Maria João Costa no jardim projetado pelo artista plástico e paisagista Burle Marx no Rio de Janeiro
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conVERSA com Maria João Costa: Brasil será cenário da sua “novela mais romântica” na TVI

Nasceu em Portugal, vive no Mónaco, e é no Rio de Janeiro onde escreve a próxima novela para a TVI. Nesta conVERSA Atlântica, Maria João Costa fala da sua cidade maravilhosa, vai da inspiração à solidão do processo criativo e revela (o que pode…) sobre a novela que a traz de volta ao Brasil.

Pode ser ficção. Uma história pensada e imaginada para tornar esta conVERSA só mais interessante. Até porque, na realidade, do outro lado do Atlântico tenho Maria João Costa a autora de Ouro Verde, novela que em 2018 conquistou um Emmy e, (entre)tanto também autora de Cacau, recentemente exibida na TVI. Mas a ser ficção, culpem “os porteiros” cariocas e a vocação natural do país para falar de si e dos tempos na forma de um produto que se consome episódio a episódio e que tem ajudado a construir a identidade cultural do Brasil. É que nós (as duas) comprámos logo a ideia, por muito que até nos possa parecer... uma grande novela.

Maria João Costa trocou, temporariamente, o frio do Mónaco pelo verão brasileiro onde tem passado os dias a escrever a sua próxima novela para a TVI. Se o Rio de Janeiro não fosse só por si o único argumento que precisávamos de ouvir para a ouvir, o enredo adensa-se (ou fica ainda mais interessante) quando nos apresenta uma nova personagem. É que os dias dedicados à escrita do seu novo projeto de ficção, são no apartamento de Fernando Montenegro, para muitos ou tantos que são todos, a maior atriz brasileira de sempre.

Uma “coincidência incrível” e que não podia ser mais inspiradora para criar uma história que terá o Brasil como um dos cenários de gravações. E é assim que está a nascer a nova novela da TVI. Entre a provocação que encontra no talento da atriz e escritora brasileira, da imaginação que (a)vista da baía de Copacabana mesmo à sua frente, e com a luz que deixa entrar em casa como a sua única companhia ao longo do processo criativo que lhe exige isolamento.

“Este apartamento tem uma energia incrível. Difícil acordar de mau humor aqui, ou sem inspiração” conta-nos. “A ser verdade, porque quem me disse que estava em casa da Fernanda Montenegro foram os porteiros do prédio, que, na verdade, são os que sabem sempre tudo. (Risos)”.

A ser ficção, só o lugar onde conVERSA connosco. Porque Maria João Costa é demasiado real. E é espontânea. E é autêntica. Ficção é só a sua arte. Eu não gosto de quem mente para prejudicar os outros. Eu gosto de um mentiroso que mente por amor à arte. Quando não existe, agente inventa e os escritores são assim também dizia o poeta, escritor e dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna.

O que te levou a passar uma temporada no Brasil?

Brasil, em particular o Rio de Janeiro, onde vivi cinco anos a trabalho, é como uma segunda casa para mim, um lugar onde gosto sempre de voltar, viver, passar tempo. É raro o ano em que não vou ao Brasil desde há mais de vinte anos (excluem-se os anos de pandemia, na verdade). Mas já há alguns anos que não tinha a oportunidade de ficar uma temporada mais prolongada como esta no país. Estou aqui desde novembro e fico até abril, ainda. Tenho uma nova história em curso ambientada no Brasil e é sempre bom ar uma atualizada sobre o país, coisa que só se consegue quando se passa mais do que uma semana num lugar. Por outro lado, o Brasil é um país cheio de oportunidades e tenho, além desta novela, outros projetos em desenvolvimento no país. E não apenas como autora de projetos de ficção. Chega um momento em que temos vontade de expandir as nossas capacidades e tentar coisas novas, que nos desafiem.
 

O que te liga ao Rio de Janeiro? É um dos teus lugares especiais?

Quando cheguei, andei a viajar um pouco, confesso. Quis aproveitar um pouco o verão. Agora, que voltei a ter de escrever, os meus dias estão bem mais calmos. Dividem-se entre casa, onde passo uma boa parte do tempo a escrever, e mergulhos esporádicos na praia, idas ao cinema e teatro, shows musicais e encontros com amigos. Acho que o que me fascina mais no Rio é a sua permanente beleza natural. Com todos os problemas que a cidade e/ou o país possam ter, o Rio vai ser sempre esta cidade maravilhosa, que nos arranca um “que coisa linda”, diariamente. Porque, para onde quer que se olhe, temos um cartão postal. Há poucas cidades no mundo com este look tão cenográfico como o Rio. Não me canso de tanta beleza.
 

