Fotografias: Unsplash | Edição: Vasco dos Santos
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ControVERSA: a adrenalina de um turismo obscuro

A curiosidade mata ou será que é a morte que nos deixa curiosos? Vivemos prazeres mórbidos e transformamos isto numa cultura obscura. Estranha esta nossa forma de ser...

“Visite os lugares mais arrepiantes do mundo” é cartão de visita a um turismo que se avizinha negro. A curiosidade macabra é mote que não intimida os viajantes, muito pelo contrário. Uma espécie de adrenalina parece dominar o corpo e a mente, assim que entram em território carregado de memórias trágicas e pérfidas. E a Europa parece ser o lugar favorito dos mais… corajosos?

O roteiro que aqui trago é sombrio e agonizante, e não preciso de adjetivar muito mais para cativar mentes perversas.

Começamos pela cidade das luzes, aquela que, ironicamente, é bastante procurada pela escuridão. Já que é em Paris onde encontramos as famosas catacumbas, que servem de isco aos olhares soturnos que procuram ver os milhões de corpos exumados que ali foram deixados por superlotação nos cemitérios do séc.XVIII. São mesmo muitos os turistas que preferem caminhar entre os esqueletos e crânios ali expostos do que passear pela grande e bela avenida Champs Élysées.

E não é que este desejo pelo moribundo parece servir de chamariz noutros cantos do mundo? A Capela dos Crânios em Czermna, Polónia, idêntica à nossa Igreja dos Ossos, é apenas mais um exemplo disso. Revestida com mais de três mil crânios, além de ossos de milhares de pessoas ali enterradas, muitas delas vítimas de pragas e guerras, como a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) ou as Guerras Silesianas (1740–1763), é agora local de eleição para uma fotografia a ser publicada no Instagramjá que se trata de uma disposição óssea semi-artística (se assim podemos chamar).

Parece que os horrores de outros tempos se tornaram estupidamente prósperos ao entretenimento e turismo do séc.XX, já que atualmente até há espetáculos à conta dessas tragédias. O Museu de Tortura em Amesterdão é então para aqui chamado. Tira-se partido das torturas e punições cruéis a que tantos foram submetidos na Idade Média e vendem-se “aventuras interativas”, com direito a atores, efeitos especiais e descrições detalhadas das torturas realizadas. Bons tempos aqueles em que preferíamos uma calma ida ao teatro…

E, se continuamos no mood para espetáculos aterradores, podemos sempre contar com uma exposição macabra em Pompeia, Nápoles. No ano de 79, estas terras italianas viram a erupção do vulcão Vesúvio cobrir a população que lá vivia com lava, pedras e cinzas. Agora, os restos mortais dessas milhares de vítimas têm dado jeito à economia local. Envolvidos em gesso, os esqueletos em exposição servem para que os visitantes possam reviver o sofrimento da população, até porque a conservação destes corpos permite um vislumbre ao sofrimento de quem aqui morreu subterrado. Para uma experiência completa, os efeitos sonoros do vulcão são um plus. Resumidamente, a série de sucesso The Walking Dead não é nada ao lado disto.

Mas não se assustem já, porque ainda não chegámos a Poveglia, uma pequena ilha na costa italiana, que serviu de exílio a vítimas da peste negra, a refugiados de guerra e a doentes mentais no séc.XVIII. Já em 1800 tornou-se na sede de um hospital psiquiátrico e, hoje, "um dos lugares mais assustadores do mundo". Aqui, os factos misturam-se com lendas e superstições e diz-se que, em 1930, os pacientes sofreram atrocidades nas mãos de um médico lunático. Um local fascinante para os que procuram uma boa dose de horror, seja provado pela história ou apenas fruto da imaginação de muitos.

Como estes pontos turísticos, há muitos outros. A cultura do oculto e do macabro está provada ser bastante rentável, mas parece-me que nem sempre instrui na mesma proporção que entretém. Certo é que o sucesso do "turismo negro" nos põe a comparar a nossa sede de tragédia à nossa sede de conhecimento - e parece que a primeira ganha. Estranha esta nossa forma de ser...

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