Sónia Melo é mais do que uma Chef. É uma Private Chef, responsável pelo projeto Chez Sónia, criado em 2017, tendo recebido em 2024 e 2025 o Prémio Cinco Estrelas Regiões na categoria Private Chef. Mas há mais títulos que elevam a Chef privada. É também Confrade da Confraria dos Gastrónomos dos Açores, uma responsabilidade que assume sempre tendo em vista a valorização da gastronomia açoriana.
E porquê os Açores, tendo Sónia Melo nascido e crescido em Lisboa? Porque foi a ilha de S. Miguel que a chamou, depois de deixar o trabalho numa área “chata” da administração pública, à qual se seguiu a paixão pela cozinha.
É agora nos Açores que tem a sua vida e projeto e é lá que proporciona momentos personalizados em casa dos clientes, com pratos compostos por ingredientes quem contam uma história. Sem esquecer o "fruto rei".
Em entrevista à VERSA, a Chef Sónia Melo fala-nos de todo o percurso até se tornar uma reconhecida Chef privada nos Açores.
A sua mudança para os Açores marcou o início de uma nova fase da sua vida. Como foi esse processo de adaptação e de que forma influenciou a sua relação com a cozinha?
Mudar-me para São Miguel foi, sem dúvida, um ponto de viragem. Vim sem rumo e encontrei uma tranquilidade e uma nova inspiração para a minha cozinha. A natureza, os produtos frescos e a autenticidade das pessoas influenciaram profundamente a minha forma de cozinhar. Aqui, a cozinha tornou-se mais emocional, mais intuitiva, mais ligada à terra. A adaptação teve os seus desafios, como qualquer mudança, mas foi também um reencontro comigo mesma e com a essência do que quero partilhar através da gastronomia.
O que distingue o seu serviço de Private Chef de outras ofertas semelhantes no mercado?
A marca Chez Sónia acompanha-me desde 2006, altura em que nasceu o meu blog. E foi em 2017 que lhe dei uma nova vida ao criar o projeto de Private Chef nos Açores. O que me distingue é a forma como cada experiência é pensada ao detalhe e centrada no cliente. Cozinho em casas privadas, para pequenos grupos, e cada menu é personalizado, respeitando gostos, preferências e até memórias afetivas. Há uma grande atenção ao pormenor, à sazonalidade e à origem dos produtos. Em 2024 e 2025, tive a honra de receber o Prémio Cinco Estrelas Regiões na categoria Private Chef, um reconhecimento que muito me orgulha e que valida esta dedicação à excelência e à autenticidade.
Por que razão decidiu ser Private Chef e não abrir um restaurante ao público?
Porque gosto de ouvir e estar com as pessoas. Gosto de conhecer de perto os meus clientes, perceber o que as move, o que as emociona. Ser Private Chef permite-me isso: uma relação direta, próxima e personalizada com cada cliente. Ao contrário de um restaurante, onde há um ritmo mais padronizado, neste modelo posso criar experiências únicas, intimistas e verdadeiramente memoráveis. A atenção ao cliente é, para mim, o centro de tudo – e é isso que faz a diferença.
Quais os ingredientes açorianos que mais gosta de trabalhar e porquê?
É difícil escolher, porque os Açores têm uma despensa riquíssima. Mas tenho um carinho especial pelo ananás – o “fruto rei”, como gosto de lhe chamar. É um símbolo de riqueza e delicadeza, e consigo usá-lo tanto em pratos doces como salgados. Também adoro os nossos lacticínios, e, claro, os peixes fresquíssimos das nossas águas. Cada ingrediente conta uma história.
Como vê a evolução da gastronomia açoriana nos últimos anos? O projeto Chez Sónia tem contribuído para esse crescimento?
Vejo com muito entusiasmo. A gastronomia açoriana está a abrir-se ao mundo e como Confrade da Confraria dos Gastrónomos dos Açores, vamos fazer de tudo para que não perca as suas raízes. Há uma nova geração de cozinheiros, produtores e projetos a valorizar o que é nosso, com respeito e criatividade. Sinto que o nosso projeto, à sua escala, também tem contribuído para isso – seja através dos jantares privados, dos conteúdos que partilho, ou da rubrica "Cozinha em Casa", na RTP Açores, que já leva mais de seis anos. Levar a cozinha a novos públicos, com respeito pelo produto e pela tradição, é uma missão que abraço com muito orgulho.
Refere que cada refeição deve ser uma celebração do melhor de cada região. Pode partilhar um exemplo de um prato que represente essa filosofia?
Um dos pratos que criei e que representa bem essa filosofia (temos a fusão de terra, mar e fruta) é um tataki de atum, servido com puré de inhame, morcela e ananás. É uma fusão entre técnica e ingredientes profundamente enraizados na identidade açoriana. Mais do que alimentar, quero criar memórias – e cada prato é pensado como uma celebração da terra que me inspira todos os dias.
