Danna Tavira é uma casa e uma forma de mostrar Portugal
Danna Tavira é uma casa e uma forma de mostrar Portugal | João Guimarães
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Danna Tavira: uma casa portuguesa com muitas "Birkins"

Em Tavira, os cestos de cana convivem com a arquitetura de Manuel Aires Mateus, o design português e uma nova ideia de valor: reconhecer e qualificar aquilo que já é nosso. É uma casa, mas também é mais do que só uma casa.

A história da Danna Tavira começa de uma vontade de descobrir e viver um Algarve menos conhecido. Um Algarve para lá das imagens mais repetidas, dos grandes empreendimentos turísticos e das praias transformadas em cenário. Um território ainda marcado pela autenticidade das suas cidades, pelas paisagens do barrocal, pelos gestos artesanais e por uma relação antiga com o mar.

“Essa vontade nasceu também de uma ligação anterior à Terra Estreita, onde costumávamos passar alguns dias de verão numa pequena cabana, originalmente construída como apoio de pesca a uma exploração de ostras. Era uma experiência muito simples, próxima da natureza e da vida local, que nos permitia sentir um Algarve diferente: menos evidente, menos turístico, mais verdadeiro” explica Carlos Coelho, proprietário da Danna Tavira.

Com a sua mulher, Alessandra Monteiro, começaram por procurar um terreno no barrocal, onde pudessem reconstruir uma casa antiga ou desenvolver um novo projeto. Durante essa procura, surgiu a possibilidade de adquirirem um conjunto de casas em Tavira numa das praças mais charmosas da cidade, junto ao castelo e a poucos metros do Palácio da Galeria. “O lugar era extraordinário. Não estava apenas no centro histórico: estava no coração do centro histórico, junto das igrejas, dos jardins e das ruas onde a vida de Tavira acontece, mas protegido das multidões e do ruído. Um lugar de recolhimento no centro de tudo” contam-nos.

O casario reabilitado pelo atelier do arquiteto Manuel Aires Mateus, seria a casa onde o casal passaria uma parte do ano. O destino alterou ligeiramente esses planos iniciais, “mas o projeto de hospitalidade manteve os mesmos princípios com que construiríamos uma casa para nós próprios”.

A Danna Tavira não foi concebida a partir de um modelo hoteleiro. Foi construída a partir de princípios de vida: a valorização do que é português, o respeito pela arquitetura, o prazer de receber, a atenção ao detalhe e a convicção de que o Portugal contemporâneo pode ser mostrado através dos espaços que habitamos e dos objetos com que vivemos.

“Queríamos criar uma proposta turística exclusiva e altamente qualificada, capaz de apresentar um país atual, culto e caloroso. Um Portugal que se revela através da arquitetura de Manuel Aires Mateus, do paisagismo de Maurice Levy, do design, dos materiais, do artesanato, da arte, da gastronomia e da relação com a cidade” diz Carlos Coelho que assumiu a curadoria do projeto.

A arquitetura como ponto de partida

A reabilitação respeita a identidade das casas tradicionais de Tavira, os seus volumes, os telhados de quatro águas, os pátios e a relação entre o interior e o exterior. É uma arquitetura minimalista, mas não fria; depurada, mas preparada para receber. Há nela silêncio, luz e proporção, mas também conforto, matéria e intimidade. Passar férias numa peça de arquitetura singular é, por si só, uma experiência pouco comum. São raros os projetos de autor desta natureza disponíveis para serem realmente habitados e não apenas visitados ou contemplados.

“No interior, procurámos que cada escolha contribuísse para essa ideia de Portugal contemporâneo. Sempre que foi possível, escolhemos materiais, empresas, designers, artistas e artesãos portugueses”. A tijoleira de Santa Catarina, os mármores e os azulejos desenhados pelo próprio arquiteto convivem com mobiliário contemporâneo e com peças tradicionais portuguesas. As mesas da Branca Lisboa, de Marco Sousa Santos, e as peças da Solfalca, de Tony Grilo, juntam-se ao mobiliário da Adico e a outros exemplos do design português.

As camas foram desenvolvidas para a Danna Tavira pela Colunex e os lençóis são da Pato Rico. As toalhas, produzidas em Viseu pela Abyss & Habidecor, são feitas com algodão egípcio de fibra longa, os copos são da Vista Alegre, a louça da Costa Nova e os talheres de cutelarias portuguesas. Há também cadeiras desenhadas em colaboração com um artesão algarvio, muita cestaria e objetos ligados a projetos como o TASA e o Loulé Criativo, além de peças de artesãos de Tavira, do Algarve e do Alentejo.

“Mais do que cumprir uma regra rígida de origem, interessava-nos construir uma coerência. Os objetos que não são portugueses foram escolhidos por pertencerem à cultura mediterrânica, por serem produzidos por empresas familiares ou exemplos de bom design. Algumas peças foram distinguidas internacionalmente pela sua qualidade funcional e estética. Acreditamos que a estética é também uma forma de funcionalidade. Um objeto não serve apenas para cumprir uma tarefa. Pode melhorar a relação com o espaço, tornar um gesto mais agradável e dar significado à experiência quotidiana” diz Carlos Coelho.

