Na última década, com a fundação do Arab Fashion Council, a criação da Dubai Fashion Week (DFW), assim como o investimento em infraestruturas e numa cultura criativa e atrativa a novos talentos, o Dubai torna-se um player sério na indústria da moda mundial. E como tudo (ou quase tudo) nesta cidade, também, neste caso, tudo aconteceu…como foi sonhado acontecer.
O que antes parecia uma miragem, hoje é uma realidade: de montra de consumo de grandes marcas de luxo internacionais, a também ditar tendências e a competir com Paris, Milão ou Nova Iorque no calendário das Semanas de Moda.
A DFW acompanha a estratégia D33, a Agenda Económica do Dubai que tem objetivos como duplicar o PIB até 2033, e o Plano do Setor do Design para se afirmar como um centro global das indústrias criativas. A cada edição, ajuda a consolidar a posição deste Emirado como um novo protagonista no contexto da moda mundial. De espetador na front row, desfila agora no seu próprio palco.
A aposta em designers locais, mas também internacionais, é um dos fatores que a diferenciam de outras Semanas de Moda, e, neste início de setembro, mais de 30 designers dos Emirados, Malásia, Indonésia, Itália, França, Líbano, entre outras geografias, apresentaram as suas coleções primavera/verão 2026 no Dubai Design District.
“A DFW fez avanços incríveis nos últimos anos e é hoje um evento chave no calendário da moda internacional. Temos crescido a cada edição desde o lançamento oficial em 2023, e agora atraímos uma vasta lista de designers de todo o Médio Oriente, Ásia, Europa e Américas. A cada temporada, vemos mais nomes internacionais que a escolhem como plataforma para apresentar as coleções, ao lado de talentos nacionais e regionais que, através da DFW, estabelecem contacto com os mercados globais. O evento é uma forma de chegarem a uma base de consumidores diversificada e recetiva a descobrir o valor do Dubai como encruzilhada cultural e comercial” explica à VERSA, Khadija Al Bastaki, vice-presidente do Dubai Design District (TECOM Group PJSC) cofundador do evento.
Antes das Semanas de Moda de Londres, Paris ou Milão, a DFW voltou a abrir o calendário internacional com a apresentação das coleções primavera/verão 2026. Desfiles com Alta-Costura e prêt-à-porter, com silhuetas estruturadas, volumes fluídos, bordados delicados em tecidos sustentáveis, criações que falam de identidade e de diversidade, que mostram um luxo reinventado e contemporâneo, que usam a tradição, o handmade e a inovação para criar narrativas culturais únicas.
“A moda é extraordinariamente relevante no GCC (Gulf Cooperation Council). Há um forte apetite por luxo e handmade, mas também por segmentos emergentes como a moda mais casual, streetwear e peças pre-loved. A DFW é única porque reflete a mistura cultural do próprio Dubai, temos marcas da Malásia, Indonésia, Nicarágua, Itália, Índia e muito mais. Designers da Alemanha, Holanda e Croácia também fizeram a sua estreia este ano. Soma-se o forte e crescente grupo de talentos dos Emirados Árabes Unidos e de toda a região” acrescenta Khadija Al Bastaki.
De evento regional para novos talentos e um mercado emergente na indústria, a imagem agora percecionada no mundo é a de uma capital criativa, a ponte entre o Oriente e o Ocidente e o hub estratégico para o setor em todo o Golfo. Os designers internacionais acrescentaram credibilidade, escala, notoriedade e relevância ao evento e ao próprio Emirado. Sim, a DFW é um soft power que posiciona o Dubai como um mercado onde não se consome só luxo, também se cria.
A moda sempre teve voz, aqui fala também sobre a estratégia da Marca Dubai.
Tendências ou a Identidade Cultural como tendência?
Na Semana de Moda, a sustentabilidade desfilou por várias marcas, em coleções com materiais sustentáveis e produção responsável, mas também se viu a tecnologia em tecidos inovadores e em padrões manipulados digitalmente.
“Esta edição junta de novo nomes consagrados e vozes emergentes. Conta com a colaboração Emergency Room x Timberland, a montra íntima da Sra. Keepa no Waldorf Astoria DIFC e o anúncio da parceria de Michael Cinco com a SOUEAST. O lado artesanal esteve muito presente, desde a Casa de Alta-Costura holandesa Chic & Holland ao italiano Gil Santucci, bem como o uso inovador de tecidos e elementos estruturais com o Fioletowy Studio e a tão esperada estreia da designer indiana Krésha Bajaj. Ao mesmo tempo, destaco a autenticidade cultural como elemento central na criatividade, como vimos na coleção de Rizman Ruzaini inspirada nas antigas florestas tropicais do Sudeste Asiático”, explica-nos Jacob Abrian, Fundador e CEO do Arab Fashion Council.
Se há uma grande tendência a vestir a próxima primavera/verão? Diríamos de forma simples, mas em nada simplista, que se traduz na forma como a contemporaneidade se conjuga com a singularidade (aqui tão diversa) da identidade cultural no ADN dos diferentes designers que se apresentaram no Dubai Design District.
“A NADA PUSPITA é uma marca que procura inovar, explorando novos caminhos criativos, através de cores e padrões, elementos indissociáveis da nossa identidade e presentes, tradicionalmente, também na forma de vestir na Indonésia. Nesta coleção falo sobre a essência da mulher: resiliente, bonita, elegante e adapta-se a diferentes estilos e culturas (como o uso do lenço). Foi (uma coleção) toda criada e produzida na Indonésia por artesãos locais”, diz-nos Indah Nada Puspita, fundadora e diretora criativa da marca.
Coleções com bordados intrincados; cortes quase arquitetónicos; malhas transparentes feitas à mão; chapéus oversized; peças que vivem de drapeados e franjas; o “quiet luxury” na versão sedas e organza; alfaiataria; estampados do animal print às rosas abstratas em homenagem à flor nacional do Iraque; Alta-Costura inspirada na simbologia da antiga Babilónia; criações experimentais que antecipam o futuro da moda no Dubai como quem nos diz: estamos só a começar…
“A DFW reflete o ADN criativo do Dubai e da região, design com uma identidade muito própria e única. Também reflete a forma como as pessoas gostam de se vestir nesta cidade, elegância, streetwear, peças simples. O evento é onde os apaixonados pela moda encontram a elegância e a herança dos Emirados, com influências globais. Muitos dos designers são locais e nas coleções contam, frequentemente, histórias enraizadas na cultura e nas paisagens do Médio Oriente. Esta mistura única é o que faz com que a DFW se destaque no cenário da moda global”, acrescenta o Fundador e CEO do Arab Fashion Council.
Em pouco mais de uma década, o Dubai passa de um outlier no mundo da moda para uma das capitais influentes da indústria e resiliente num contexto económico internacional de incerteza. A economia está em expansão, cresce a população de expatriados e de consumidores com poder de compra elevado, as previsões do Euromonitor Internacional apontam para uma taxa de crescimento anual de 5% até 2030 no setor, colocando os Emirados Árabes Unidos à frente dos concorrentes neste negócio.
E, por último, mas não menos importante, neste Emirado a moda é entendida como atividade cultural. O último relatório do Dubai Design District revela que mais de metade dos residentes a considera uma das três atrações criativas e culturais preferidas da cidade. Nunca foi só uma miragem...
Vê a galeria de imagens com algumas das criações que desfilaram na DFW.
