Vim do Dubai, na realidade, com muito mais. Mas também vim, de facto, com um frasco de perfume com a fragrância que eu própria criei. E a abanar, inconscientemente, a minha chávena de café como aprendi neste regresso aos Emirados Árabes Unidos. O que parece ser apenas uma forma de entreter visitantes como eu, que o é, também é uma forma de nos falarem de si e de traços culturais que dizem muito de si. E o que têm para dizer com um perfume e um café? É o que me diz Khadija Behzad, uma referência do empreendedorismo feminino no Dubai e fundadora do Meet the Locals.
Um projeto de turismo social, com experiências que mostram, a turistas e a expatriados, a identidade cultural e algumas das tradições que (sobre)vivem neste Dubai contemporâneo. Khadija Behzad introduz-me no mundo da perfumaria dos Emirados, não há termos científicos a decorar ou técnicas complexas a seguir, nem workshop é a melhor definição, talvez um encontro e uma conVERSA em que de forma muito natural e, naturalmente, fala sobre o valor tangível e intangível desta arte, que interpreto também como art de vivre na região, já eu… revelo-me um talento na arte de gerir uma conversa e toda a imaginação que a conversa provoca na minha cabeça, enquanto escrevo no iphone notas para este artigo, ao mesmo tempo que manipulo os óleos puros tradicionais que tenho em cima da mesa e procuro acertar na pipeta, a quantidade ideal de açafrão, musgo e rosas, as notas que junto no frasco e com que assino o meu primeiro perfume. São fragrâncias como esta, que as mulheres continuam a criar em casa, com a mesma facilidade com que usam duas ou três diferentes, no mesmo dia e ao mesmo tempo. O que para mim pode ser intenso (os aromas são fortes), percebo que no Dubai é para se viver com intensidade.
Esta odisseia perfumada nasce do engenho com que as tribos beduínas usam as plantas na criação das primeiras fragrâncias e que espalham por toda a região nas suas viagens pelo deserto. Um legado olfativo que continua a inspirar o negócio de Casas de perfumaria de luxo no Dubai, e o dos souks onde se encontra toda uma diversidade de perfumes artesanais.
Aqui, um perfume é muito mais do que só um perfume, tem até casa própria – a Perfume House, um dos museus no tradicional bairro Al Shindagha. A viagem olfativa mostra que é o resultado de processos de produção milenares, que sempre teve um papel na vida quotidiana e religiosa, que as notas essenciais na atual indústria da perfumaria de luxo, desde o século VIII já era o ingrediente mais cobiçado no Médio Oriente. Aquele aroma intenso e complexo a que nos referimos, habitualmente, como “amadeirado”, chama-se Oud, conhecido como o ouro negro da perfumaria, uma essência tão rara quanto preciosa, vinda das profundezas da natureza para o ambiente de casamentos, celebrações familiares ou religiosas e impregnado na identidade cultural do Dubai.
“Café?” pergunta Khadija Behzad. Mas, trick question…e chegamos ao Museu do Café, no bairro histórico Al Fahidi. Após a visita, há, de facto, o café que me prometeu (assim o entendi), acompanhado pelas suas explicações da etiqueta do café árabe. E quebro logo a etiqueta. Mas adoço na forma de lhe dizer que…não gosto. É que requer hábito e habituação. Ao amargo e ao sabor das especiarias como o cardamomo, e tâmaras em vez de açúcar, entendo, mas não é para mim. Café à parte, ou posto de parte, a verdade é que o café árabe integra a lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, da Unesco.
Atribui-se aos árabes, ser hoje uma das bebidas mais consumidas. Não o tendo descoberto, são os primeiros a cultivá-lo, os primeiros a beber em vez de o comer ou mascar, os primeiros a vê-lo como um momento social e como um produto comercial que apresentam e levam ao mundo. Para além do seu significado cultural e valor identitário, é o maior símbolo de hospitalidade e um ritual de generosidade de que o Dubai se orgulha.
Pergunto a Khadija o que devo saber de etiqueta para poder retribuir a hospitalidade. Pegar sempre a chávena com a mão direita e beber pelo menos um café, mas não mais do que três. Quando nos perguntam se queremos repetir (e se também ainda não descobriste o prazer do café árabe), basta abanar a chávena que é, como quem diz, obrigada, mas um está ótimo. E…convém estar atento. Se nos servirem ¼ da chávena, é sinal de que somos bem-vindos, mas se a vires cheia, vê que é a forma generosa de te dizerem “…depois deste café, podes ir embora”. Eu que peço sempre um café cheio, agora que penso, fiquei sugestionada e não voltei a pedir em Lisboa…
Se há experiência que justifica acordar de madrugada, é um safari cultural beduíno e que se vive em pleno deserto. Deixa-se para trás a cidade moderna que ainda dorme, para ver o nascer do dia que é, como sempre ouvi, especial. Pelo caminho penso ”hum, tourist trap…”e é, de facto, um programa turístico, mas é também uma forma de se entender o Dubai atual e como as tradições (con)vivem com a sua visão futurística de futuro.
Percebo que tinha todo um imagético romântico do deserto. Imaginei-o só, romanticamente, como uma vontade de mundo das caravanas de camelos, como o espírito livre de quem é nómada, como um statement beduíno, dos cintos às joias, de quem já é boho, ainda antes do boho nascer. É mesmo só para grandes românticos.
Na tenda que recria os dias dos beduínos em pleno deserto, espera-me um pequeno almoço tradicional preparado sobre o lume de lenha e onde não falta leite de camelo. E alimento-me também das histórias que os guias contam, passadas de geração em geração, sobre a vida dura e, muito pouco romântica, dos seus antepassados neste lugar inóspito onde agora, uns simples óculos de sol nos permite ver o que antes só um falcão conseguia ver. A falcoaria é indissociável da cultura árabe, desde os tempos que os falcões eram treinados para caçar animais no ambiente desafiante do deserto, onde a comida era escassa e, qualquer grama de proteína, essencial na sobrevivência dos beduínos. Simbolizam, culturalmente, paciência, habilidade e a ligação entre o homem e a natureza.
Deixo para o fim uma experiência que me leva a descobrir becos, pessoas, comidas e histórias que apenas os locais conhecem. Com uma guia da Frying Pan Adventures, faço o Dubai Souks and Creekside Food Walk, um passeio gastronómico a pé na zona antiga da cidade, para conhecer e provar segredos bem guardados e pratos simples vindos das mais diferentes geografias.
Durante quatro horas, exploro os souks da velha Dubai num passeio com paragens para provar comida nostálgica em espaços simples (alguns nem chegam a ser restaurantes), mas são parte da riqueza cultural e exemplo das influências gastronómicas que tornam a cidade tão única.
O pão quente com mel e queijo saído do forno a lenha que comemos em pé à porta, a sobremesa tradicional iraniana que aprendo a apreciar num banco de rua e o wrap a que junto as batatas fritas de pacote para ficar estaladiço. Não troco nenhum destes pratos simples pelo menu mais complexo e completo de um restaurante Michelin.
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