Diogo Fernandes
Diogo Fernandes | Diogo Navy
Design e Artes

Diogo Fernandes: O ego fica no bolso. A curiosidade fica em cena

Entre o palco e a televisão, Diogo Fernandes fala da disciplina, da curiosidade e da procura constante por se tornar melhor — como ator e como pessoa.

Há atores que vivem da transformação. Outros da presença. E depois há aqueles que parecem fazer da inquietação o seu verdadeiro palco. Aos 28 anos, Diogo Fernandes, um talento jovem ou um jovem talento, pertence a esta última categoria. Não porque procure constantemente reinventar-se para corresponder às expectativas de uma indústria em permanente mudança, mas porque encara cada projeto como uma oportunidade para descobrir mais qualquer coisa sobre si, sobre os outros e sobre o mundo que o rodeia.

Nos últimos meses, dividiu-se entre dois universos exigentes. Enquanto esgotava salas no Teatro da Trindade com O Clube dos Poetas Mortos, dava vida a Ricardo Murteira, uma das personagens centrais da novela da TVI A Madrasta. Dois ritmos, duas linguagens, dois processos criativos que obrigaram a uma gestão rigorosa do tempo, da energia e da capacidade de permanecer inteiro entre ensaios, gravações e horas de estudo. Pelo caminho, houve ainda espaço para aprender saxofone de raiz, apenas porque uma personagem assim o exigia.

Mas reduzir Diogo Fernandes ao momento que atravessa seria perder aquilo que verdadeiramente o distingue. Antes de ser ator, estudou Engenharia Informática. Antes de subir aos palcos, já procurava diferentes formas de expressão artística. Hoje, continua a olhar para a profissão com a mesma curiosidade de quem acredita que representar não é provar talento, mas aprender a observar sem julgar.

Ao longo desta conversa, fala da disciplina herdada da engenharia, da liberdade que encontrou na representação, do que é um tal conceito de fama, da escolha consciente de preservar o seu mundo numa época em que tudo parece ter de ser conteúdo e da importância de continuar a construir uma carreira sem perder autenticidade. Entre a serenidade que transmite e a inquietação que admite sentir, revela-se um homem que prefere as perguntas às respostas definitivas e que encara a generosidade como o verdadeiro sucesso de um artista.

No fim, talvez seja precisamente essa a maior surpresa. Num meio onde tantas vezes se confundem visibilidade e reconhecimento com talento, Diogo parece menos interessado em ser visto do que em continuar a crescer. E é dessa procura — tranquila, exigente e profundamente humana — que nasce esta conversa.

Diogo Fernandes
Diogo Fernandes | Fotografia: Diogo Navy

Há quem diga que a televisão cria atores e quem defenda que apenas os torna conhecidos. Entre o palco e o pequeno ecrã, o que pensa ou aprende sobre cada experiência?

Acho que a televisão aproxima os atores das pessoas. Entra-lhes em casa todos os dias e cria uma familiaridade. Mas não acho que isso faça de ninguém melhor ou pior ator. O palco e a câmara são linguagens diferentes e requerem ferramentas diferentes, mas no fundo procuram a mesma coisa: contar uma história. Tenho aprendido muito nos dois sítios e sinto que um alimenta o outro.

Enquanto o Trindade esgotava com O Clube dos Poetas Mortos, o Diogo já gravava a novela. O desafio certamente foi grande… Como se foge de uma personagem para outra em palcos tão diferentes?

Para mim, foi um desafio enorme na gestão do meu tempo, da minha energia e do meu bem-estar. Na verdade, não foi tanto passar de uma personagem para a outra, mas conseguir manter-me consistente e eficiente nos dois projetos sem deixar que um comprometesse o outro. Houve dias em que saía dos ensaios do espetáculo perto da meia-noite e entrava no estúdio às 8h30 para gravar no dia seguinte. Pelo meio, ainda tinha de decorar texto para ambos os projetos e praticar saxofone, instrumento que comecei a aprender para o espetáculo. Há uma cena em que toco um solo de saxofone e nunca tinha tocado o instrumento antes. Foi um desafio adicional aprendê-lo em apenas dois meses, com a ajuda do saxofonista Nuno Rizzo.

O Ricardo Murteira, em A Madrasta, parece viver muito a partir da necessidade de provar alguma coisa. Há alguma parte dessa inquietação que reconhece em si?

