Para o seu primeiro Métiers d’Art na Chanel, Matthieu Blazy desceu ao subsolo de Nova Iorque e transformou a estação desativada de Bowery num cenário inesperado, onde o quotidiano urbano se encontrou com o luxo artesanal francês.
O espaço, longe da imagem habitual de graffiti e ruído, surgiu renovado com paredes em laranja queimado, iluminadas por luz quente, torniquetes vintage, um quiosque de jornais recriado ao pormenor e longas filas de bancos clássicos de metro, todos pintados a condizer. As modelos chegaram de comboio, emergindo das carruagens como passageiras de uma história própria, desfilando pela plataforma como se fizessem parte da coreografia espontânea da cidade.
Visualmente, a colecção destacou-se por uma paleta intensa e vibrante, onde conviviam verdes marcantes, laranjas e um azul luminoso que já se anuncia como o azul de 2027. Os padrões ganharam protagonismo com pintas, riscas e xadrez, muitas vezes aplicados em saias compridas e fluidas que traziam movimento ao cenário industrial da estação. As transparências, usadas com subtileza, acrescentaram leveza e sensualidade, criando um contraste elegante com a estrutura gráfica dos padrões e com a atmosfera urbana do espaço.
Fiel ao espírito das colecções Métiers d’Art, Blazy apresentou as peças como uma homenagem ao savoir-faire das Maisons d’Art da Chanel. Bordados feitos à mão, técnicas tradicionais como Lunéville e Cornely, manipulações minuciosas de metal e tweeds reinventados surgiram de forma discreta mas essencial, simbolizando a continuidade do artesanato transmitido entre gerações. Embora a parte técnica estivesse presente, foi tratada com leveza, ao serviço de uma estética que pretende aproximar o luxo do quotidiano e dar-lhe vida numa narrativa contemporânea.
Ao escolher o metro de Nova Iorque como palco, Blazy criou um encontro raro entre artesanato e cultura pop, tradição e modernidade, alta-costura e vida real. O desfile, simultaneamente urbano e cinematográfico, apresentou uma visão que honra o legado da Chanel mas olha para o futuro com ousadia, mostrando que a moda continua a ser, acima de tudo, um espaço de encontros, personagens e histórias que ganham vida em cada look.
