Imagem de uma caricatura de Trevor Noah e Donald Trump gerada por DALL-E
Imagem de uma caricatura de Trevor Noah e Donald Trump gerada por DALL-E
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Não é fé. É fandom. Como ver o messias Trump pelas trincheiras de um humorista

Há qualquer coisa de profundamente revelador na forma como Donald Trump continua a ser representado — não como político, nem sequer como figura controversa, mas como algo mais elevado, quase intocável. Ultimamente, a iconografia tem sido explícita: poses, luz, enquadramentos… ecos de Jesus Cristo.

Não é fé. É fandom.

E o fandom, ao contrário da fé, não exige transcendência — apenas lealdade emocional. Não precisa de coerência, só de narrativa. E, acima de tudo, não tolera dissidência: quem critica não está a discordar, está a trair.

Donald Trump publica imagem gerada por I.A (entretanto eliminada) | TruthSocial.com/@realDonaldTrump

Trump percebe isto melhor do que muitos analistas políticos. Ele não comunica como um líder — comunica como uma marca. E, como qualquer marca bem-sucedida, não vende apenas uma ideia. Vende pertença. E não, uma marca não precisa da verdade, mas precisa da repetição. Do impacto. Da capacidade de ocupar espaço, mesmo que esse espaço seja feito de exagero, simplificação ou contradição. Afinal, o marketing não corrige a realidade; substitui-a por uma versão mais fácil de consumir.

E Trump não vende factos — vende sensação de certeza. Não resolve complexidade — reduz tudo a slogans. E, como qualquer produto bem embalado, quanto mais simples parece, mais facilmente se espalha.

Mas convém não suavizar demasiado: essa pertença constrói-se muitas vezes à custa da distorção, da provocação calculada e de uma relação elástica com a verdade. Não é apenas estilo — é método. Um método que vive do confronto, que simplifica o complexo até ao absurdo e que transforma adversários em inimigos e crítica em perseguição.

E é aqui que a coisa deixa de ser caricata.

Porque quando a política entra no território do fandom, deixa de ser sobre escolhas racionais e passa a ser sobre identidade. Já não se discute o que é verdade — defende-se “quem é o nosso”. E, nesse ponto, a linha entre apoiar e idolatrar não só desaparece como deixa de fazer falta.

A imagem de Trump como “salvador” entra precisamente nesse território — mas importa esclarecer: esta leitura não nasce de nenhum diagnóstico direto de Trevor Noah. Quando o seu mais recente stand-up da Netflix foi gravado, essa iconografia ainda não tinha ganho a força atual. A extrapolação é minha — uma forma de olhar para mais uma camada da persona Trump através das mesmas lentes críticas que Noah usa: as das “trincheiras”.

E nessas trincheiras, Noah propõe algo desconfortável: encontrar lucidez através do humor. No especial centrado na ideia de joy in the trenches, o riso não é fuga — é ferramenta. Uma forma de desmontar o peso da personagem.

Enquanto o Presidente dos Estados Unidos transforma o espaço público num palco — chegando ao ponto de usar instrumentos de justiça como forma de intimidação simbólica (a ameaça de ação contra o próprio humorista é exemplo disso) — Noah faz o oposto. Observa, expõe, ridiculariza.

Porquê? Porque o humor tira peso ao mito.

E um mito sem peso é só… um homem.

E, neste caso, um homem cuja humanidade se dilui à medida que cresce a personagem. Porque a humanidade reconhece falhas, aceita limites, convive com a dúvida. Já a persona que Trump constrói alimenta-se do oposto: da certeza absoluta, da vitória constante, da necessidade de nunca recuar — mesmo quando isso implica torcer a realidade até ela caber na narrativa.

Vê-lo como “salvador” não é apenas caricatura profana. É um sintoma.

Não para a fé — essa, quando é genuína, não precisa de políticos nem de palcos. Mas talvez para a nossa capacidade de distinguir uma coisa da outra.

Trevor Noah não analisa essa imagem específica. Mas ajuda a criar o enquadramento para a perceber. Porque há momentos em que o humor não serve para suavizar — serve para revelar.

E talvez este seja um deles.

Não se trata de perder a fé — seja ela onde for colocada. Trata-se de não a entregar a quem a transforma em espetáculo.

Trata-se de perceber que a humanidade — a verdadeira — não se encontra em figuras elevadas por algoritmos ou aplausos, mas na capacidade de questionar, de duvidar, de recusar narrativas fáceis.

E, talvez mais importante, na coragem de ver para além da personagem.

Mesmo quando ela grita mais alto. Mesmo quando parece, para alguns, divina.

Porque quando deixamos de ver o homem por trás do mito, não estamos a acreditar mais.

Estamos apenas a pensar menos.

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