Casa Nepalesa | Fotografia: Jorge Simão
Casa Nepalesa | Fotografia: Jorge Simão
Gourmet

Há jantares que ficam na memória. Já os da Casa Nepalesa mudam vidas... e não só pela comida

Durante o ano, a Casa Nepalesa, em Lisboa, vai receber um ciclo de jantares que vão muito além da boa comida... Trata-se de uma iniciativa solidária e VERSA esteve no ensaio geral, onde aproveitou para conversar com Guida Mendes Bernardo, a Diretora Geral e Diretora Nacional de Programas das Aldeias de Crianças SOS.

Há 30 anos, Tanka Sapkota chegava a Portugal com pouco mais de €250 e um sonho. Hoje, afirma-se como dono de alguns dos melhores restaurantes italianos de Lisboa, o Come Prima, o Il Mercato e o Forno d'Oro, onde já recebeu vários prémios, mas continua a celebrar as suas raízes na Casa Nepalesa. 

É, aliás, nesse restaurante, a poucos metros da Fundação Calouste Gulbenkian, que está a celebrar este aniversário e não com uma festa, mas com um ciclo de jantares especiais durante o ano, entre maio de 2026 e maio de 2027. 

Mas o que faz com que sejam tão especiais? Estão a ser planeados 12 momentos — que acontecem sempre na primeira quarta-feira do mês — e cada um deles reverte na totalidade para as Aldeias de Crianças SOS Portugal e Nepal, onde nasceu. 

O primeiro jantar está marcado para 6 de maio, mas a VERSA esteve no ensaio geral, ou seja, na noite em que convidados do chef, entre os quais o embaixador do Nepal em Portugal, Prakash Mani Paudel, experimentaram o menu e tiveram direto a assistir a algumas atuações, com danças, músicas e instrumentos tradicionais. 

Atuação durante o jantar | Fotografia: Jorge Simão

Foi, sem dúvida, uma experiência imersiva proporcionada por todos os detalhes que fazem daquele restaurante único, desde os funcionários de sorriso no rosto, com acessórios e roupas típicas, ao ambiente que nos leva a viajar sem sair de Lisboa. Também ajudou o facto de Sita Sapkota — a esposa do chef — fazer questão de explicar exatamente como comer cada um dos pratos que apareciam na mesa. 

Sim, não podemos esquecer a comida... Começamos com uma chamuça incrível e muito bem recheada. Depois, entre as pausas das atuações, começavam a aparecer mais pratos para partilhar, como o masaledar bakhra ko masu, preparado com cabrito DOP de Trás-os-Montes, e o bhale ra katus, um frango do campo cozinhado com avelãs e especiarias moídas à mão.

Para nós o destaque vai mesmo para uma das entradas, o momo ra bakhra ko maasu ko jhol, uma massa de trigo recheada com frango e especiarias, servido num caldo de cabrito, um prato reconfortante e delicioso.

Entre pratos e copos de vinho — o Chef optou por servir vinho do Douro durante a refeição — aproveitamos para falar com Guida Mendes Bernardo, a Diretora Geral e Diretora Nacional de Programas das Aldeias de Crianças SOS, sobre esta iniciativa e o significado que tem. 

Guida Mendes Bernardo e Filipe Carnall das Aldeias SOS, com Tanka Sapkota, o embaixador do Nepal em Portugal, Prakash Mani Paudel, e a esposa | Fotografia: Jorge Simão

Reza a lenda que o Chef Tanka decidiu bater à vossa porta e dizer que queria ajudar de alguma maneira as Aldeias de Crianças SOS. Foi mesmo assim? Como encararam esta oferta?

Eu acho que, na operação, foi um pouco isso que aconteceu. Bateu-nos à porta e disse: “eu quero apoiar esta missão”. Mas aquilo que está por trás disso acaba por ser a intenção: eu quero comprometer-me com a infância de alguma forma.

Sublinhando e reforçando esta ideia que nós também temos: o cuidado à infância e a promoção de relações seguras não conhecem fronteiras. Esta divisão também simbólica deste apoio solidário entre Nepal e Portugal, nas Aldeias de Crianças SOS, espelha esta dimensão que, para nós, também é chão comum: a responsabilidade de cuidar da infância é de todos.

Também está associado a um movimento mais recente das Aldeias de Crianças SOS que tem sido intervir com jovens migrantes, com isto quero dizer jovens que vêm de campos de refugiados, assim como jovens que vêm neste movimento mais não programado, no sentido em que chegam sem documentos e a precisar de ajudar. Nós chegámo-nos à frente, com a ajuda do Estado, e prestamos apoio a estes jovens. 

Esta ideia de fazer um ciclo de jantares surgiu por parte do Chef? 

Foi uma ideia do Chef — e nós achámos que era brilhante. Era impossível não nos associarmos a esta dimensão. Estamos muito gratos por este movimento. Daquilo que temos vindo a conhecer do Chef Tanka, a criatividade faz parte da sua maneira de ser e, portanto, é algo que também sublinhamos muito na intervenção com crianças e jovens.

Pessoas como o Tanka inspiram a juventude, inspiram a infância, são modelos de como a adversidade não é um fardo, não significa que seja o destino ou que seja a estação final. Mesmo a forma como descreve a maneira como deu a volta à sua vulnerabilidade é muito inspiradora.

Portanto, estamos muito gratos por esta ideia incrível que é associar a quarta-feira, associar o estar à mesa — que é o maior símbolo de proximidade e intimidade — a uma causa como esta de compromisso com a infância.

Nas Aldeias de Crianças SOS, nós acreditamos que a reparação do trauma por abuso vem das rotinas, vem do estar à mesa com as crianças e os jovens, vem do desenvolvimento dessas dinâmicas, vem de garantir a previsibilidade das refeições — que não são apenas nutriente físico, mas também nutriente emocional.

Portanto, acho que é muito simbólico o Chef Tanka ter-se lembrado deste jantar à mesa, nesta lógica de proximidade e intimidade que estas crianças também precisam.

Têm alguma expectativa em relação a como isto pode correr? 

Quando arrancamos para qualquer coisa é sempre com a expectativa de que vai ser incrível e temos a certeza de que isso vai acontecer. É isso que o Chef Tanka traz para a comunidade. Não são 30 anos passados de forma leve — são 30 anos a criar raízes, a criar relações.

E acreditam que esta iniciativa do Chef Tanka pode motivar outros projetos semelhantes, com outros chefs, por exemplo?

Esperamos que sim. É uma ótima ideia e vem carregada de intencionalidade. Como dizia há pouco, este estar à mesa pode também inspirar outros — seja na sua forma de estar, de acordo com o seu modelo de negócio, a sua vivência, a sua experiência, profissional ou não — a encontrar formas criativas de apoiar a infância, com as Aldeias de Crianças SOS, naturalmente, mas também com qualquer causa ligada à infância.

E os fundos têm algum destino específico? Ou será ditado pelas necessidades no momento em que chegarem? 

É algo que ainda vamos debater diretamente com o Chef, no sentido de perceber se há alguma intencionalidade específica da parte dele, mas, independentemente de qual seja o destino, temos uma política de grande transparência. Tudo será reportado, tudo será partilhado, e ele terá a certeza, ao cêntimo, de onde o dinheiro foi aplicado.

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