Acho que todos nós, em algum momento, queremos provar alguma coisa, seja a nós próprios ou a alguém. Quando comecei a trabalhar como ator, havia essa vontade de mostrar que era capaz, mas hoje sinto que essa necessidade está muito mais virada para mim próprio. Quero continuar a crescer, a fazer melhor e a surpreender-me. Tento cada vez menos trabalhar para provar alguma coisa aos outros.

Estudou Engenharia. Em que momento percebeu que o plano mais seguro da sua vida já não era aquele que o fazia mais feliz?

Eu já sabia que queria ser ator desde a adolescência. Fui estudar Engenharia Informática com a ideia de terminar a licenciatura e de ter uma forma de me sustentar financeiramente, caso fosse necessário, enquanto procurava tornar-me ator profissional. A minha vocação nunca foi a informática, mas hoje também não sinto que tenha sido tempo perdido. Deu-me ferramentas importantes, como capacidade de trabalho, raciocínio lógico e espírito de sacrifício, que levo comigo para a vida.

A Engenharia ensina-nos a encontrar respostas. A representação parece viver de fazer perguntas. Como convivem essas duas versões do Diogo?

Tem vindo a ser uma aprendizagem. A engenharia ensinou-me a procurar respostas e a confiar muito na lógica. A representação ensinou-me que nem tudo tem uma resposta certa. Continuo curioso, gosto de perceber como é que as coisas funcionam e tendo naturalmente a analisar o mundo dessa forma, mas desde que sou ator tenho feito o exercício de abandonar algumas certezas e de não me deixar limitar por ideias demasiado rígidas sobre o que está certo ou errado.

É ator, toca instrumentos como saxofone, guitarra, e ainda canta… podemos dizer que não é só a representação que o deixa feliz no mundo da arte?

A representação é onde me expresso profissionalmente, mas a música acompanha-me desde muito novo. Quando era mais novo costumava compor e escrever letras de músicas. Juntei um grupo de amigos para formar uma banda, onde tocámos alguns originais meus e chegámos até a dar um concerto. Continuo muito curioso e gosto de aprender coisas novas e de explorar diferentes formas de me expressar. Também gosto muito de dançar, principalmente hip-hop. A consciência corporal que a dança me tem dado influencia bastante o meu trabalho enquanto ator. No fundo, acho que todas estas áreas acabam por se alimentar umas às outras.

E por falar em música… há alguma canção que gostasse que definisse este momento da sua vida? E porquê?

Tenho muitas, mas a primeira que me veio à cabeça foi Be Still, dos The Killers. É uma música que tenho ouvido muito nos últimos tempos e com a qual me identifico bastante nesta fase da minha vida. Quanto ao porquê, diria apenas a quem a ouvir para prestar atenção à letra.

O Diogo tem uma imagem muito serena. Isso corresponde à realidade ou estamos a falar do mais extrovertido no seu grupo de amigos?

Corresponde em parte. Sou uma pessoa calma, gosto de ouvir e de observar e tento manter serenidade na minha vida. Mas, com as pessoas de quem gosto, também posso ser bastante brincalhão e extrovertido. A minha mãe costuma dizer que, quando era mais pequeno, era hiperativo, sempre o último a querer deixar de brincar. Queria sempre mais.

Qual a personagem que leva para a vida… quem sabe, para esse mesmo grupo de amigos?

Levo um bocadinho de todas. Aprendo muito com elas. Fazem-me pensar sobre mim próprio e sobre a forma como me relaciono com os outros. Talvez aquilo que mais tente guardar seja a curiosidade pelas pessoas. Acho que o exercício de observar uma personagem e tentar não a julgar pode também ser uma boa prática na forma como olhamos e lidamos com as pessoas das nossas vidas.

Diogo Fernandes
Diogo Fernandes | Fotografia: Diogo Navy

Há alguma personagem que recusaria interpretar, mesmo que fosse a oportunidade de uma vida?

À partida, não. O meu trabalho não é defender ou concordar com uma personagem, é compreendê-la. O contexto e a forma como uma história é contada são, para mim, mais importantes. Se um projeto tratar temas difíceis através de uma lente de honestidade, consciência e inteligência, teria todo o interesse em participar.

Qual foi a última vez que pensou seriamente em desistir desta profissão? Acredita ter sido a última?

