Quem conta um conto… Chanel e “felizes para sempre” versão revenge dress
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Vanda Jorge
- 8 jul, 17:48
Se quem conta um conto acrescenta sempre um ponto, Matthieu Blazy acrescentou vários na sua segunda coleção de Alta-Costura para a Chanel. No Grand Palais, criou um jardim encantado, à escala da imaginação, habitado por fábulas reescritas à mão no atelier da Maison francesa. Na Era Blazy, a Chanel lembra-nos que Couture é a arte de transformar o sonho em realidade.
Matthieu Blazy parece continuar a viver um verdadeiro conto de fadas na Chanel. E, desta vez, no sentido literal. Em 2024, o designer belga assumiu a direção artística daquele que continua a ser um dos nomes mais influentes da moda mundial. Pedia-se uma nova visão e linguagem criativa para escrever o capítulo seguinte da Maison. Na coleção Alta-Costura para o outono/inverno 2026/27 apresentada esta semana em Paris, o designer honra o legado da Chanel dando-lhe uma identidade própria.
Na Semana de Alta-Costura de Paris, a Chanel apresentou um verdadeiro conto de fadas contemporâneo. Sem copiar o passado, mas respeitando a herança da Casa, Matthieu Blazy deu-nos uma versão da Chanel mais leve e envolvente, numa coleção surpreendente a cada detalhe e com uma identidade consistente do primeiro ao último look.
Tudo começou quando o diretor criativo descobriu, na biblioteca pessoal de Gabrielle Chanel, uma edição de Les Fées, Contes des Contes, de Charles Perrault. A partir desse universo, Blazy reinterpretou alguns dos grandes clássicos da literatura infantil, livros como João e O Pé de Feijão ou Os três Ursos, transformando-os em peças que funcionam como metáforas da vida de Coco Chanel e da experiência quotidiana feminina, onde fantasia, força e realidade coexistem.
Para o cenário, a Chanel trouxe um universo que evocava Jumanji: uma natureza exuberante e quase indomável, onde flores gigantes pareciam reclamar o espaço e envolver todo o Grand Palais. No meio dessa paisagem, o artista francês Joel Blanc pintava o desfile em aguarela, ao vivo, enquanto os restantes convidados o viviam através dos ecrãs dos smartphones. Entre o gesto artesanal e a tecnologia, entre a fantasia e a realidade, Blazy deixou-nos a pensar: estaria a criar um conto de fadas ou a recordar-nos que a Alta-Costura é, ela própria, uma obra de arte viva?
“Questionei-me se a vida de Gabrielle Chanel terá sido um conto de fadas?” Nesta reflexão que Matthieu Blazy partilhou no final do desfile, o diretor criativo revelou que, para si, o conto mais extraordinário não é ficção, mas a história da própria Coco Chanel: a ascensão da pobreza ao sucesso, construída com perseverança e visão. "Caminhou muito para encontrar a sua galinha dos ovos de ouro, fazendo roupas para mulheres reais. Não eram peças fúteis; estavam enraizadas na vida", afirmou. É precisamente essa ideia que vemos nesta coleção: por mais onírico que seja o universo criado por Blazy, a Alta-Costura tem, na realidade, a função de vestir mulheres.
O “Era Uma Vez” de Blazy encanta porque as referências aos contos de fadas nunca surgem como mero exercício de fantasia, mas como detalhes que devolvem poesia ao quotidiano. A primeira modelo surge com uma saia de musseline transparente e, nas mãos, um livro de contos que pertenceu à própria Coco Chanel. Seguem-se vestidos com filas de botões a narrar a transformação do Patinho Feio em cisne; carteiras em forma de urso adormecido; saltos esculturais com borboletas, pássaros e ovos de ouro; um espantalho reinventado no clássico tweed da Casa. Entre bordados que exigiram horas de dedicação, uma elegância intemporal e uma paleta de verdes, azuis, lavanda e vermelho, o criativo recorda-nos que a verdadeira magia da Couture está nos detalhes.
E o vestido de noiva, tradicionalmente reservado para encerrar um desfile de Alta-Costura, surgiu a meio da coleção. No seu lugar, o último look foi um revenge dress preto. "Pareceu-me a forma certa de terminar a história, porque a Gabrielle nunca se casou", explicou. Uma quebra de protocolo na Alta-Costura, com um propósito narrativo.
Matthieu Blazy fez da fundadora da Maison a protagonista de uma narrativa de sonho, reescrita para a mulher Chanel contemporânea, que vive várias vidas no mesmo dia. Numa, veste um casaco com o Gato das Botas pintado à mão; noutra, descobre no forro lembretes de tarefas e listas de compras bordados em seda amarela, como se fossem Post-its. No desfile, uma voz ao fundo enumerava uma interminável lista de afazeres quotidianos, Matthieu Blazy lembra-nos que a fantasia nunca foi uma fuga à realidade. É, talvez, a forma mais bonita de a viver. E, na sua Chanel, até o dia a dia pode ser um conto de fadas.
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Inês Teixeira
- 8 jul, 17:14
