A estreia de Matthieu Blazy na Semana de Moda de Paris pela Chanel foi, sem dúvida, um dos momentos mais esperados desta edição. Nomeado diretor criativo no final de 2024, o designer franco-belga apresentou finalmente a sua primeira coleção nesta categoria exclusiva, enfrentando expectativas altas — e respondendo com uma proposta delicada, poética e visualmente envolvente.
O cenário escolhido já antecipava o tom do desfile. O Grand Palais transformou-se numa paisagem de sonho, com cogumelos gigantes e salgueiros em tons rosados, criando um ambiente inspirado numa natureza mágica. Foi neste cenário quase irreal que Blazy apresentou a coleção primavera-verão 2026, marcada por romantismo, transparência e uma forte sensação de movimento.
Os primeiros looks estabeleceram imediatamente a linguagem da coleção. Vestidos em tecido ultraleve pareciam suspensos no ar, acompanhando o corpo com fluidez. A paleta girava em torno de tons suaves — bege, salmão, verde-menta — pontuada por apontamentos inesperados de vermelho intenso, que quebravam a delicadeza cromática com precisão.
Com o avançar do desfile, as silhuetas ganharam maior definição e complexidade. Sobreposições, plissados, bordados e aplicações de plumas acrescentavam densidade visual e riqueza tátil às peças. A mulher Chanel imaginada por Blazy parecia transformar-se progressivamente, evocando formas orgânicas e referências ao mundo das aves, numa metáfora subtil de liberdade e metamorfose.
Entre as propostas, o icónico conjunto de saia e casaco da maison reapareceu reinventado. Surgiu em tecidos transparentes, noutras versões densamente trabalhadas, explorando contrastes entre leveza e estrutura. Essas releituras funcionaram como um diálogo entre a herança da Chanel e uma nova visão criativa, onde passado e presente se entrelaçam.
Um dos aspetos mais marcantes da apresentação foi também o elenco escolhido para o desfile. Modelos entre os 40 e os 50 anos surgiram com maquilhagem quase impercetível, sem disfarçar marcas de expressão, e cabelos onde os fios grisalhos eram assumidos com naturalidade. Num momento em que a estética digital tende a apagar imperfeições e a impor padrões artificiais, a Chanel trouxe uma visão mais honesta e sensível da beleza.
Essa escolha reforçou uma mensagem profundamente ligada ao espírito da Casa: elegância não tem idade e a beleza passa pela autenticidade. Ao valorizar rostos, corpos e histórias diversas, Blazy aproximou a Alta-Costura da vida real — sem lhe retirar o sonho.
Depois de uma passagem marcante pela Bottega Veneta, o criador optou por uma estreia contida, mas profundamente sofisticada. Em vez de recorrer ao impacto imediato, construiu uma narrativa sensível, onde cada look parecia parte de um mesmo universo estético.
Esta primeira coleção de Alta-Costura não foi apenas uma apresentação de roupa, mas uma declaração de intenções: para Matthieu Blazy, a Chanel do futuro constrói-se na subtileza, na emoção e numa elegância que se move entre sonho e realidade.
