'You Hand Me' | Fotografia: Ricardo Pereira da Silva
'You Hand Me' | Fotografia: Ricardo Pereira da Silva
Design e Artes

O que acontece quando uma criança e uma figura pública se encontram?

Falámos com Ricardo Pereira da Silva, um fotógrafo e contador de histórias, sobre o seu mais recente projeto: uma exposição e um livro que unem crianças vulneráveis e figuras públicas nacionais.

Há quem use as palavras para contar histórias. Já outros preferem meios como a fotografia. Ricardo Pereira da Silva consegue unir as duas artes no Rawphotology, o seu website, onde destaca diferentes tipos de pessoas - de artistas a médicos -, com textos e muitos retratos. 

Ricardo tem feito carreira, ao longo de mais de 25 anos, como marketeer, estratega e criativo publicitário para marcas de renome. É um homem com várias facetas, mas "fascinado por fotografia desde criança", contou em entrevista à VERSA. Tem ainda uma paixão insaciável por pessoas e por ajudá-las a passar a sua mensagem.

Graças a isto surgiu o seu mais recente projeto, o livro You Hand Me - Mãos que Transformam Vidas, no qual reúne dezenas de histórias que resultam de um encontro improvável entre uma criança ou jovem apoiado pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC) e uma figura pública, como Dino d’Santiago, Clara de Sousa, Daniel Sampaio, Afonso Cruz, Vitória Guerra, entre muitos outros.

Ricardo Pereira da Silva

Falámos com Ricardo Pereira da Silva sobre o seu novo livro, com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República, e apresentado no início de maio, mas também sobre os seus outros projetos e, claro, as histórias que continuará a contar.

Como nasceu a ideia para este livro?

A ideia foi, desde o início, ter um um projeto fotográfico, materializado numa exposição e num livro que, por um lado, aproximassem o IAC das pessoas que não o conheciam e, por outro lado, que gerasse receitas para apoiar o forte investimento que o IAC faz todos os dias, para ajudar crianças, de forma tão enérgica e abnegada. Por coincidência, acabou por resultar, também, num projeto que assinala os 40 anos do IAC, não tanto numa perspectiva de regozijo pela obra feita, mas mais de vitalidade e determinação face a um futuro, cada vez mais exigente e assimétrico a nível social.

O que o motivou - pessoal e profissionalmente - a embarcar neste projeto com o IAC?

A motivação foi acima de tudo pessoal. Foram e são as crianças, antes de tudo e sempre: as vulneráveis, as que estão mais à mercê da irresponsabilidade dos adultos que, um dia, também foram crianças. E o facto de as poder ajudar, com aquilo que sei e tenho, através do IAC. Depois, motivou-me o IAC, em si, por ser a grande instituição de apoio à criança, em Portugal, pela sua obra e pela credibilidade que granjeou através da sua obra, e que foi fundado por uma senhora que conheci quando tinha nove anos e que admirei, desde sempre: Manuela Ramalho Eanes.

Mãos de Clara de Sousa e de Romina Soares | Fotografia: Ricardo Pereira da Silva

A nível profissional, enquanto fotógrafo e storyteller, foi muito interessante, inédito e de um grande simbolismo social, termos escolhido este caminho de não mostrar rostos, mas as mãos de crianças que querem agarrar o mundo, em igualdade de circunstâncias; e rostos que tão bem conhecemos dos media, mas cujas mãos vivem quase sempre na sombra, apesar da sua importância. E foi aí que se tornou evidente o slogan que criamos, que não deixa de ser uma crítica construtiva e desafiadora à sociedade e ao moralismo de algibeira dos nossos tempos, que quase sempre morre nos caracteres de um post ou de um comentário: É fácil dar a cara. Difícil é dar a mão.

Como foi feita a seleção das crianças/jovens e das figuras públicas?

No caso das crianças e jovens, o IAC tentou encontrar um grupo diverso e representativo, dos 10 aos 22 anos, entre jovens que, hoje, são o espelho da ação bem sucedida do IAC, sendo alguns deles seus representantes ativos; e crianças que são, atualmente, alvo da intervenção e apoio.

No caso das figuras públicas, ambos sugerimos nomes de diversas áreas da sociedade, mas o critério foi unânime: tinham de ser personalidades credíveis, reconhecidas pelas suas ações e conduta de vida, e que impactassem, em qualidade e quantidade, pessoas que se movem por grandes causas. 

De que forma acha que estas figuras inspiraram as crianças e, talvez, vice-versa?

Acho que foi mais o vice-versa, porque qualquer adulto e em especial estes, que escolhemos convidar, tenha ou não uma vida de sucesso, ao lidar com o rosto de uma criança que é o rosto da injustiça social e da vulnerabilidade, é impactado pela violência da perspectiva. E, neste caso, a realidade ainda supera largamente a ficção.

