Milho e tomate coração-de-boi: não são alimentos, é a cerâmica da Limbo
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Rafaela Simões
- 23 ago, 02:13
Inês e João criaram a Limbo, marca onde tradição, design e trabalho manual se encontram. Fomos conhecer a marca e ficámos num limbo entre comprar tudo e escolher só algumas peças.
Coleção Full Sun da marca portuguesa Limbo
Flor de Carmim: a marca portuguesa de peças feitas à mão que tem vida longa
Foi na Faculdade de Arquitetura do Porto que Inês Guergosso Meireles e João Bernardo Gomes se conheceram. Eram ainda estudantes, quando começaram a sentir que o caminho de ambos iria para lá da arquitetura.
Nascidos em 1996, Inês e João passaram pela arquitetura profissional depois da faculdade, entre Lisboa e Barcelona. Ela experimentou o design gráfico numa marca de moda; ele aproximou-se do design de interiores. Pelo caminho, houve ainda Porto, Buenos Aires e Santiago do Chile. Contudo, em 2019 decidiram que queriam mais e foi então que decidiram começar a desenhar um projeto: Limbo.
"O nome 'Limbo' surgiu ainda éramos estudantes de arquitetura, porque sempre fizemos coisas que não se encaixavam bem no padrão de estudante de arquitetura", explicam. "Isso colocou-nos, desde cedo, num limbo entre ser arquitetos e ser outra coisa qualquer."
Um nome que acabou por ser uma identidade
O nome acabou, assim, por sobreviver às mudanças profissionais e, hoje, tornou-se quase uma declaração de princípios. A LIMBO é um estúdio de tableware, mas não quer ficar fechado numa definição.
"Fazemos cerâmica, mas não nos vemos como ceramistas; fazemos design gráfico, mas não somos designers; somos responsáveis pela direção criativa, mas não sabemos se nos podemos chamar isso", dizem. "Somos muita coisa e, ao mesmo tempo, nenhuma em particular — e é aí, nesse limbo, que continuamos a sentir-nos em casa."
Foi preciso sair para perceber o que era nosso
Há uma segunda história por trás da Limbo: a dos lugares onde Inês e João cresceram. Ambos foram criados no interior de Portugal, num contexto marcado pela agricultura e por uma relação próxima com o trabalho manual. Os avós estavam ligados à terra; os pais, embora pertencentes a uma geração já formada e urbana, mantiveram a ligação às raízes e incentivaram-nos a procurar experiências fora delas.
Mas foi precisamente a distância que lhes permitiu perceber o valor do que tinham deixado para trás. Em Barcelona, descobriram que aquilo que mais os interessava não era necessariamente a cidade dos grandes nomes da arquitetura ou dos lugares turísticos, mas uma Barcelona mais local, catalã e bairrista, onde as tradições continuam a ser vividas e defendidas.
E foi ai que perceberam: "Num mundo globalizado, onde as referências passam a ser cada vez mais coletivas e intercambiáveis, o que nos distingue é aquilo que é efetivamente só nosso: as nossas memórias, os nossos costumes, e o contexto que nos moldou."
É daí que parte a marca: dos verões na horta, dos invernos à lareira, das refeições demoradas e das mesas cheias de gente. Não se trata, dizem, de reproduzir literalmente o passado, mas de o adaptar aos dias de hoje.
Fazer devagar num mundo feito depressa
Num mercado dominado pela produção em massa, a Limbo escolhe um caminho deliberadamente mais lento. As peças são produzidas manualmente e carregam inevitavelmente pequenas diferenças, mas Inês e João não apresentam o seu trabalho como uma demonstração de virtuosismo técnico.
"Para nós, o maior valor da Limbo não está na perfeição das peças, nem numa suposta mestria como ceramistas", esclarecem. A diferença, defendem, está na identidade.
"Queremos que as pessoas tenham peças que tragam consigo história e memória. Queremos que haja um registo humano, que foge inevitavelmente à perfeição da produção industrial."
Não é uma rejeição da produção industrial enquanto tal — essa produção democratizou o acesso aos objetos —, mas uma reação à homogeneização que dela pode resultar. "Todos acabamos por ter o mesmo prato, o mesmo jarro, a mesma toalha, porque em algum momento recorremos ao 'mais acessível'." Mas certo é que ter uma peça Limbo é ter algo feito "com calma, com intenção".
Full Sun: um verão servido à mesa
Depois de Back Home, a primeira coleção da marca que já explorava esse território de pertença e memória, a coleção Full Sun mergulha diretamente no verão do interior português.
A inspiração começa na horta.
"O Verão é a época em que a horta precisa de ser regada duas vezes por dia, de manhã e ao fim da tarde e era frequente acompanharmos os nossos avós nessa labuta. Havia quase uma dança entre a enxada, a água e a terra. Sabemos que isto vem carregado de romantização, porque o trabalho no campo é duro, mas é, paradoxalmente, muito bonito: são anos de conhecimento passados de boca em boca, que se repetem nos gestos mais simples, e que quisemos trazer para dentro de casa", contam.
Para além das memórias da horta, recordam os mergulhos no rio, os jogos com os primos, os piqueniques ao entardecer e, sobretudo, a mesa. "Há a mesa farta, a algazarra de estar toda a gente junta, e a imprevisibilidade de poder chegar alguém a qualquer momento para se sentar a comer". Se, se aparecer nos convívios atuais, não falta louça para lhes servir.
Fruto de todas estas recordações, a Full Sun tem como protagonistas o milho e o tomate coração-de-boi, que inspiram peças como travessas, jarros e taças.
O tomate, em particular, tem especial destaque, depois de ter ganhado nova visibilidade na moda e no design nos últimos anos, nomeadamente através do trabalho de JW Anderson na Loewe. Para Inês e João, porém, a ligação é anterior a qualquer tendência.
“Para nós é, acima de tudo, memória de infância. Os tomates mais saborosos são os coração-de-boi, e só existem nesta época do ano.”
Há ainda uma razão cromática. O vermelho intenso e o verde do tomate introduzem uma paleta mais vibrante na nova coleção, afastando-se dos tons pastel e do bordô acastanhado associados à primeira coleção, mais invernal.
Para Inês Guergosso Meireles e João Bernardo Gomes, estar no limbo deixou de significar não saber onde pertencem. É, agora, saber que não precisam de pertencer a um só lugar. Lugar esse que podes explorar na galeria de imagens.
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