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“Experiência pode ser traumática”, alerta médico sobre cirurgias plásticas fora do país

Há cada vez mais pessoas interessadas em fazer cirurgias plásticas no estrangeiro. É mesmo mais barato? É seguro? Fizemos estas e outras questões a um médico.

Hoje em dia, muitas pessoas viajam, especialmente para países como a Turquia ou o Brasil, com a missão de ter uma cara, um corpo ou um cabelo perfeitos através de cirurgias e procedimentos estéticos.

Trata-se de uma atividade conhecida por muitos como turismo médico e que está a crescer rapidamente. E, sim, os preços mais baratos podem ser o fator decisivo para muitos. Existem, aliás, algus pacotes que incluem os procedimentos desejados e a estadia no país.

Para entender melhor o fenómeno, a VERSA entrevistou Filipe Magalhães Ramos, um otorrinolaringologista e diretor das clinicas de cirurgia plástica FMR. 

Filipe Magalhães Ramos | Fotografia: D.R.

Os preços no estrangeiro são realmente muito mais baixos? Isso compensa os riscos?

Há países em que os preços podem ser substancialmente mais baixos. Existem várias razões para essa diferença e podem estar longe de representar uma vantagem pelo risco que comportam.

Há vários riscos potenciais. Todos os procedimento cirúrgicos podem ter complicações. O risco de infeções destaca-se em países cuja prática de controlo de infeções não se rege pelos critérios que observamos em Portugal, nomeadamente em caso de necessidade de transfusões de sangue, ou nos processos de esterilização do material cirúrgico (métodos e recursos disponíveis).

Por vezes, a combinação de uma viagem de longo curso e uma anestesia, com longo tempo operatório, pode levar a problemas tromboembólicos. 

Como podemos saber se uma clínica no estrangeiro é realmente segura e de confiança?

Em primeiro lugar, deverá o paciente assegurar-se da acreditação nacional e/ou internacional das clínicas que estão no seu espectro de escolha, com particular acuidade nos padrões de segurança e no equipamento existente, identificando os serviços disponíveis. É, por vezes, muito difícil, senão impossível, concluir este processo satisfatoriamente.

É muitíssimo importante que o cirurgião seja passível de ser identificado, para que se perceba a sua formação, especialização na área em causa e experiência profissional.

O que pode correr mal nestas cirurgias? Já foram registados casos graves - isso acontece muitas vezes?

Refiro-me a duas ordens de fatores: o procedimento em si, que depende da correta avaliação clínica do paciente, da qualidade da equipa cirúrgica e do equipamento disponível; e a qualidade dos cuidados pós-operatórios.

Há abundantes relatos de complicações em ambas as fases. Naturalmente que os problemas podem ocorrer em qualquer país, a grande diferença está no que se pode prevenir e na intervenção em caso de complicações.

A minha experiência em cirurgias de revisão diz-me que a experiência pode ser bastante traumática.

Se algo corre mal, quem se responsabiliza? O paciente fica desprotegido?

A responsabilidade é uma questão muito pertinente que, no turismo médico, não é, muitas vezes, acautelada, provavelmente pelo otimismo gerado pela combinação cirurgia/férias. A situação pode revelar-se delicada no caso de complicações, que podem levar a uma estadia muito mais prolongada do que o previsto e que fica já fora do âmbito do contrato, ou mesmo após o regresso, quando há ainda necessidade de intervenção, nomeadamente com internamento hospitalar.

As redes sociais e os padrões de beleza têm influência nesta procura por resultados rápidos e corpos perfeitos?

Seguramente. A exposição a padrões é cada vez mais precoce, generalizada e, por vezes, nada criteriosa. Daqui decorre que o aconselhamento especializado e responsável se torna imprescindível. A busca pela harmonia facial e corporal deve encontrar respostas realistas, seguras e adequadas à situação de cada um. 

Há sinais de alerta que as pessoas deviam ter em conta antes de marcar uma cirurgia fora do país?

Certamente. A oferta de “pacotes” que variam de acordo com a qualidade e experiência do cirurgião, por exemplo, muitas vezes sem que este seja identificado deve alertar o paciente para os riscos que isso comporta. Todos os casos de indefinição quanto a qualidade das clínicas, serviços disponíveis, responsabilidade e abrangência dos seguros propostos constituem fatores de preocupação.

Que conselho daria a quem está a pensar fazer uma cirurgia plástica no estrangeiro?

Poderá parecer uma resposta muito prosaica, mas o ditado, o barato sai caro, resume muito do que tenho vindo a experienciar. Aconselharia a que pesassem muito bem todos os potenciais riscos que a opção pela cirurgia no estrangeiro pode acarretar.

Para além das questões que foram acima identificadas, chamaria a atenção para padrões de segurança, de acordo com o país em causa, avaliação no pré-operatório com um cirurgião e não o seu representante, barreiras linguísticas na documentação e ao longo do processo, cuidados pós-operatórios e seguimento no país ou após o regresso, tendo sempre em conta que, em caso de complicações, as exigências podem ser significativas.

Provavelmente, reunir o máximo de condições de segurança no estrangeiro vai levar o paciente a fazer escolhas com custos muito mais elevados do que, numa análise menos criteriosa, pode parecer.

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