virar a página e seguir em frente", sublinhando que, do seu ponto de vista, se tratavam de acontecimentos ocorridos "há muito tempo".
Cinquenta anos depois do "sim", continuam juntos. Não porque a história tenha sido perfeita, mas talvez precisamente porque não foi. Entre protocolo quebrado, escândalos públicos e silêncios estratégicos, esta não é uma história de amor idealizada. É uma história de resistência.
E talvez seja por isso que, meio século depois, continua a fascinar.
