À medida que avançamos pelo edifício de granito, provavelmente de 1797, onde estão situadas as Caves Sandeman, com vista para a Ribeira da cidade do Porto, fechamos o casaco ao sentir o frio que dá saúde aos vinhos, e vamos interiorizando o ambiente escuro e intimista, que nos prepara para uma viagem no tempo à boleia dos guias trajados com o famoso The Don, prontos a entrar em cena para contar uma história com vários trâmites.
The Don é a figura icónica da Sandeman desde 1928, com a capa preta que representa o estudante português, e que se faz acompanhar de um sombrero típico dos cavaleiros de Andalusia, Espanha.
Isto porque, ao contrário do que muitos pensam, a história da Sandeman não começou no Porto. A empresa foi fundada em Londres, em 1790, por George Sandeman, um homem ambicioso que aos 25 anos decidiu investir 300 libras, emprestadas pelo seu pai, na criação de um negócio de comercialização de Vinhos do Porto (Portugal) e de Jerez (Espanha).
Em 1811, George veio ao Porto e, claro, inevitavelmente apaixonou-se pela cidade, a partir da qual começou a fazer negócio e a produzir os seus vinhos.
A história é longa e a visita às Caves Sandeman, na qual a VERSA foi acompanhada por Eliana Martins, permite-nos descobrir cada capítulo, sendo um dos mais recentes a integração da Sandeman no universo da Sogrape Vinhos, em 2002.
A inovação na base da Sandeman
Sandeman é tradição, mas também um símbolo de inovação e modernidade. Foi uma das primeiras companhias a cunhar os barris de madeira com uma marca de fogo com as letras GSC (George Sandeman & Co.) e também foi pioneira no que diz respeito à publicidade.
O que hoje é uma banalidade – spots televisivos, mupies, folhetos e publicações criativas nas redes sociais – era algo desafiante na altura, numa sociedade que associava publicidade a um produto que não tinha força suficiente para vender por si só.
Ora, a Sandeman teve o poder de mudar mentalidades e alguns artistas quiseram passar a fazer parte do trabalho criativo e ajudar a levar os vinhos fortificados às bocas do mundo.
Se antigamente assim era, o trajeto não mudou e exemplo disso é a famosa campanha de 2024, “The Taste of Sandeman”, com o artista Tiago Lobo Pimentel, através da qual a Sogrape e o artista português pretendem mostrar o potencial do Vinho do Porto em diferentes ocasiões – como, aliás, veremos adiante.
Isto porque, apesar de ter reconhecimento mundial, há uma parte do mundo, e até de Portugal, que ainda não compreende o Vinho do Porto.
O percurso pelas Caves Sandeman ajuda a desmistificar ideias pré-concebidas e tudo culmina numa prova, na qual apuramos conhecimentos e sentidos.
O que não sabias sobre Vinho do Porto
Afinal, o que é um Vinho do Porto? Esta é a primeira questão que nos devemos fazer quando pensamos nestes vinhos fortificados, que nada têm que ver com um vinho de mesa.
De forma simples, é importante saber que o Vinho do Porto envolve um processo de fermentação que é interrompido pela adição de aguardente vínica neutra, com 77% volume de álcool, para preservar uma parte dos açúcares naturais da uva, o que dá ao Vinho do Porto o seu perfil doce. Depois, ao contrário dos vinhos de mesa, a maioria, nomeadamente os Rubys e os Tawnies, envelhecem em barricas já usadas com vários anos e é então do que aí resulta que o enólogo procede ao blend, que dá origem aos diferentes tipos de Vinho do Porto. O passo final é o engarrafamento, sendo que todos os Vinhos do Porto podem ser consumidos de imediato, apresentando, no entanto, um potencial de envelhecimento variado. Os Late Bottled Vintage (LBV) têm um potencial de envelhecimento de 10 a 15 anos após engarrafamento, e os Vintage várias décadas consoante o gosto, sendo que os restantes não beneficiam de envelhecimento em garrafa.
Mas a oferta vai além dos conhecidos Ruby, um vinho com notas de fruta vermelha e preta e de perfil intenso, e do Tawny, que quando perde a juventude, ganha elegância. Muitos ainda desconhecem o Vinho do Porto branco e talvez mais ainda o Vinho do Porto rosé.
