Dua Lipa | Fotografia: Arnold Jerocki/Getty Images
Dua Lipa | Fotografia: Arnold Jerocki/Getty Images
Controversa

O vestido de noiva que não apareceu no casamento do ano

Claro que só poderíamos estar a falar do casamento de Dua Lipa... e do vestido que nunca apareceu. E o que diz isto sobre moda nupcial em 2026?

Bianca Jegger, a noiva cool dos anos 1970

Dua Lipa na VERSA

Quando uma celebridade se casa, a conversa costuma girar em torno do vestido. Quantos metros? Qual o estilo? O designer? Tem cauda? Com Dua Lipa aconteceu precisamente o contrário. O tema da semana não foi o vestido que usou, mas o vestido que decidiu não usar.

Para a cerimónia civil com Callum Turner, a cantora surgiu num conjunto Schiaparelli de Alta-Costura, assinado por Daniel Roseberry: blazer marfim estruturado, saia assimétrica, luvas e um chapéu de aba larga, que imediatamente remeteu para uma das imagens mais poderosas da história da moda nupcial: Bianca Jagger, em 1971, a dita noiva cool. Na altura terá deixado a sua marca entre as noivas mais icónicos precisamente por não escolher um vestido e fugir ao que seria a tradição. Já Dua Lipa, de forma mais ou menos original, também promete fazer história... pela tinta que tem feito correr na imprensa. 

Mas o mais interessante não é que Dua tenha homenageado Bianca Jagger. É que, em 2026, Bianca Jagger já não é apenas uma mulher; é uma ideia. Um atalho cultural para se mostrar independência, irreverência e glamour sem esforço. Ao escolher Schiaparelli, em vez de reproduzir o célebre Yves Saint Laurent de Bianca, Dua Lipa acaba por não copiar um look... apenas se apropria de um símbolo.

E isso revela algo curioso sobre os casamentos contemporâneos. Antigamente, as noivas queriam ser únicas no dito dia mais especial. Hoje, parece que querem ser reconhecíveis. Em vez de uma imagem única ou fiel ao que gostam... gostam de entrar numa linhagem de imagens míticas ou ditas históricas. Não é sobre a minha história, é sobre a história da outra. O objetivo é mesmo levar-nos à ideia imediata de "Bianca Jagger" e não de "Dua Lipa". 

E é engraçado analisar a narrativa, propositada ou não, uma vez que Bianca tornou-se um ícone precisamente porque recusou as convenções da noiva tradicional. Cinquenta e cinco anos depois, essa rebeldia tornou-se ela mesma uma tradição. Porque, sim, uma noiva de blazer e saia já não é nada de inovador. O look de Dua Lipa não pode querer ser um dedo do meio aos looks tradicionais... quando a tradição também é isto.

Talvez seja por isso que o look de Dua Lipa esteja a gerar tanto debate. Não porque seja revolucionário, mas porque expõe uma contradição na moda atual: a rebeldia vem de um arquivo, do que se fez e de uma nostalgia irrecuperável. 

No que pode vir a ser o casamento do ano, a verdadeira ousadia de Dua Lipa não parece estar na escolha de Schiaparelli (mesmo que seja a mais rebelde da Alta-Costura), nem mesmo na dita homenagem a Bianca Jegger. Talvez esteja em perceber que, em 2026, a peça mais poderosa de um guarda-roupa nupcial já não é um vestido...

... É uma fotografia de 1971.

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