Nas últimas semanas aconteceram-me duas coisas que, até há pouco tempo, pareceriam ficção científica.
Uma doente contou-me que faz "terapia" com Inteligência Artificial. Outra chegou à minha consulta referenciada pelo ChatGPT.
Uma doente com uma perturbação do comportamento alimentar, que sigo há algum tempo, contou-me recentemente que estava a fazer "terapia" com o ChatGPT. Quando fica presa em pensamentos sobre comida, corpo ou culpa, abre o ChatGPT, conta-lhe o que está a sentir e pede-lhe ajuda para organizar a cabeça. Diz que a acalma. Às vezes chega à consulta e mostra-me partes dessas conversas.
Já tínhamos falado da importância da psicoterapia. Já tinha havido algumas tentativas. Estava frustrada com o preço, com a falta de disponibilidade horária e com o facto de ainda não ter encontrado um profissional com quem se identificasse. Dois motivos perfeitamente válidos. O que me fez pensar foi outra coisa: eram também dois obstáculos legítimos que eu devia ter trabalhado mais e mais rápido na consulta — procurar alternativas, ajustar expectativas, perceber o que não tinha funcionado nas experiências anteriores. Em vez disso, a solução apareceu-lhe no bolso: disponível 24 horas por dia, sem lista de espera, sem custo por sessão e sempre pronta a responder.
Percebo o apelo.
Mas numa perturbação alimentar isto levanta uma questão clínica particularmente importante. A pessoa não precisa apenas de alguém — ou alguma coisa — que responda ao que pergunta e que valide o que é dito. Numa perturbação alimentar, nem tudo o que tranquiliza trata. Precisamos de perceber porque pergunta, o que está a evitar reconhecer, que regras e evitamentos a doença está a impor e quando é necessário contrariar em vez de tranquilizar.
Não lhe chamo terapia. Mas também seria pouco inteligente fingir que aquilo não está a ocupar, para ela, um espaço terapêutico.
Outra doente chegou à minha consulta referenciada pelo ChatGPT. Achei particularmente curioso porque, depois de anos de prática clínica, as maiores fontes de referenciação continuam a ser as mesmas: outros doentes, colegas e o boca-a-boca. Agora entrou um algoritmo nessa cadeia.
São dois fenómenos diferentes mas têm a mesma origem: a IA deixou de ser uma hipótese. Já cá está e vem para mudar a forma como procuramos ajuda e escolhemos profissionais.
Eu não tenho medo de ser substituída. Tenho, isso sim, interesse em perceber o que vai mudar e como a podemos usar melhor.
Não acho que a IA tenha pouco para oferecer. Pelo contrário. A IA consegue organizar informação, reconhecer padrões, resumir, sugerir perguntas e estar disponível a qualquer hora. Tudo isto pode ser útil.
Para alguém angustiado às três da manhã, isso não é um detalhe. E talvez o primeiro efeito da IA não seja substituir terapeutas. Seja exatamente ocupar rapidamente os espaços que o sistema de saúde e nós, profissionais, deixamos por preencher.
Não me interessa demonizá-la nem chamar "terapia" a tudo o que faz. Interessa-me perceber onde ajuda e onde não.
Uma máquina pode conversar connosco. A questão é saber quando essa conversa ajuda.
Porque uma consulta não é uma sequência de respostas certas. Há o que a pessoa diz e o que não consegue dizer. Há um contexto. Há contradições e é preciso avaliar, colocar hipóteses e decidir. E nestas decisões alguém tem de assumir um risco. E, principalmente e acima de tudo, há uma relação que se quer terapêutica.
A pergunta já não é se a IA vem aí. É o que é que nós profissionais vamos fazer agora que ela já chegou. Sem ingenuidade.