No caso das crianças, foi engraçado perceber que a maior parte das personalidades a quem deram a mão, não era uma referência para elas, porque estamos a falar de pessoas que são uma referência para pessoas doutra geração, na sua maior parte, até pelo que fazem e como o fazem. 

"A diferença entre estas crianças e estas personalidades, que fotografei e entrevistei, está somente e afinal, na idade e na quantidade de oportunidades de escolher um futuro melhor e poder lutar por ele."

Qual foi o maior desafio deste projeto?

Pessoalmente, não desabar, ao fazer algumas entrevistas - e não me refiro somente às das crianças. E também não me deixar levar pelas emoções. Houve um momento em que percebi que, sem perder a noção do que me fez criar este projeto, tinha que primar por alguma insensibilidade e alguma distância, para conseguir manter o foco e produzir o conteúdo a que me tinha proposto. O que, para mim, é algo muito complicado, por ser alguém tão emocional.

Mãos de João Só  | Fotografia: Ricardo Pereira da Silva

O que espera que o público leve deste livro - enquanto mensagem social e humana?

A repetição exaustiva da mensagem: sozinhos, não fomos, nem somos, nada nem ninguém. E a confirmação do seu exemplo: por detrás dum rosto conhecido, também pode haver desafios e dores que todos conhecemos e já vivemos; e já houve uma criança, com medos e sonhos. A diferença entre estas crianças e estas personalidades, que fotografei e entrevistei, está somente e afinal, na idade e na quantidade de oportunidades de escolher um futuro melhor e poder lutar por ele.

E a fotografia - como se articulou com o texto? Existem imagens que o marcaram particularmente?

Naturalmente, porque as fotos mostram duas pessoas - que até esse momento eram desconhecidas, uma para a outra - a darem as mãos; e os textos, que acompanham as fotos, versam, essencialmente, sobre a homenagem a pessoas que deram a mão a cada uma das pessoas que fotografei e entrevistei, e que, ao fazê-lo, lhes mudaram a vida.

Tenho um carinho enorme por cada foto, por cada história que me foi confiada e pela paciência de cada um, face ao meu nível de exigência. Pessoalmente e a nível fotográfico, tenho uma preferida, não tanto pelo processo fotográfico, mas pelo resultado pictórico e pela mensagem que encerra: a das mãos da Clara de Sousa e da Romina Soares, porque é uma ode ao modus operandi do IAC, que não só fornece o peixe mas, acima de tudo, motiva, encoraja, engrandece e ensina a pescar.

"A fotografia é uma desculpa que encontrei para poder olhar demoradamente e sem pudor, para uma pessoa; e fascinar-me ao conhecê-la, uma e outra vez, pelo mundo de histórias que cada pessoa carrega."

Descreve o seu projeto, o Rawphotology, como algo dedicado a pessoas e não a fotografia. Como é que esta perspetiva influencia a forma como aborda cada sessão fotográfica?

Com um enorme respeito e, não raras vezes, com aquele medo de falhar e de não estar à altura, que tantos artistas enfrentam: não pelo medo de falhar na interação com a pessoa, mas pelo medo dessa interação me emocionar e envolver tanto, que me faça distrair da parte técnica da fotografia.

Sou fotógrafo por causa das pessoas. Se não fossem as pessoas, já me tinha fartado, como me fartei tantas vezes, de fotografar, ao longo dos anos. Fui marketeer e publicitário durante anos. Não gostei de conhecer as pessoas através da estatística e de estudos de mercado. Detestei contribuir, através da publicidade, para que as pessoas queiram ser melhores que as outras e não tanto melhores umas para as outras - que é o que mais vejo, hoje, nas redes sociais e na sociedade, em geral.

A fotografia é uma desculpa que encontrei para poder olhar demoradamente e sem pudor, para uma pessoa; e fascinar-me ao conhecê-la, uma e outra vez, pelo mundo de histórias que cada pessoa carrega. Como costumo dizer, através do visor das minhas câmaras, só vejo pessoas bonitas e boas pessoas, que têm medo de não ser suficientemente bonitas, ao ponto de nem sempre serem a sua melhor versão. 

Quais são os planos para o futuro da Rawphotology?

Resistir, no sentido de não desistir das pessoas e da melhor versão delas. O mundo está feito para que as pessoas se mascarem, criando um fosso insustentável entre o que são e o que a sua fotografia mostra; para que sejam parecidas entre elas e não denunciem a sua personalidade, hipotecando o seu carisma. 

Enquanto houver uma pessoa que quer ser igual a si mesma, orgulhosa e assumidamente, continuarei a revelá-las, seja através da fotografia ou das entrevistas que criei, para dar a conhecer aquelas que o mundo não pode adormecer sem saber que elas existem. Enquanto isso, vou sempre fazendo o meu workshop, especialmente com empresas, para preparar pessoas para serem a sua melhor versão em público e também para cultivar nas pessoas, a curiosidade e o gosto de ver os outros, através da lente mais perfeita do mundo: os olhos

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