Diego Da Silva, jovem apaixonado por astrofísica
Diego Da Silva, jovem apaixonado por astrofísica | Fotografia: D.R.
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Tem 17 anos e a astrofísica já lhe concedeu prémios. Mas é o lado humano que espera(mos) ver reconhecido

Medalhas por mérito são importantes e valorizam o trabalho. Mas e medalhas por ter um coração de ouro? Diego é merecedor de uma depois da mensagem que deixa em entrevista à VERSA.

Diego da Silva, um jovem promissor que quer usar a ciência a bem da humanidade

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Desde criança que Diego Da Silva sonha com o espaço. Aos 9 anos já dizia que queria ser astronauta e, hoje, aos 17, continua a traçar esse caminho, agora com o olhar posto na engenharia aeroespacial. Estudante da Escola Secundária de Fafe, conquistou recentemente um reconhecimento internacional que lhe valeu uma proposta para integrar o Quadro de Mérito da escola. No entanto, apesar do percurso de excelência e da paixão pela astrofísica, recusa que o seu valor seja medido apenas pelas classificações.

Numa altura em que a pressão pelas médias domina o percurso de muitos jovens, Diego deixa uma mensagem diferente. Fala sem reservas sobre a ansiedade, o peso de querer alcançar notas perfeitas e a importância de não deixar que um número defina quem somos. Para o jovem fafense, o conhecimento só faz sentido quando está ao serviço dos outros.

Em entrevista à VERSA, partilha a história de um sonho que começou com as estrelas, mas que nunca perdeu de vista a Terra. Fica a conhecer Diego Da Silva e o coração que merece uma medalha de ouro.

Quando é que percebeste que a astrofísica era mais do que uma curiosidade e passou a ser uma paixão? Houve algum momento ou pessoa que despertou esse interesse?

Desde que tenho memória, sou completamente apaixonado por tudo o que diz respeito ao universo. Passei anos a ler livros, artigos científicos e a assistir a documentários sobre todas as missões espaciais. Por volta dos 9 anos, já sabia qual seria o meu futuro: entre todas as profissões com que sonhava, havia uma que permanecia firme: 'quero ser astronauta'. Hoje, o meu foco está na engenharia aeroespacial – aquele 'bicho de sete cabeças' com médias de acesso a roçar os 19 valores.

Apesar de ter ultrapassado fases muito escuras na minha vida, tenho-me esforçado e lutado pelos meus sonhos sem nunca desistir. No entanto, sei que a minha média atual não me dá acesso direto a este curso em Portugal. E só eu sei o peso na consciência que carreguei ao longo do meu percurso escolar, martirizando-me, stressando e sofrendo de uma forma inimaginável para atingir notas perfeitas e ser o 'melhor aluno'. Mas percebi que aí estava o erro.

A mensagem que quero deixar a qualquer estudante é esta: dêem o vosso melhor para não carregarem esse peso, mas não deixem que uma nota defina o vosso valor. Vão atingir as vossas metas, seja de forma direta ou indireta. Se a nota não chegar à primeira, não desanimem! Vão encontrar outros caminhos ou até descobrir novas paixões pelo trajeto. Uma nota não define o profissional nem o ser humano talentoso que vão ser.

Com apenas 17 anos, recebeste um reconhecimento internacional e foste proposto para o Quadro de Mérito. No final do dia, como bem dizias, o que é que isso significa para ti?

No final do dia, sinto-me satisfeito, mas ao mesmo tempo com uma sensação de saudável inquietação: quero participar em tudo o que se cruze no meu caminho e ajudar a minha comunidade ao máximo.

Este reconhecimento é uma vitória e um orgulho enorme que partilho com a minha família, os meus amigos e a minha escola. Saber que uma conquista destas me abre portas para o Quadro de Mérito enche-me o coração. Mas, sem dúvida alguma, o que mais me orgulha é saber que este marco pode servir para motivar alunos de todo o país a lutarem pelas suas paixões e inspirar pessoas de todas as idades a criarem um impacto positivo e a envolverem-se na sua comunidade.

Na tua carta dizes que "as notas de nada servem se não tivermos humanidade". De onde nasce essa convicção e o que significa?

Esta convicção nasce de olhar à minha volta e ver uma pressa absurda e uma obsessão quase doentia por médias. Mas a verdade é uma só, crua e inevitável: todos nós vamos acabar exatamente no mesmo sítio. Seja debaixo da terra, metidos dentro de quatro tábuas de madeira, ou reduzidos a cinzas ao vento. O nosso fim é o mesmo.

