Fotografia: reprodução do filme 'I Swear' (2025)
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"Está tudo bem": a mentira mais perigosa de todas

No Dia das Mentiras, aquela que já todos dissemos... A explicação num artigo educativo pela Drª Maria Moreno, médica psiquiatra.

Drª Maria Moreno, médica psiquiatra

A mentira não é só aquilo que dizemos uns aos outros. A mentira é aquilo que repetimos tantas vezes que passa a parecer verdade. Para nós próprios.

Na saúde mental, há mentiras muito bem vestidas. Soam seguras. Soam lógicas. Soam a “toda a gente sabe”. E é aí que está o problema.

“Não estou assim tão mal.”. “Se ninguém nota, é porque está tudo bem.”. “Eu resolvo isto sozinho.”.

Há uma ideia muito perigosa de que a doença mental tem de ser visível para ser real. Não tem.

A maioria das pessoas que eu vejo em consulta funciona, trabalha, cuida dos filhos, cumpre horários, responde a mensagens. Por fora está tudo bem. Por dentro, não está.

E é aqui que entram as mentiras. As que se repetem. As que parecem normais. As que atrasam ajuda.

Vamos a cinco.

1. “Se ninguém repara, é porque não é grave.”

Mentira. A depressão não tem sempre cara de tristeza. Muitas vezes tem cara de produtividade. Pessoas que chegam e dizem: “Dra., ninguém faz ideia.”. E não fazem mesmo. Mas isso não torna o sofrimento menor. Só o torna mais solitário.

2. “Isto passa.”

Às vezes passa. Muitas vezes não.

Pode ser uma fase mas quando a fase dura meses, quando já mudou a forma como pensa, dorme, trabalha e se relaciona, já não estamos a falar de uma fase. Estamos a falar de doença. O que eu vejo são meses – às vezes anos – à espera que passe.

E o que era tratável transforma-se em algo mais pesado, mais arrastado, mais difícil de recuperar. Quando pergunto, as pessoas dizem-me “já não me lembro de qual é o meu normal” – esta é uma das frases que nunca deixa de me impressionar.

3. “Eu resolvo isto sozinho.”

É das mais comuns. E das que mais custa.

Resolver sozinho não é força de vontade. E significa, a maioria das vezes, uma ajuda que vai chegar tarde e a más horas.

Quem pede ajuda não falhou. Chegou a tempo.

4. “Não quero medicação, não quero ficar dependente.”

Os antidepressivos não criam dependência.

O que prende uma pessoa é continuar doente. E o medo da medicação continua a afastar pessoas de tratamentos que funcionam.

5. “Preciso de trabalhar. Não posso fazer medicação porque não quero ficar zombie”.

É importante reforçar que não, os medicamentos psiquiátricos não deixam os doentes a dormir o dia todo, “Zombies” ou incapazes de trabalhar. Estaríamos a trabalhar muito mal se isso fosse verdade. O objectivo é a pessoa retomar a sua funcionalidade e maximizar o seu potencial.

Os antidepressivos contemporâneos têm poucos efeitos adversos e, quando existem, são na sua maioria mitigáveis e reversíveis com ajustes terapêuticos. Há uma grande variedade de antidepressivos que não engordam e não são sedativos, que são dois dos principais medos.

Estas mentiras são silenciosas. Não fazem barulho. Não chocam. Pelo contrário – parecem sensatas.

E é exatamente por isso que são perigosas.

Porque são estas frases que fazem as pessoas esperar. Adiar. Minimizar.

Até deixarem de conseguir.

Na saúde mental, o problema raramente é falta de sintomas. É negação em excesso.

E muitas vezes começa com uma frase simples: “Está tudo bem.” E não está.

Se este texto fez sentido, talvez seja porque já ouviu isto. Ou já disse.

Feliz Dia das Mentiras.

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