O apartamento de Fernanda Montenegro é o ambiente perfeito para escreveres um novo projeto para a TVI?

É uma coincidência incrível, a ser realmente verdade, porque quem me disse que estava em casa dela, foram os porteiros do prédio, que, na verdade, são os que sabem sempre tudo. (Risos) Mas achei maravilhosa a coincidência, ainda mais se tratando deste momento de consagração que ela e a filha vivem no Brasil: essa consagração de um gigante talento familiar. O apartamento tem uma energia maravilhosa, mas seria difícil não ter, tendo em conta que tem uma vista de 180º sobre a baía de Copacabana que, a meu ver, é uma das vistas mais bonitas da cidade. O apartamento tem janelas de ponta a ponta, uma luz incrível e uma vista que nos arrebata em qualquer horário. Difícil acordar de mau humor aqui, ou sem inspiração.
 

Um dos “produtos” do Brasil (e das maiores exportações) são as novelas, que falam do país, que sabem ler os momentos que o país vive… como vês, atualmente, esta indústria e o papel que uma novela pode ter na sociedade?

As novelas, por tradição, são recortes de momentos do país, por isso tantas ficam facilmente datadas, excetuando-se algumas que são adaptações de grandes clássicos da literatura como aconteceu com Tieta, por exemplo, ou Gabriela. Mas a novela é feita para isso mesmo, para ser consumida no dia e não para ser uma obra que fica para a posteridade. Fazendo um paralelo com a imprensa, maioritariamente estão para a ficção como as notícias estão para os telejornais. Isto, quando fazemos novelas que estão muito coladas com o que é o momento do país.

Vale Tudo, no Brasil, do grande mestre Gilberto Braga foi isso mesmo: uma novela que nasceu num momento muito delicado do país. Em 1988 o Brasil passava por transformações no campo político e económico, sem contar as grandes mudanças de hábitos e de costumes. O país tinha saído há pouco da Ditadura Militar, a Constituição estava prestes a ser promulgada e os casos de corrupção estavam em evidência. Nesse cenário, a Globo, com essa novela,  lançava ao público uma provocação: vale a pena ser honesto? Uma das raras novelas originais que envelheceram bem, porque o tema continua a ser pertinente no país. De tal modo que está agora a ser readaptada para estrear em Abril. Tem personagens icónicas como Odete Roitman que marcaram o país, mas acredito que continua a ser muito atual. Curiosamente é uma boa amiga minha que está a fazer a adaptação, a Manuela Dias, e estou muito curiosa para ver o que ela nos vai trazer. 

Fazendo um paralelo com Portugal, e falando do que eu escrevi, acho que Ouro Verde foi uma novela que registou um certo momento do país, pois tinha no centro da história uma família de banqueiros corruptos, para quem todos os meios justificavam os fins. Estreou no início de 2017, logo após ter começado o processo de insolvência do BES, onde tantos portugueses perderam as suas poupanças. E despertou um grande interesse do público português. 

Acho que foi a novela que escrevi que mais retratou o momento presente do país, apesar de ser gravada entre Portugal e Brasil. E sinto que, desde então, apesar de ter escrito histórias que exploram muito os grandes traços da natureza humana, como a ambição e ganância (como se viu em Cacau, por exemplo), ainda não voltei a escrever uma novela que seja esse retrato da sociedade atual, e que provoque essa reflexão sobre o momento presente.

É uma ambição que tenho, e que inclusive partilhei recentemente com o José  Eduardo Moniz: tentar escrever uma novela que consiga mobilizar o país. Não sei se, com a concorrência grande que os canais abertos sofrem com o streaming, isso hoje ainda seria possível de conseguir. Mas o nosso trabalho faz-se não só de criatividade, como de ambição também. Da ambição de fazer melhor, de conquistar mais público quando a tendência é a oposta, de romper paradigmas e deixar o país a falar no que escrevemos… Sonhar é o mais fácil de tudo: até porque custa zero! Mas tudo começa no sonho.  

O que já podes revelar sobre essa nova novela para a TVI?

Não posso revelar demasiado sobre o projeto em si, porque ainda está em desenvolvimento, e pode sofrer alterações. Posso revelar apenas que é uma novela que vem na senda do plano ambicioso que a TVI com a Plural têm traçado para a ficção nacional, de oferecer, não só ao público português grandes produções com histórias que as emocionem, como abrir portas para o mercado internacional, com produções que compitam com o que de melhor se está a fazer no mundo. Esta semana recebi uma listagem das vendas internacionais das novelas que escrevi e estamos em mais de 130 países. Achei magnífico conseguirmos ter chegado a esse número. 

