Toda a gente pergunta a mesma coisa — na consulta, fora dela e em todas as empresas onde entro para dar uma formação ou fazer um webinar: "Qual é o melhor desporto para a saúde mental?".
A resposta surpreende: Existe, sim. E funciona.
Mas não é sobre o estar na moda, a intensidade, o número de calorias ou o corpo perfeito. É sobre o que é que o desporto faz ao cérebro e como é que conseguimos elicitar diferentes respostas neurobiológicas com diferentes desportos.
Qualquer desporto envolve exercício físico e que, portanto, já vamos obrigatoriamente libertar um monte de coisas que também tentamos libertar quando damos medicação a alguém. Mas os exercícios não são todos iguais. E o cérebro também não responde da mesma forma a todos eles.
Há exercícios que ajudam a regular o sistema nervoso simpático, outros que prezam por mexer no parassimpático, uns que pões várias áreas do cérebro a trabalhar ao mesmo tempo e outros que teoricamente são “perfeitos” mas que, na prática, falham completamente porque o cérebro simplesmente não consegue mantê-los.
Vou explicar, de forma simples e muito prática, na hora de escolher um desporto, para que critérios muito concretos é que queremos olhar e que fazem a diferença.
E há uma coisa que acho sempre curiosa: a maioria das pessoas começa a fazer desporto por causa do corpo e acaba por perceber que a maior diferença foi na cabeça. Aliás, já perdi a conta ao número de pessoas que recebo em consulta após terem deixado de treinar meses antes por causa de uma lesão e percebermos juntos que uma das principais estratégias que lhes permitia aguentar um dia-a-dia altamente exigente desapareceu sem substituição. O cérebro humano foi “desenhado” para o movimento. Passar o dia inteiro sentado, fechado e parado é biologicamente muito recente — e o cérebro nem sempre lida bem com isso.
Vou falar sobre o erro clássico também: o “tudo ou nada”. As pessoas acham que ou fazem o ideal ou não vale a pena. Mas vale. E muito. O semi-perfeito, feito de forma consistente, muda mais o cérebro do que o plano perfeito que dura duas semanas.
E vou tocar também num ponto importante: exercício físico melhora brutalmente saúde mental, mas não substitui tratamento quando existe doença mental moderada ou grave. Hoje existe quase uma romantização do “resolver tudo naturalmente” — mas Depressão e Ansiedade são doenças e, quando o quadro se instala, há alterações neuroquímicas reais. Pedir a alguém com uma depressão grave para “ir correr” sem tratar a doença ao mesmo tempo é quase como pedir a alguém com pneumonia para “respirar fundo” para o oxigénio subir.
E termino com a minha própria experiência pessoal — qual é que é meu “antídoto” caseiro para a saúde mental?
Porque há uma frase que repito muitas vezes: o exercício físico não resolve tudo — mas não fazer piora quase tudo. E, portanto, mais do que nunca, vale a pena pensar nisto.
