Criticising Ronaldo: a tendência nasceu em Portugal e não é que somos os melhores do mundo?
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Vanda Jorge
- 3 jul, 18:42
Há Mundiais. E depois há este. Porque há momentos em que o futebol deixa de ser apenas futebol. Há a despedida a uma geração que julgávamos eterna, há homenagens que preferíamos não fazer e, claro, há o clássico Cristiano Ronaldo. Enquanto a seleção nacional ainda sonha com um lugar na final, em Portugal voltamos a ser campeões no Criticising Ronaldo.
Há alguns anos que o Fado, Mariza, o Puro Sangue Lusitano, Fátima, José Mourinho, Pessoa, Camões ou até o Pastel Nata… deixaram de ser os grandes embaixadores de Portugal no mundo. Continuam a ter, naturalmente, o seu lugar na identidade do país e na afirmação da Marca Portugal no mundo. Mas, com todo o respeito, Cristiano Ronaldo é outro campeonato. Ou, se quisermos, entrámos na Champions League.
O capitão da seleção nacional é o maior embaixador deste Portugal contemporâneo no mundo. E para se entender a escala, é imaginar algo como: mesmo que o “mundo” possa não conhecer Portugal. Conhece Cristiano Ronaldo. É a marca nacional mais global. É a nossa maior multinacional. E percecionada de forma positiva: pelo seu valor, talento, genialidade, dedicação e profissionalismo, resiliência, superação, generosidade…E sim, um futebolista e o futebol fizeram mais pela notoriedade da nossa Marca Nação do que qualquer estratégia nacional, missão diplomática, campanha de promoção turística ou a nossa melhor literatura. Claro que são territórios diferentes. Mas no final, é o que é. E CR7 mudou as regras do jogo de Portugal no mundo.
Em muitas viagens e nas mais diferentes geografias, há anos que o seu nome é uma espécie de código de hospitalidade local, por vezes, logo à chegada enquanto carimbam o visto no passaporte: “Portugal? Oh, Cristiano Ronaldo!”… e sempre em forma de elogio. No Japão, e muito antes de ser tudo o que é hoje, pediram para tirar uma fotografia comigo “para mostrar ao meu filho que estive com uma portuguesa como o Cristiano Ronaldo”. Sei que custa a acreditar, também me fez confusão na altura, mas também é o Japão e também só assim percebemos que Ronaldo é uma liga diferente.
Em Portugal, e para muitos, Messi é o melhor do mundo. E até pode ser. Mas já o resto do mundo, diz que é Cristiano Ronaldo. Às vezes parece que o tema é menos sobre futebol, mas mais sobre a nossa dificuldade endógena de lidar com o sucesso dos nossos, ou talvez percebo pouco ou nada de futebol. Para mim, Messi é tão genial como Ronaldinho Gaúcho. Para mim. E Ronaldo é tão genial quanto eles e, além disso, é português. Mas há anos que temos como desporto nacional criticar Cristiano Ronaldo: ou é o ego, ou é a arrogância e agora está velho e nem devia estar no Mundial…das televisões às conversas de café. Como à minha volta o que não faltam são pessoas arrogantes e não sendo geniais em nada com a moral de verdadeiros campeões, quando olho para Cristiano Ronaldo o hobby Criticising Ronaldo não me faz sentido.
O Mundial 2026 é O Mundial para Ronaldo. E todos o sabemos. E também o conhecemos. Preparou-o e trabalhou mais do que qualquer outro jogador da seleção para lá estar, tendo a jogar contra si a idade e a falta de confiança dos português quanto ao seu lugar na equipa. Não tenho qualquer formação, pretensão ou vocação especial no assunto, é só a minha forma de ver: melhor do que qualquer um de nós, acho que ele está consciente que a sua carreira está a acabar. Consciente da sua experiência, mas também já das suas limitações. O primeiro a duvidar de si, a ter dias com menos confiança, para mim tudo natural em quem investe e se dedica como ele sempre se dedicou ao futebol. E, talvez, o que menos precise seja também nós o lembrá-lo disso quase todos os dias. É que por muito que Ronaldo nos pareça sobre humano, ele é só im(perfeitamente) humano. Vemo-lo no Mundial como uma teimosia e puro ego, não podemos ver antes como o sonho que lhe falta cumprir com as cores de Portugal? Porque é que a expressão no seu rosto ao ser substituído é lida como ficou chateado, não pode ser só de frustração consigo próprio de não ter feito mais?
Ronaldo está de saída. A memória pode ser curta, mas em mais de 20 anos deu-nos muito e representou-nos sempre com orgulho e sentido de responsabilidade. O que nunca chegou para os portugueses. Cristiano Ronaldo merecia mais respeito. Têm-no lá fora. Em qualquer parte do mundo. Menos em Portugal. Não é de hoje. Hoje é porque está velho. Nos anos de ouro, exigíamos-lhe sempre mais mesmo quando era o único a dar tudo. We love to hate Ronaldo. É o melhor jogador de sempre português. Isto nunca foi só futebol. Aos 40 anos, Vozinha faz três jogos numa estreia no Mundial e, de imediato, para os portugueses é já é um tubarão do futebol. A idade é a mesma, com a ligeira diferença de Ronaldo chegar à sua last (not first) dance com mais de duas décadas a vestir a camisola de Portugal. Nunca foi só futebol.
O título de campeões do mundo ficava-nos bem, penso que aqui estamos todos de acordo. Mais um troféu é sempre uma conquista importante para Portugal. Só o futebol continua a ter o poder de mobilizar, emocionar e ter um país inteiro a partilhar o mesmo sonho. Mas também é só futebol, e é só uma competição e é só uma taça…e tem a importância que tem. A atual cultura de descartabilidade ao estilo Ronaldo já não és o que eras, dá mas é o lugar a outro que já não fazes falta…é coisa de amadores. O problema não está no Ronaldo, ele até lesionado merecia lá estar. O problema somos nós, que com a toda a nossa arrogância, nunca gostámos da arrogância do melhor jogador do mundo e que até é português. É coisa de amadores…
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