E então questiono-me: de que serve passar a juventude a lutar por um valor perfeito, se por dentro estivermos completamente vazios? De que serve sabermos tudo sobre uma disciplina se, ao vermos alguém na rua com fome, não sentimos um aperto no peito, uma pontada de tristeza ou uma vontade incontrolável de ajudar? De que serve ser um aluno excelente se, ao ver um colega triste e isolado no fundo da sala, passamos ao lado sem lhe perguntar se está tudo bem?

Ter uma média de 20 não serve de nada se formos pessoas frias, sem luz interior. Se a nossa inteligência não serve para aliviar a dor de outra pessoa, então essa inteligência é apenas egoísmo.

Falas em usar a ciência para melhorar a vida das pessoas. Se pudesses dedicar a tua carreira a resolver um único problema da humanidade, qual escolherias e porquê?

Se tivesse a liberdade de escolher apenas um problema, seria uma decisão difícil, porque a minha vocação é tentar ajudar o maior número de pessoas possível. Mas, se tivesse obrigatoriamente de escolher um, dedicaria a minha vida a combater a dor de quem sofre com doenças crónicas ou com a pobreza extrema.

O que mais me fascina na ciência é a sua capacidade de criar soluções reais para aquecer a vida de quem está com frio. Gostaria de usar a inovação e o conhecimento científico para desenvolver projetos que devolvam a dignidade, a autonomia e, acima de tudo, um sorriso a quem já se esqueceu de como é sorrir. A ciência tem de ser uma ferramenta de resgate, um abraço prático àqueles que a sociedade muitas vezes escolhe não ver.

E de que forma se pode usar a ciência para criar empatia? Como é que pensas fazer isso?

A ciência cria empatia ao mostrar-nos quão raros e preciosos somos. Quando percebemos que somos todos feitos de poeira de estrelas e que o nosso planeta é apenas um "ponto azul claro" na imensidão do espaço, percebemos que as nossas divisões diárias são absurdas.

Não quero que os meus futuros projetos fiquem fechados em laboratórios ou artigos académicos apanhados no pó; quero partilhá-los de forma humana, para que as pessoas se sintam unidas pelo deslumbre do universo e motivadas a cuidar umas das outras.

Como é o Diego fora da ciência? O que gostas de fazer nos tempos livres e que valores achas que melhor te definem enquanto pessoa?

Fora das equações e dos livros de física, sou alguém extremamente simples. Gosto de aproveitar o tempo para estar com quem amo, ouvir música, caminhar na natureza e, sobretudo, parar para olhar as estrelas.
Os valores que melhor me definem são a humildade, a empatia e a generosidade. Tento nunca me esquecer de onde vim e sei que o meu valor enquanto ser humano se mede unicamente pela forma como trato os outros.

O que gostarias que os jovens portugueses retirassem da tua história?

Gostaria que percebessem que não precisam de viver em Lisboa ou de estudar em escolas privadas caríssimas para alcançar o mundo. Eu sou de Fafe, estudo numa escola pública e consegui este reconhecimento.
Mas, acima de tudo, gostaria que retirassem que não se devem deixar consumir pela pressão competitiva das notas. Lutem pelos vossos sonhos, estudem muito, mas nunca percam a vossa humanidade pelo caminho. O mundo não precisa de robôs ou de "génios" com médias perfeitas; precisa de mentes brilhantes que saibam amar e cuidar.

Daqui a 10 ou 20 anos, como gostarias que as pessoas se lembrassem de ti: como um jovem brilhante na astrofísica ou como alguém que deixou uma marca positiva na vida dos outros?

Gostaria que se lembrassem de mim como alguém que usou a pouca ou muita luz que tinha para iluminar o caminho dos outros. Se daqui a 20 anos as pessoas olharem para mim e disserem apenas 'aquele é o Diego, o miúdo que ganhou um par de concursos', eu terei falhado redondamente como ser humano e no meu próprio objetivo de vida. Quero que se lembrem de mim como alguém que, tendo a cabeça nas estrelas, nunca tirou os pés da terra nem os olhos dos outros. Quero ser recordado pelos momentos em que fiz alguém sentir-se menos sozinho, pelas pontes que criei e pelo impacto real e positivo que deixei. No final do dia, as equações resolvem-se, os prémios na gaveta ganham pó, mas o amor e a empatia que partilhamos são eternos. 

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