Até há bem pouco tempo, correr uma maratona era um feito. Mas os desafios foram aumentando e agora são muitos os que se submetem a treinos de Hyrox, a treinos militares, a provas de triatlo e a tantos outros desafios mesmo sem serem atletas profissionais. E houve um dia em que Afonso Ferrada decidiu elevar a fasquia.
Inspirado em David Goggins – ex-militar das forças especiais da Marinha dos EUA, ultramaratonista, triatleta e palestrante motivacional –, Afonso decidiu que, a partir das 00h do dia 22 de agosto, ia correr 6km de 4 em 4 horas, durante um total de 72 horas. Um desafio ainda maior do que aquele a que David se propôs, apenas de 48 horas.
Mas a questão é: porquê? Em entrevista à VERSA, o jovem português explica.
"Diria que há três grandes motivos que me fizeram começar este desafio. O primeiro foi inspirar o maior número de pessoas de que elas conseguem fazer qualquer coisa. Fiz questão de referir nos vídeos que não precisa de ser uma loucura, como correr 108 km em 72 horas. Pode, simplesmente, ser saírem da zona de conforto e, mesmo que nunca tenham corrido, fazerem os primeiros 5 ou 10 km, por exemplo. Independentemente do ritmo, irem contra a própria vontade e conseguirem", começa por dizer.
O segundo motivo é que Afonso está a preparar-se para fazer uma ultra maratona em 2026, sendo que treinos como aquele a que se propôs neste desafio "simulam um pouco do que são essas provas e acabam por ajudar bastante". Mas há ainda um terceiro motivo.
"Mostrar a mim mesmo, e não só aos outros, que, mais uma vez, superei os meus limites", remata.
Afonso Ferrada poderia ter feito as 48 horas a que se submetera David Goggins, mas, sendo um corredor habitual, fazendo corridas de longas distâncias há alguns anos, considerou que não seria assim tão difícil. "Era só não dormir bem durante duas noites. Mas sabia que o acumular dessas duas noites com a terceira seria desafiante e provou-se que foi", afirma.
"Provou-se" porque o desafio está, oficialmente, concluído. Afonso Ferrada terminou de correr os 108 km neste domingo, 24 de agosto, pelas 23h59, e relata tudo o que viveu.
"Diria que não existe só um momento mais duro, são dois ou três. Depende do que é mais duro. Ou seja, o stress e pânico que começava a ganhar 10 a 15 minutos antes de cada corrida, começava a consumir-me. O meu descanso nunca era tranquilo. Chegava a casa, olhava para o relógio e parecia que tinha muito menos tempo do que era suposto para descansar e preparar-me. Mas, se estivermos a falar de um momento específico, foi certamente a corrida da meia-noite e das 4h do último dia. O corpo já estava mesmo a dar de si, pedia socorro por todos os lados, os músculos doíam e foi mesmo difícil quase sem dormir e sem recuperação", recorda.
As corridas da madrugada foram efetivamente as mais difíceis, uma vez que quebravam o sono, mas nunca as mais inseguras. "Nunca me senti inseguro, até porque pensava 'ok, há muita gente maluca no meio da rua às 4h ou 6h, mas acho que se virem um maluco a correr na rua com uma lanterna na cabeça e a gravar-se com um telemóvel, vão achar que ele é mais maluco do que elas. Foi esse o meu pensamento".
Afonso Ferrada correu Lisboa durante manhãs, tardes e madrugadas e no final da prova a que se propôs os resultados, em apenas três dias, saltam à vista.
"Quando olho ao espelho, as diferenças são a nível de peso. Não sei quanto, porque não me pesei antes e depois. E talvez perda de força, porque devo ter perdido alguma massa muscular", afirma.
No entanto, para surpresa de muitos, apesar de todo o esforço, o jovem de 22 confessa: "Sinto que aguentava mais" e é daí que tira uma grande lição.
"Se tivesse posto na cabeça que ia fazer 100 horas em vez de 72 horas, ia fazê-las. Porque já desenvolvi a minha mentalidade e a forma como encaro as coisas para levar até ao fim para não desistir. Nem que abrandasse o ritmo, nem que arranja-se uma forma de conseguir cumprir, ia fazer as 100 horas. Sei que levei o corpo ao limite, porque tentei dar o máximo nas 72 horas, mas se soubesse que eram 100 horas, tinha gerido de outra forma para conseguir fazê-las".
Afonso ganhou mais de 2.500 seguidores no TikTok, plataforma na qual relatou todo o desafio, e promete que não vai ficar por aqui. Virão mais desafios, mas não para já. De momento, promete mostrar aos seguidores a sua jornada de corridas e "inspirar pessoas a terem um estilo de vida mais saudável, treinar, trabalharem nos seus objetivos, passarem tempo com os seus, comerem bem e saudável".
Além disto, e uma vez que está a treinar para a ultra maratona, Afonso Ferrada anuncia que vai fazer uma espécie de documentário no futuro.