E há ainda algo a saber sobre o Vinho do Porto: podem ser datados ou não. No caso dos datados, podem ser vinhos com indicação de idade, com 10, 20, 30, 40 ou 50 anos, ou vinhos provenientes de um único ano, como os Colheita, os Vintage e os Late Bottled Vintage (LBV).
Outra diferença entre eles é a escala horizontal de classificação, que distingue os Vinhos do Porto entre Clássicos e Categoria Especial.
Como é que sabemos isto? Graças à Eliana, a nossa guia que tudo sabe sobre Vinho do Porto, incluindo a parte prática: quando e como beber Vinho do Porto?
A prova de que um Vinho do Porto não é só para momentos especiais
Mais do que uma bebida, o Vinho do Porto é uma bebida emocional, que está muitas vezes associada às nossas próprias vivências. Um dos cenários mais comuns serão os serões em família, regados com um velho Tawny que o anfitrião tem na garrafeira, ou a garrafa especial de Vinho do Porto que se abre para assinalar um momento, casamento ou uma qualquer celebração.
Por mais valiosas que sejam as memórias, devemos desprendermo-nos delas, se queremos descobrir verdadeiramente o Vinho do Porto. Já vimos que as variedades vão muito além de um clássico Tawny, pelo que explorar as restantes pode ser uma agradável surpresa. Como um Vintage, isto é, vinho que é produzido a partir de uma só colheita excecionalmente boa, ou um Late Bottled Vintage (LBV).
“Uma das características que torna o Late Bottled Vintage (LBV) muito apreciado, e que cria algum espanto nos visitantes, é que não esperam encontrar um vinho com esta estrutura, com este corpo, mas que seja doce no final. Estamos habituados a imaginar um Vinho do Porto muito mais licoroso”, afirma Eliana Martins.
Outro aspeto conquistador do Vinho do Porto Ruby é a sensação de adstringência provocada pelo corpo do próprio vinho. “A adstringência ou tanino é a sensação de secura que nós temos na boca, ou seja, quase como quando comemos uma banana que ainda não está bem madura.”
Não faltam visitantes que entram nas Caves Sandeman a achar que não apreciam Vinho do Porto e saem a querer repetir mais um copo, percebendo que não existe a ocasião perfeita. Já se falarmos de harmonização perfeita, não faltam sugestões da guia das Caves Sandeman.
Vinho do Porto Branco
"O branco para cocktails. É muito agradável com água tónica, gelo e limão. Caracteriza um cocktail que nós produzimos que é o Sandman Splash. Lá fora é muito facilmente encontrado como um Porto Tónico”.
Vinho do Porto Ruby
"Os Rubys, poderão ser servidos ligeiramente refrescados como aperitivos, digestivos, ou com harmonização gastronómica, que é feita de forma muito agradável com queijos mais cremosos, sobremesas de chocolate, sobremesas que tenham frutos vermelhos.”
Vinho do Porto Tawny
"Até os vinhos com um média de idade de 20 Anos, tornam-se vinhos muito versáteis. São, digamos, os mais versáteis que nós temos. Como aperitivos são fantásticos, harmonizados com patés, como por exemplo foie gras, também com queijos e até com marisco. Como digestivos, acompanham muito bem sobremesas confecionadas com ovos, como leite creme e pudim, ou tartes de frutos secos. De uma média de idade de 20 Anos em diante, nomeadamente 30, 40 e 50, consideramos que devido à sua complexidade, poderão ser apreciados como digestivos e toda a duração do fim de boca faz com que sejam perfeitos por si”.
Visita às Caves Sandeman
As Caves Sandeman estão localizadas no Largo Miguel Bombarda 47, em Vila Nova de Gaia, abertas todos os dias, entre as 10h e as 12h30 e as 14h e as 18h. As experiências vão desde a Visita Porto Sandeman (50 min, prova de três vinhos, €22) até à Experiência Exclusiva Porto Sandeman (2h30, prova de seis vinhos, €160). A marcação pode ser feita através do site, por telefone (+351 937 850 534) ou e-mail (sandeman.visitors@sandeman.com).