Naturalmente, fico feliz pelo fato da TVI ter apostado em mim novamente para um projeto desta envergadura. E termino revelando apenas que voltaremos ao Brasil, e a um lugar onde nunca fomos, mas… desta vez… de uma maneira diferente do que fizemos antes. Quando estrearmos, muito rapidamente o público vai entender o porquê. Ah… e posso revelar que, na minha ótica, e até ao momento, pelo menos, porque ainda não escrevi tanto assim, me parece a novela mais romântica que já escrevi.
 

Como geres as expetativas e que exigência colocas em ti? Ou vives numa liberdade criativa sem sentir esse peso?

Senti muito essa pressão que referes depois de escrever Ouro Verde, para falar a verdade. De tal maneira que estava obcecada com a ideia de escrever algo completamente diferente do que tinha sido a minha primeira novela, que tinha sido um grande sucesso de audiências. E foi assim que nasceu Valor da Vida, que, do meu ponto de vista, em termos de premissa, foi a novela mais original que já escrevi. Olhando agora para trás, e apesar da novela ter sido um sucesso de audiências do início ao fim, acho que fui ambiciosa demais, que tentei fazer um projeto que não teria como se sustentar com interesse em tantos episódios e que necessitaria de um orçamento bem mais elevado para poder fazer todas as maluqueiras que tinha na cabeça. 

Atualmente, acho que amadureci um pouco e apesar de continuar a ser muito dedicada a cada projeto que faço, e extremamente controladora e workaholic quando estou no processo, sinto que os melhores projetos são os que escrevemos com prazer. A TVI sempre me deu muita liberdade nos projetos que escolhi, à exceção de um período curto de transição no canal, em que tivemos uma direção provisória, que foi muito castradora, porque tudo era um problema e antiquado: a novela tinha de ser branca, sem qualquer referência a universo LGBT, sem estrangeiros, ou seja, teria de ser uma novela que retrataria um Portugal que já não existe. Foi complexo o processo, eu era completamente contra, mas nasceu assim Amar Demais, e acho que, apesar de todas as contingências, a novela em si, saiu redondilha e ficou ótima de ver. Felizmente esse tempo passou rapidamente, voltamos a ter gente capaz na direção do canal e a ficção pode deixar de ser estanque novamente e seguir as tendências sociais. 

Normalmente,  a TVI dá-me apenas a determinação geral do que pretende: "queremos ir para o Brasil", por exemplo. Mas nem sempre é assim: no caso de Valor da Vida, por exemplo, quem sugeriu irmos ao Líbano fui eu. E a TVI embarcou na aventura. Como digo: à exceção de uma única vez, sempre tive muita liberdade na TVI. Neste nova novela que estou a escrever, também foi o José Eduardo Moniz quem sugeriu Brasil e até especificamente onde, por uma razão de fundo bem interessante… Eu gostei da ideia e depois de fazer a minha pesquisa construí a história em torno. Acho que o público vai gostar e achar interessante.
 

Vives no Mónaco há quase quatro anos e pensamos de imediato numa vida de glamour, de festas, muito social…Escrever ficção é um processo solitário, precisas de isolamento para escrever?

Isolamento total durante o processo de escrita!!! Esteja onde estiver. Durante o dia, fecho-me em casa a escrever, e gasto muitos fins-de-semana nisso também, ou algumas noites, quando é necessário. Ainda assim, com o tempo, tenho aprendido a gerir melhor o meu trabalho e a conseguir conciliar melhor isso com o tempo de lazer. Percebi que sair um pouco, relaxar e conviver, até mesmo ir ouvindo novas histórias, se torna benéfico para o processo criativo. Mas lá está, cada autor tem o seu método. O meu é bastante exaustivo, porque escrevo atualmente os episódios inteiros, e a novela depende inteiramente de mim, mas ao mesmo tempo, isso dá-me autonomia. Logo: liberdade. Em resumo… não perco por inteiro a vida glamourosa do Mónaco. (Risos) 
 

Como é o teu processo de cool hunting para uma nova história? Onde procuras inspiração, é um trabalho muito técnico ou, simplesmente, surge uma ideia e quase por intuição sentes que… é por aqui…