Nunca considerei verdadeiramente desistir. Já pensei se seria mais feliz a fazer outra coisa, se estou disposto a viver com esta incerteza constante e em formas de lidar com a

imprevisibilidade de não saber quando vou ou não ter trabalho. É uma profissão muito instável e, na maior parte das vezes, o facto de trabalharmos mais ou menos não depende apenas de nós.

O palco dá aplausos imediatos. A televisão dá audiências e comentários nas redes sociais. Qual dos dois pesa mais no ego de um ator (se é que pesa)?

Há uma frase que me ficou na cabeça, embora nem me lembre exatamente onde a ouvi: "O ego do ator fica no bolso." Os aplausos e o carinho do público sabem sempre bem, mas também podem ser perigosos se começarmos a depender deles para medir o valor do nosso trabalho ou o nosso próprio bem-estar. Tento pensar que o mais importante para mim continua a ser o trabalho e o processo colaborativo. O resto vai e vem.

Já percebeu que hoje um ator também é, de certa forma, uma marca? Como gere essa necessidade de estar presente, de ir a um evento, de dar esta entrevista… sem deixar de ser o Diogo? Há "fretes" necessários?

Acho que é uma realidade da profissão e faz parte. Mas tento que tudo o que faço tenha coerência com quem sou, com aquilo que me faz sentir bem e com o percurso que quero construir. Não sinto que tenha de estar em todo o lado. Prefiro fazer menos coisas, mas sentir que fazem sentido para mim. Acho que a autenticidade acaba por ser a estratégia mais sustentável.

Num mundo que parece viver de redes sociais, o Instagram do Diogo mostra muito pouco da sua vida privada. É uma escolha consciente ou simplesmente nunca sentiu necessidade de transformar a intimidade em conteúdo?

É uma escolha consciente. Hoje existe alguma pressão para transformar tudo em conteúdo. Gosto de partilhar o meu trabalho e algumas coisas que me façam sentido partilhar, mas sinto que há uma parte da minha vida que faz sentido existir fora das redes sociais, tanto a nível pessoal como para o meu trabalho enquanto ator, que passa precisamente por desaparecer nas personagens que faço. Acho que alguma distância também ajuda a preservar algum mistério, o que também acho ser importante para um ator.

Diogo Fernandes
Diogo Fernandes | Fotografia: Diogo Navy

Se pudéssemos passar um dia ao estilo do Diogo… iríamos conversar sobre o quê? E onde nos levava?

Provavelmente acabávamos, ao final da tarde, num sítio qualquer isolado, no meio da natureza, sentados numa toalha, descalços, a falar sobre questões existenciais, propósito de vida ou comportamento humano. Gosto muito de estar ao ar livre. Cresci no campo e isso faz muito parte de quem sou. Gosto de conversas longas e de refletir sobre a mente humana e sobre aquilo que leva as pessoas a agir como agem. São temas que me cativam e sobre os quais gosto muito de ler, aprender e tentar compreender melhor.

Qual é o luxo de que nunca abdica? Sem pensar em gastos — pode ser um café sozinho, um disco em vinil ou até caminhar na praia…

Não tenho grandes luxos. Mas aquilo de que nunca abdico é de tempo com os meus. Com as pessoas que amo.

Tem 28 anos e já passou pela engenharia, pelo teatro, pela música e pela televisão. Sente que já descobriu exatamente o seu lugar feliz?

Sinto que estou mais perto dele. Sem dúvida que é rodeado de pessoas de quem gosto, com quem possa trabalhar de forma artística, pensar e criar em conjunto, que me sinto mais eu. Mas espero nunca sentir que já cheguei. Gosto da ideia de continuar curioso, em construção e à procura. Ainda sinto que estou muito no início e tenho muita vontade de continuar a aprender, de fazer filmes e outros projetos que me desafiem, de trabalhar com pessoas que admiro e de me pôr constantemente em situações onde seja obrigado a crescer e que me façam voltar a sentir aquele entusiasmo de quando comecei.

Quando chegar aos 50 anos, gostava mais que dissessem "é um grande ator" ou "um artista impossível de encaixar numa só definição"?

Gostava que dissessem que fui uma pessoa honesta. Um bom colega. Um bom amigo. Que trabalhei com curiosidade, que arrisquei e que nunca deixei de aprender. Espero nunca perder a capacidade de me entusiasmar nem de olhar para os outros com generosidade.

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