Chamam-lhe o Cristiano Ronaldo do Nepal e deixa um legado que poucos conhecem
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Rafaela Simões
- 10 ago, 14:38
Há homens que passam a vida a desafiar os seus próprios limites. Nirmal Purja, também conhecido como o Cristiano Ronaldo do Nepal, foi um deles.
Nirmal Purja conseguiu o que parecia impossível
Inspira-te nos detalhes da casa de Kelly Bailey e Lourenço Ortigão
Cristiano Ronaldo é uma lenda do futebol e para onde quer que viajemos, são poucos aqueles que não referem o nome do craque português para dizer que sabem onde pertencemos. Mas há outro nome que é merecedor de andar nas bocas do mundo, mesmo que já não esteja entre nós. Falamos de Nirmal Purja.
Mais conhecido como Nims, o montanhista dos impossíveis morreu em julho deste ano aos 43 anos, vítima de uma avalanche no Broad Peak, no Paquistão. A montanha, com 8.047 metros, é a 12.ª mais alta do planeta e integra a lista dos 14 chamados "oito-mil", os gigantes do mundo acima dos 8.000 metros onde o corpo humano já não consegue adaptar-se à altitude e a sobrevivência prolongada se torna praticamente impossível.
A notícia encerrou de forma brutal a vida de um homem que parecia ter feito carreira precisamente a desafiar os limites do que era possível. Mas contar a história de Nims Purja apenas através da morte seria reduzir uma das figuras mais extraordinárias do montanhismo contemporâneo ao seu último capítulo.
O seu verdadeiro legado começou muito antes de Broad Peak.
Do exército às montanhas
Nirmal Purja nasceu no Nepal e passou 16 anos nas Forças Armadas britânicas, incluindo uma década nas forças especiais. Foi nessa vida militar que desenvolveu competências que mais tarde seriam fundamentais nas montanhas: resistência física, disciplina, capacidade de tomar decisões sob enorme pressão e, sobretudo, a necessidade de confiar na equipa quando um erro pode custar uma vida.
Em 2018, foi distinguido com um MBE — Member of the Order of the British Empire — pelos seus feitos no montanhismo de altitude extrema.
Mas foi em 2019 que o mundo começou verdadeiramente a prestar atenção.
Nims decidiu tentar aquilo que parecia absurdo até para os padrões do alpinismo: subir os 14 picos com mais de 8.000 metros de altitude — os chamados "oito-mil" — num período inferior a sete meses. Chamou ao projeto "Project Possible" (nome que poderás já ter ouvido falar como falaremos adiante). E tornou-o possível.
Entre 23 de abril e 29 de outubro de 2019, completou a sua extraordinária campanha em 189 dias, ou seja, seis meses e seis dias. O anterior melhor tempo para completar os 14 oito-mil era de sete anos e 310 dias.
A velocidade era tão desconcertante que, durante muito tempo, a pergunta deixou de ser "quando vai conseguir?" para "como é que isto é sequer possível?". A resposta de Nims era a imaginação.
"As pessoas estão apenas limitadas pela sua imaginação", disse na altura, frase esta que se tornou quase um manifesto da sua carreira.
Mas Nims não se limitou a colecionar cumes. Em janeiro de 2021, integrou a equipa de dez alpinistas nepaleses que conseguiu aquilo que nenhuma expedição tinha conseguido antes: chegar ao topo do K2, com 8.611 metros, no inverno. Esta é a segunda montanha mais alta do mundo e é frequentemente considerada ainda mais difícil e perigoso do que o Everest. Durante décadas, várias expedições tinham tentado conquistar o seu cume durante o inverno. Todas tinham falhado.
Quando os dez nepaleses chegaram ao topo, fizeram-no juntos, cantando o hino nacional do Nepal. E o nome Nims passou a ser ainda mais reconhecido entre a comunidade nepalesa.
E é aqui que a comparação com Cristiano Ronaldo começa a fazer algum sentido.
O Cristiano Ronaldo do Nepal
Modalidades diferentes, carreiras diferentes. No entanto, Nims Purja e Cristiano Ronaldo têm algo em comum: sabem que uma grande conquista individual pode transformar-se numa bandeira coletiva.
Durante décadas, os nepaleses eram frequentemente apresentados somente como guias de montanha, carregadores ou "Sherpas" e Purja ajudou a inverter essa narrativa. O mundo começou a olhar para os alpinistas nepaleses não como aqueles que ajudam os outros a chegar ao topo, mas como os protagonistas capazes de liderar as expedições mais difíceis do planeta.
A primeira ascensão invernal do K2 foi talvez a imagem mais poderosa dessa mudança. Mas não só. Para além dos recordes, Purja também ficou conhecido por arriscar a própria vida para salvar outros alpinistas.
Em 2019, durante a descida do Annapurna, participou no resgate do alpinista malaio Chin Wui Kin, encontrado em condições extremamente precárias depois de ter ficado isolado em altitude durante dezenas de horas.
Pouco depois, voltou a colocar-se em perigo para ajudar dois outros alpinistas a cerca de 8.400 metros. A equipa de Purja cedeu oxigénio suplementar aos homens que estavam em dificuldades.
Para Nims, ajudar não era uma questão de heroísmo. Era uma questão de princípio.
Essa dimensão da sua personalidade é importante porque contraria a imagem fácil do homem obcecado por recordes. E não são poucos.
O Guinness World Records regista atualmente Nims Purja com 49 ascensões aos verdadeiros cumes dos 14 oito-mil, entre 2016 e setembro de 2025, 25 das quais sem oxigénio suplementar.
O efeito Nims
Purja ajudou a alterar a perceção internacional sobre quem pode ser o protagonista de uma expedição de alta montanha e essa projeção ganhou uma nova dimensão quando a história de Purja chegou à Netflix.
Em 2021, a plataforma lançou 14 Peaks: Nothing Is Impossible, um documentário que acompanha o alpinista durante o desafio de conquistar os 14 picos com mais de 8.000 metros em tempo recorde.
O filme permitiu que uma audiência muito além do universo do montanhismo conhecesse não só a dimensão quase inacreditável da façanha, mas também o homem por detrás dos números. Com o documentário, Nims deixou de ser apenas uma referência entre alpinistas para se tornar uma figura reconhecida internacionalmente.
Um final imprevisível
No Broad Peak, Purja liderava uma expedição internacional quando uma avalanche atingiu o grupo entre os campos 2 e 3, a cerca de 6.579 metros de altitude. Purja conhecia bem aquela montanha, já a tinha escalado durante a campanha dos 14 oito-mil e voltaria a fazê-lo no contexto das suas sucessivas tentativas de completar novamente a coleção de gigantes do planeta.
Contudo, a natureza é incontrolável e desse episódio Nirmal Purja deixou a sua maior lição: as montanhas não têm memória dos recordes. No topo de um oito-mil, Cristiano Ronaldo e Nims Purja teriam exatamente a mesma dimensão diante da natureza: nenhuma.
E talvez seja precisamente por isso que a história de Nims continua a ser tão fascinante.
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