A arte também tem o seu lugar. No piso inferior encontram-se obras de Idalécio; no piso superior obras de Pedro Oliveira. A Danna Tavira cruza a arte popular com linguagens mais contemporâneas. São casas de férias e de praia, mas não obedecem ao estereótipo visual. “Não quisemos importar para Tavira a estética de outros lugares, nem reproduzir aquilo a que poderíamos chamar uma estética da Comporta.

A Danna Tavira é formada por três portas, três casas autónomas, todas com cozinha, que podem ser habitadas separadamente ou conjugadas. Cada uma oferece uma maneira diferente de viver Tavira: através de um pátio privado, de um terraço panorâmico ou de um jardim com piscina. A Porta 7 é a casa mais íntima; a Porta 10 abre-se sobre os tradicionais telhados da cidade e a Porta 11 prolonga-se para um jardim com piscina. Três formas de viver o mesmo conceito de Portuguese Design House.

“As cozinhas são uma parte essencial da experiência. Queremos convidar as pessoas a sair da rotina turística habitual: ir ao mercado de Tavira, escolher legumes, frutas, peixe e outros produtos locais, regressar a casa, preparar uma refeição, conversar num pátio ou jantar num terraço são formas de criar uma relação mais profunda com o lugar. Para quem não pretende cozinhar, existe a possibilidade de ter um chef em casa” revela Carlos Coelho.

Existem também serviços de massagens, aulas de ioga em casa e pet sitting para os hóspedes que viajam com animais e desejam passar algumas horas na praia ou jantar com tranquilidade. “Acima de tudo, existe a Sali, a nossa house manager local. É ela quem recebe e acompanha os hóspedes, mas é também uma espécie de concierge local, embora gostemos de lhe chamar um concierge “not fancy”. Conhece Tavira por dentro, as pessoas, os pequenos negócios, o taxista, o vendedor da praça, os restaurantes, as pastelarias e os gelados da Muxagata..."

A localização convida a viver a cidade a pé e a sucessão de praias próximas é uma das grandes singularidades de Tavira, mesmo no auge do verão continua a ser possível encontrar espaço, silêncio e uma relação direta com a natureza. “Sente-se o Algarve que já foi e as muitas civilizações que por aqui passaram. Romanos, muçulmanos, cristãos e habitantes contemporâneos foram construindo sucessivas camadas de cultura e memória. Tavira é uma espécie de mil-folhas de história e a Danna pretende integrar-se nessa sobreposição sem apagar nenhuma das suas camadas” explica o proprietário. 

“Temos muitas Birkins na Danna Tavira”

Um dos objetos que melhor resume esta reflexão são os tradicionais cestos de cana do Algarve. Jane Birkin usava um cesto semelhante antes de a Hermès criar, com o seu nome, uma das malas mais icónicas e valiosas do mundo.

“Costumo dizer que temos muitas Birkins na Danna Tavira. Não são malas da Hermès: são cestos portugueses feitos à mão, objetos que transportam identidade, saber e beleza, mas cujo verdadeiro valor ainda não aprendemos inteiramente a reconhecer. Valorizar esses objetos não significa apenas aumentar o seu preço. Significa reconhecer o trabalho de quem os produz, garantir a continuidade das técnicas e compreender que aquilo que é local, aparentemente modesto ou antigo pode tornar-se profundamente contemporâneo” reflete Carlos Coelho. 

Embora tenha a classificação de alojamento local, a Danna Tavira é, antes de tudo, uma forma de mostrar Portugal.  Está alinhada com o trabalho que Carlos Coelho tem desenvolvido ao longo da sua vida: olhar para a identidade portuguesa, reconhecer aquilo que nos distingue e procurar transformar essa diferença em valor. “Em cada escolha procurei colocar esse olhar sobre Portugal: um país que não precisa de se tornar artificialmente sofisticado, mas que precisa de aprender a reconhecer, qualificar e comunicar o valor daquilo que possui. O turismo não pode continuar a funcionar como uma máquina de diminuir valor, baseada apenas na quantidade, na comparação de preços e na repetição de modelos. Tem de se tornar uma máquina de multiplicar valor: para os hóspedes, para os artesãos, para os produtores, para os restaurantes, para as pessoas que vivem na cidade e para o próprio território” acrescenta.

A Danna Tavira é habitar Portugal por alguns dias. Não um Portugal encenado, estereotipado ou nostálgico, mas um Portugal contemporâneo, sensível às suas raízes, confiante na sua cultura e capaz de transformar identidade em experiência e experiência em valor.

Vê a galeria de imagens.

Informações e reservas:
www.dannatavira.com
www.bovistas.com
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