As ideias surgem de várias maneiras, não acredito que haja uma forma só. Cacau nasceu de uma história de um amigo de uma amiga que ouvi que me marcou bastante, por ser uma história tão horrível de ambição e ganância. Já Ouro Verde tem como base o meu clássico preferido, O Conde de Monte Cristo, que acabou por dar origem ao nosso Jorge Monforte. Já Valor da Vida, surgiu de uma notícia que me marcou sobre a quantidade de gente que se estava a criogenar na esperança de voltar a viver mais tarde, que nos levanta questões de ordem filosófica interessantes (porquê esta obsessão da Humanidade com a ideia de ser imortal). Mas tenho várias histórias que me surgem por sentir o que me parecem ser as novas tendências sociais, e que nos tragam personagens inesperadas. No momento, pessoalmente falando, ando muito interessada em histórias que apontem o dedo aos poderes instalados e que denunciem situações que sejam bem questionáveis do ponto de vista moral, mesmo que perante a lei sejam legais. Claro que as histórias ilícitas também me interessam. Talvez por isso, adore falar de corrupção, que para mim é um cancro social, que se manifesta em todas as áreas onde nada escapa, nem sequer a religião.
 

Das novelas que já escreveste para a TVI, há alguma cena ou personagem que te tenha marcado até hoje? E um arrependimento, tens?

O Jorge Monforte, o banqueiro Ferreira da Fonseca e a cunhada dele Rita Ferreira da Fonseca serão sempre algumas das minhas personagens preferidas de sempre. Mas adorei escrever este Justino ou a Simone em Cacau também. Confesso que tenho uma queda por vilões ou anti-heróis. 

Sobre o resto… Não tenho necessariamente cenas ou histórias de que me tenha arrependido. O que normalmente me acontece é ter a ambição de contar uma história de uma certa maneira, mas depois ser esmagada pelos limites de produção que nos são impostos. Que não são culpa de ninguém: todos adorariam ter mais dinheiro disponível para produzir mais e melhor. Acontece que os orçamentos não esticam e eu tenho de fazer a novela com os meios de que disponho. Sei disso desde o início, só acredito sempre que no caminho vou arranjar uma maneira de contornar isso, só que nunca consigo. (Risos) Culpa minha total. Por exemplo, em Cacau, que é mais recente, lancei-me o desafio de costurar a história toda para dentro, o que era um grande desafio numa novela tão longa. Mas aprendi que não posso fazer essa costura tão fechada, sem criar barrigas na novela. Porque não vou conseguir ter as protagonistas disponíveis para mim, pelo tempo que eu gostaria.

Há incidências limite nas personagens, no caso das protagonistas são de 20%. Se eu passar deste valor, significa que a atriz/ator em causa não vão ter como gravar todas as cenas escritas para eles durante o tempo útil das filmagens. Então, muitas vezes tenho de parar a personagem uns episódios longos para baixar a incidência. Em Cacau tive dois momentos em que tive de fazer isso, que atrasaram a história, mas onde não tive alternativa: quando Cacau teve de ficar escondida no Alentejo por todo aquele tempo e quando foi sequestrada (que mal se via). Eu tive de parar a atriz, basicamente, a nossa querida Matilde, que apesar de todo o talento e dedicação, não tinha como se transformar em duas e gravar tudo o que eu tinha pensado para ela. Isso prejudica a história porque queremos ver a protagonista sempre no centro da ação e nem sempre é possível. A dada altura tive de fazer isso com a Alexandra Lencastre também, e acreditem que me doeu, porque ela fazia uma falta enorme na história. Mas novela é isto mesmo. Um trabalho de adaptação constante. 
 

Claramente gostas de moda, nota-se que gostas de beleza, de um sentido estético na vida. Tens esse contributo também nas novelas?

Gosto muito e tento sim interferir nesses quesitos, apesar de nem sempre conseguir ter influência no produto final. Mas dou exemplos: nas minhas novelas temos sempre obras de artistas plásticos com quem tenho boa relação que, por ser para mim, nos deixam usar as suas obras. Gosto de acompanhar o processo de escolha de figurinos, mas depois, lá está, nem sempre os orçamentos nos deixam conseguir os figurinos de sonho… sobretudo quando falamos das famílias mais abastadas nas novelas, que são os que sofrem mais…

Agora, em Cacau, por exemplo, tive a sorte de trabalhar com o Edgard Miranda, o nosso diretor artístico que tem preocupações estéticas idênticas às minhas, e foi um descanso porque pude parar de me preocupar com um monte de coisas que antes me tiravam o sono. Quando conseguir produzir um dia o meu projeto de sonho, quem sabe numa outra vida, vou querer que seja feito ao estilo de White Lotus ou The Triangle of Sadness, onde tudo está exatamente como deveria estar.

Vê a galeria de imagens com alguns dos momentos e experiências que Maria João Costa está a viver no Brasil. 

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