Durante as últimas semanas, em Portugal e, na verdade, em muitos outros países, um dos assuntos mais falados tem sido o triângulo amoroso que está a marcar a mais recente edição da Casa dos Segredos, reality show da TVI.
Diogo e Eva, os protagonistas desta história, entraram no programa como um casal — e era esse o segredo de ambos. Depois, com o tempo, o jovem de 23 anos começou a aproximar-se de outra concorrente, Ariana.
Eventualmente, os concorrentes descobriram o segredo do casal e a relação de Diogo com Eva, assim como a de Diogo com Ariana, começou a ser questionada por todos, incluindo pelo público que não conseguia perceber as atitudes dos três.
Entretanto, o casal terminou a relação de cinco anos, mas a traição e o triângulo amoroso continuam a ser os temas centrais desta edição do reality show.
Têm sido contadas várias versões da história e depois de algumas conversas em que Diogo mentiu ou omitiu certos factos, criando confusão entre os concorrentes, muitos começaram a acusá-lo de violência psicológica, manipulação e narcisismo.
Foi, aliás, apresentada uma queixa ao Ministério Público por parte da associação Supera_te que apoia vítimas de violência doméstica. Para a associação, os comportamentos de Diogo, como "a desvalorização consistente das emoções da vítima", "distorção da realidade" e a "chantagem emocional", mostram "indícios de violência psicológica", lê-se no Instagram.
Tendo isto em conta, Maria Moreno, médica psiquiatra, assina o texto abaixo, sobre "o verdadeiro narcisista que não aparece como tal".
Quando se fala de violência psicológica, há uma palavra que aparece sempre: manipulação. E, quase automaticamente, outra: narcisismo.
O caso recente do Diogo Maia [concorrente na 10.ª edição da Casa dos Segredos] voltou a trazer para a praça pública estes temas. E, como quase sempre acontece, os comentários multiplicam-se e as conclusões aparecem depressa e parecem óbvias: "É um narcisista manipulador."
Mas — e isto importa — nem toda a manipulação é narcisismo. E nem todo o narcisismo se manifesta de forma óbvia.
Falemos do tema do momento — o narcisismo
O narcisismo, enquanto traço, existe em todos nós. Mas o narcisismo patológico — aquele de que falamos neste contexto — é outra coisa. É um padrão consistente, rígido, marcado por três elementos centrais: uma necessidade constante de validação, uma dificuldade real em reconhecer o outro e uma tendência para usar as relações como forma de regulação.
É aqui (neste ponto) que a manipulação ganha uma função. O outro deixa de ser um companheiro — e passa a ser um regulador emocional. Quando valida, aproxima-se. Quando questiona, afasta-se ou é desvalorizado. Isto cria um padrão muito característico: aproximação intensa seguida de afastamento, valorização seguida de crítica, presença seguida de retirada.
Quando se fala de um narcisista, a maioria das pessoas imaginam algo óbvio. Alguém frio, calculista, claramente com algo "errado", mas, na prática, não é assim. Nem sempre há grandiosidade explícita ou arrogância clara. Há formas mais subtis — mais relacionais. Pessoas que parecem disponíveis, envolvidas, até vulneráveis, mas que, na prática, precisam de controlo emocional — mesmo que disfarçado de cuidado. Isto torna tudo mais difícil de identificar. Porque não parece, à partida, uma relação “má”. Muito menos aparece como má à vista de toda a gente e em horário nobre – isto não é o habitual. Acontece em silêncio e é precisamente isso que as torna difíceis de reconhecer.
A manipulação psicológica não começa com controlo. Começa com ligação.
“Ele, no início, parecia diferente de toda a gente.”, “Era tudo muito intenso e muito bom.”. É assim que o vínculo se forma. Porque quando nos sentimos escolhidos, validados, emocionalmente próximos de alguém, o cérebro liberta dopamina e oxitocina — substâncias associadas ao prazer e à ligação. Criamos rapidamente uma sensação de segurança e significado. É como se o cérebro dissesse: “fica aqui — isto é importante.”
Depois, muda. Não de forma brusca, mas suficiente para criar dúvida. “Comecei a sentir que nunca sabia bem com o que contar"; “Num dia estava tudo bem, no outro não e eu é que acabava sempre a pedir desculpa”. É aqui que entra a manipulação. Pequenas inversões. Distorções subtis. Não é o pior da relação que faz com que ela se mantenha. É o melhor — quando aparece. Momentos de ligação intensa, de proximidade, de validação que surgem de forma irregular. Isto não é aleatório - é aquilo a que chamamos reforço intermitente.
O cérebro fixa-se nesses momentos. E começa a "esperar" que voltem. É o mesmo mecanismo que está por trás do vício no jogo. Não é ganhar sempre que prende. É ganhar às vezes. O cérebro começa a "procurar" o momento bom, a tentar antecipá-lo, a ajustar comportamento para o recuperar. "Se eu fizer melhor, talvez volte a ser como antes"; "Se eu não tivesse reagido assim, não tínhamos discutido". E, sem dar por isso, a pessoa vai-se reorganizando em função do outro.
Aquilo que sentimos ("isto não está bem") entra em conflito com aquilo que acreditamos ("mas ele gosta de mim") e o nosso cérebro tenta resolver o desconforto. E resolve, muitas vezes, contra nós. Minimizando. Justificando. Reinterpretando. "Ele não é sempre assim"; "Se calhar sou eu que sou difícil". Isto não é ingenuidade. É o cérebro a tentar manter a coerência emocional.
O narcisismo patológico, aquele que se associa mais frequentemente a estas dinâmicas, não é comum. Existe — mas é raro. Estima-se que a perturbação de personalidade narcísica afete uma pequena percentagem da população (habitualmente referida como sendo 1 a 2%). Ou seja, a maioria das relações difíceis não envolve um "verdadeiro narcisista". Mas — e isto é importante — muitas podem envolver traços narcísicos, esses, sim, são mais frequentes.
Por isso, quero dizer-vos a pergunta mais útil não é sobre o outro: "Ele é narcisista?" ou "Há manipulação?". É outra: “O que é que esta relação faz, consistentemente, em mim?”. Se a resposta for: confusão, insegurança, dúvida constante, esforço contínuo para não falhar — então há algo importante a ser visto, com ou sem um rótulo e isto talvez seja o mais difícil de aceitar.
Não precisamos de ter a certeza sobre o outro para validar o que sentimos, a violência psicológica não depende de um diagnóstico formal. Depende do impacto que isto tem em nós. E esse — quando existe — já é suficiente para ser levado a sério.
