Elevador da Glória | Fotografia: Getty Images, Horacio Villalobos
Elevador da Glória | Fotografia: Getty Images, Horacio Villalobos
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O que ainda não entendemos? Psiquiatra explica trauma vivido no Elevador da Glória

O que acontece, o que se sente, depois do descarrilamento do Elevador da Glória? Um artigo educativo pela médica Psiquiatra Maria Moreno.

Dra. Maria Moreno, médica Psiquiatra

Quero que regressem comigo atrás no tempo. O acidente no elevador da Glória aconteceu há pouco tempo. O Elevador da Glória descarrilou – os feridos graves chegam primeiro, os feridos ligeiros depois e a seguir as pessoas que assistiram e, em choque, também precisam de ajuda. Esta é a perspetiva de quem espera no banco do Hospital São José para prestar os primeiros cuidados aos que chegam.

As pessoas estão a salvo no hospital, mas, as que estão cá connosco, apesar de estarem sentadas numa maca, por dentro continuam como se ainda estivessem no local onde tudo se passou. Isto é o mais frequente. O choque é o mote comum para alguém que acabou de viver um evento traumático – qualquer que ele seja: pode ser também um acidente de viação, uma agressão, uma perda súbita ou uma violação. Chegam à urgência com sintomas intensos: uma grande aflição, ansiedade intensa, agitação, medo, insónia. O coração dispara, as mãos suam, os músculos tremem.

E aquilo que vos quero contar é sobre a enorme vontade que há de ajudar as pessoas nestas situações, antes e após a sua chegada ao hospital. A reação imediata do médico (ou de quem presencia uma situação destas) tende a ser intuitiva: benzodiazepinas. São rápidas, eficazes, sedam. Parece a solução ideal.

Mas é também aqui que tudo se decide. O impulso mais frequente? Sedar. Uma benzodiazepina resolve depressa: baixa a ansiedade, dá sono, acalma. É uma solução rápida para uma situação urgente. Mas é precisamente neste momento que precisamos de travar o gesto automático e pensar duas vezes.

O que nos mostra a ciência? Que o uso precoce de benzodiazepinas após um trauma pode aumentar o risco de desenvolver Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD). Parece contra-senso: se acalma, porque faria mal?

Eu explico. Porque o cérebro precisa de processar o que aconteceu, precisa de arrumar a memória no sítio certo. Quando forçamos um “apagão” demasiado cedo, a lembrança pode ficar mal arquivada: solta, fragmentada, a cair sobre a pessoa em pesadelos, flashbacks, hipervigilância. É como tentar varrer vidro partido para debaixo do tapete. Qualquer dona de casa pode atestar que é péssima ideia.

Para quem chega às urgências depois de um choque destes, é difícil compreender que o pior pode ser não deixar o cérebro trabalhar. O alarme interno precisa de tempo para aprender que já não há perigo. Se o desligarmos à força, ele pode continuar a tocar eternamente.

Isto não significa não fazer nada. Significa estar presente: escutar, validar o medo, explicar que muitas das reações são normais nos primeiros dias. O apoio, a informação clara e a vigilância são o tratamento imediato mais eficaz.

Depois, sim, com o tempo e se os sintomas persistirem para além das quatro semanas e o medo continuar a controlar a vida da pessoa, podemos começar a falar em PTSD e entramos em força com outras estratégias – psicoterapia, medicação adequada, acompanhamento estruturado.

Quem chega às urgências depois de viver o impensável não precisa apenas de comprimidos. A pressa em resolver pode ser inimiga de uma boa recuperação. Precisa de sentir que não está sozinho, que não enlouqueceu, que aquilo que sente é uma reação humana a uma situação desumana. E, acima de tudo, precisa de tempo.

O elevador parou às 18h05. Mas para quem esteva lá dentro, para as pessoas que passavam e para muitas das pessoas que assistiram de fora, a reprodução daquelas imagens pode demorar muito mais a parar.

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