Podia ter ficado com 700 mil euros na conta, mas preferiu o pomar de um hectare
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Rafaela Simões
- 12 ago, 10:53
Serias capaz de recusar 700 mil euros? Este agricultor nem pensou duas vezes, porque há algo mais valioso do que dinheiro.
O projeto do agricultor espanhol Cristian González Aceña
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Há coisas que o dinheiro pode comprar. Uma casa, um carro ou... um hectare de terra. Mas há também coisas que não têm preço, como o tempo, a ligação a um lugar ou a um projeto de vida.
Foi por isso mesmo que Cristian González Aceña, agricultor em Bustarviejo, nas montanhas da região de Madrid, decidiu dizer não a uma proposta que muitos dificilmente recusariam: 700 mil euros por um hectare de terreno.
Cristian tinha comprado a propriedade por cerca de 38 mil euros. Mais tarde, investiu aproximadamente 18 mil euros na vedação e outros 20 mil numa pérgula destinada à venda dos produtos. Ainda assim, quando um amigo lhe propôs comprar o terreno para o transformar num espaço para eventos, a resposta foi imediata.
“Eu disse que não. E são 700 mil euros”, contou o agricultor num vídeo publicado no YouTube pelo criador de conteúdos Goly, que o acompanhou durante um dia de trabalho na propriedade.
A quantia, admite Cristian, poderia representar uma espécie de reforma antecipada. Mas vender significaria também abandonar aquilo que construiu ao longo dos anos.
A propriedade está situada a cerca de 1300 metros de altitude e está longe de ser uma simples parcela de terreno agrícola. Ali são cultivadas entre 80 e 90 variedades comerciais diferentes, seguindo métodos de agricultura biológica.
Em vez de depender de produtos químicos, Cristian produz os próprios fertilizantes a partir de diferentes tipos de estrume e a exploração conta ainda com um antigo poço, um sistema de bombagem alimentado por energia solar e um reservatório com capacidade para cerca de 110 mil litros de água para rega.
A diversidade das culturas é outra das armas utilizadas pelo agricultor. Além de ajudar a reduzir o impacto das pragas, permite manter uma maior variedade de plantas, muitas delas escolhidas pelo sabor e pelas características tradicionais, e não apenas pela capacidade de produzir grandes quantidades.
E há clientes que reconhecem essa diferença. Parte dos produtos chega a restaurantes de referência em Madrid, incluindo o Pabú, distinguido com uma estrela Michelin.
Mais do que legumes, uma coleção de sementes
Para Cristian, a propriedade não serve apenas para produzir e vender legumes. É também um espaço de preservação de variedades agrícolas que poderiam desaparecer se deixassem de ser cultivadas. E é aqui que a recusa dos 700 mil euros ganha outra dimensão.
O agricultor está ligado à União de Jardins Agroecológicos de Madrid, um projeto que trabalha na conservação da diversidade agrícola e que afirma produzir mais de 210 variedades de hortícolas e manter uma coleção com mais de 3000 variedades de plantas.
Cristian preocupa-se particularmente com a crescente dependência de sementes comerciais, que obrigam os agricultores a comprá-las novamente em cada época. A preservação das sementes tradicionais, defende, é também uma forma de proteger a diversidade dos alimentos e a capacidade de produzir no futuro.
“O que eu faço é deixar um legado para a minha família e para a humanidade”, afirmou.
É uma frase que ajuda a perceber por que razão uma proposta de 700 mil euros não foi suficiente, porque o hectare não era apenas um hectare.
Era o lugar onde Cristian construiu a sua exploração, onde investiu dinheiro e trabalho, onde enfrentou tempestades (algumas delas pondo em risco a continuidade do projeto), desenvolveu técnicas de cultivo e preservou sementes. Era também o espaço de um projeto que gostaria de transmitir às filhas.
Vender significaria receber 700 mil euros e para Cristian o valor da terra não se mede apenas pelo preço que alguém está disposto a pagar por ela.
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