Gonçalo Dominguez | Edição de imagem: Vasco dos Santos
Evasão

Da praia à montanha, de mota a ver a Europa a mudar

Quase dois meses de viagem e mais de 15.000 km de estrada. O relato de Gonçalo Dominguez numa descoberta de quem é e do continente que o rodeia.

Tem carta de mota desde os 24 anos e o sonho de uma viagem que, aos 32, vê agora cumprido. Durante quase dois meses, Gonçalo Dominguez viajou a bordo da sua Triumph Scrambler 1200xe e fez-se à estrada, num roteiro inesquecível pela Europa que agora relata à Versa.

“Uma viagem de estrada permite-te ver o mundo à tua volta a mudar, ires da praia à montanha, passares pelos lugares ‘reais’ e entenderes as mudanças culturais dos espaços à tua volta.” E é através da mota que Gonçalo vive o mundo de forma diferente, tudo ganha uma dimensão sensorial, numa espécie de experiência concreta que, de outra forma, não seria possível. “Para além de te aperceberes das mudanças à tua volta, sentes os cheiros, o frio, o calor, a chuva, no fundo, sentes tudo e ficas muito mais ligado aos lugares onde passas”, conta.

A ida - o embarque numa experiência sem igual

“O maior desafio foi deixar os medos em casa e seguir viagem”

Gonçalo estabeleceu uma ideia de roteiro, projetou um orçamento para os meses de estrada e estreou-se numa longa viagem, que se fez de desafios e de outras tantas maravilhas que não tardaram a chegar.

“Logo no início da viagem, ao sair de Espanha e entrar em Andorra, fiz um percurso chamado a rota dos contrabandistas. É um percurso pequeno todo por fora de estrada e que vai desde uma minúscula aldeia na Catalunha (aldeia de Tor) até Andorra, mas sem passar pela fronteira.

"O percurso é muito bonito e, quando cheguei ao topo, estava a chuviscar. Apareceu um arco-íris, fiquei ali a fumar um cigarro e a pensar ‘isto vai ser incrível!’”

As vivências compensam os medos

“Receei a falta de experiência em mecânica. Sei as coisas mais básicas, mas há coisas que podem ajudar muito no caso de estares num sítio muito isolado. Mas fui aprendendo ao longo da viagem e pedindo ajuda em algumas oficinas. Outro medo era o de estar sozinho. Já viajei muito, de diferentes maneiras e em diferentes meios de transporte, mas tive medo de tantos dias a viajar sem companhia, de me sentir muito isolado, mas acabou por acontecer o contrário.”

“Toda a gente tem sempre curiosidade de saber de onde vens e para onde vais”

Os medos iniciais não ganharam forma e o susto nesta viagem seria outro: “O momento em que me senti mais assustado foi quando me perdi num caminho de montanha na Grécia. Tive três horas sem saber bem onde estava, com o GPS a falhar muitas vezes e sempre num caminho fora de estrada. Decidi que só parava quando visse civilização e foi apenas quando começou a anoitecer, e já na reserva de combustível, que consegui finalmente chegar a uma aldeiazinha. Ainda assim, foi um dia espetacular.”

Os locais inesquecíveis que marcam o roteiro

Entre inúmeros sítios por onde passou e uma mão cheia de memórias únicas, é difícil para Gonçalo eleger apenas uma região marcante, mas, ainda assim, falou-nos da “estrada de colle dell'assietta, uma antiga estrada militar italiana, toda em terra, e quase inteiramente acima dos 2000 metros de altitude.” “Esta estrada só está aberta até ao fim do mês de outubro e consegui percorrer quase todo o caminho sem ver uma única pessoa", recorda. “Quando cheguei ao topo, lembro-me de parar e ficar uns bons 20 minutos sozinho a olhar para a paisagem.”

Outras passagens são de regresso obrigatório. “Hallstat, na Áustria, e Meteora, na Grécia, dois sítios de uma beleza incrível. São locais muito concorridos a nível turístico, mas incrivelmente bonitos”, ressalta.

A check-list obrigatória 

“O que mais me atraiu nesta viagem foi uma série de sítios icónicos que tinha curiosidade de conhecer há muito tempo, como o Hotel Belvedere, na Suiça, o passo Stelvio, em Itália, ou Meteora, na Grécia”. E para um aficionado por motas e apaixonado por aventura, é de esperar que “as incríveis estradas e trilhas deste percurso” integrem esta lista de desejos, bem como “a descoberta de lugares que normalmente não aparecem num roteiro de estrada, como Sérvia, Macedónia do Norte, Montenegro ou Albânia”.

A surpresa em lugares esquecidos

A adrenalina numa rota destas vem de “descobrir um caminho novo, de estar sozinho numa paisagem inacreditável”, mas as expectativas superam-se com a “simpatia e prontidão de ajuda” das pessoas e os lugares inesperados. 

“Uma imensidão de sítios incríveis por onde passei graças à liberdade proporcionada pela mota. Grande parte deles completamente esquecidos pelo turismo massificado - absolutamente fantásticos.”

O maior percurso

“Tentei sempre não fazer grandes distâncias de uma vez, até porque viajei sempre fora de autoestradas, mas o maior percurso penso que foi de Nauplia, na Grécia, até Gjirokaster, na Albânia”, relata Gonçalo, contando que este percurso com cerca de 700km resulta em quase dez horas sobre rodas.

O que faltou?

Transfagarasan ficou por cumprir. Por questões meteorológicas, este foi um daqueles sítios que teve de saltar fora do roteiro de Gonçalo: “Com muito frio e previsão de neve acabei por alterar o percurso e substituir a Roménia pela Sérvia e pela Macedónia do Norte”. 

A chegada – sonho cumprido e o conselho para futuros viajantes 

“O melhor conselho que posso dar é organizares da melhor forma possível os pontos de maior interesse, onde fazes questão de passar, mas deixa espaço para surpresas, imprevistos e alterações no roteiro. Há coisas que só vais descobrir durante a viagem e não queres estar demasiado preso a um roteiro que não te permita fazer desvios para conheceres sítios que podem mesmo valer a pena. Afinal de contas, é uma aventura e por isso é sempre bom estarmos disponíveis para mudar o roteiro conforme as coisas se vão desenrolando.”

Para todos os apaixonados por mota que gostem de fazer viagens longas, esta é a viagem certa. “Temos tendência a colocar muitos obstáculos, o tipo de mota não é o certo ou os sítios para onde vamos podem ser perigosos, etc, mas na verdade as coisas são muito mais simples do que parecem. Viajar na Europa é muito fácil e muito seguro.”

“Se há oportunidade e vontade, o melhor mesmo é deixar as inseguranças para trás e ir”

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