"Todos nascemos 100 anos antes de vir ao mundo". Esta inquietação é da autora e também jornalista portuguesa Fátima Campos Ferreira, que apelida a linhagem familiar como “um caldo de cultura”, e é um tema do qual não nos conseguimos – à partida – desassociar.
Ora, somos influenciados por quem nasceu e viveu antes de nós e nos trouxe ao mundo. Desde esse dia, somos uma esponja que absorve conhecimento, primeiro por imitação; numa espécie de osmose, depois por capacidade adquirida que vai evoluindo ao longo da vida.
Não é só fisicamente que este legado se perpetua. É habitual compararmos os nossos traços físicos com quem nos concebeu. Os corpos falam, mas a mente ainda mais. Pensamos, invariavelmente, como quem nos ensinou e somos profundamente marcados pelo contexto que nos envolve. Contexto esse que influenciou os nossos pais, e por sua vez os nossos avós, numa linhagem de legado (quase) sem fim à vista. De facto, nunca somos os mesmos, mas é certo que absorvemos muito de quem viveu antes de nós, porque esse é o ensinamento mais verdadeiro que têm para nos dar. Tornamo-nos seus herdeiros: dos seus pensamentos, das suas tradições, dos seus ensinamentos, dos seus valores, das suas histórias que mais tarde ou mais cedo se confundem com as nossas e se tornam nosso património.
O legado pode ser explicado como “o que é transmitido a outrem que vem a seguir”. Pode assumir várias formas, sendo que a forma mais poética deste nome nos remete para uma transmissão não física e não textual, como ensinamentos, valores, tradições… Mas o legado também pode ser material e ser encontrado nas ruas, com monumentos que assinalam uma ou outra conquista da cidade. Pode ser encontrado na arte, que tem a particular (e difícil) missão de juntar uma componente física com um legado imaterial. E pode ser encontrado na moda.
Aliás, a moda tem um papel particularmente interessante na preservação do legado, precisamente porque preservar, neste contexto, raramente significa manter intacto. Significa reinterpretar, atualizar e encontrar novas formas de transmitir aquilo que recebemos.
Na moda isso é particularmente evidente. Há casas que vivem do legado, mas que só continuam relevantes porque cada novo diretor criativo, cada nova geração encontra uma maneira diferente de interpretar aquilo que recebeu. Não é por acaso que tantos diretores criativos começam por mergulhar nos arquivos das casas que passam a dirigir.
Na verdade, olhando para a Chanel: a marca não veste hoje as mulheres como Coco Chanel as vestia. A Dior de Jonathan Anderson não pode ser a Dior de Christian Dior. E, no entanto, há códigos, gestos, símbolos e uma determinada visão que permanecem: o legado sobrevive precisamente porque não fica parado.
É talvez esse o maior desafio de quem recebe um legado: perceber o que deve permanecer e o que precisa de mudar. É preciso conhecer suficientemente bem aquilo que veio antes para saber como transportá-lo para o presente. Na moda, onde a novidade é quase uma exigência, esse equilíbrio torna-se particularmente delicado. Mudar demasiado pode significar perder a identidade; mudar de menos pode condenar uma marca à irrelevância.
Talvez por isso os arquivos tenham adquirido uma importância tão grande. Não são apenas lugares onde se guardam peças antigas, desenhos ou campanhas. São uma espécie de memória organizada, onde cada geração pode procurar respostas ou, melhor ainda, novas perguntas.
E há ainda um outro legado, menos visível. A moda não se faz apenas de grandes nomes, de peças icónicas ou de imagens que ficam para a história. Faz-se também de conhecimento. De gestos repetidos milhares de vezes até se tornarem quase instintivos, de técnicas que passam de mão em mão, de formas de cortar, coser, construir ou trabalhar uma matéria que dificilmente cabem num manual. Há saberes que só sobrevivem porque alguém os recebeu e, um dia, decidiu ensiná-los a outra pessoa. E no campo da manualidade e das tradições, Portugal ocupa um lugar muito particular. Há um património de saber-fazer que atravessa gerações e que continua vivo precisamente porque nunca deixou de ser transmitido. Na moda, no calçado, na joalharia, nos têxteis ou na cerâmica, há gestos que não se aprendem apenas nos livros: observam-se, repetem-se, aperfeiçoam-se e passam de mão em mão.
Mas, naturalmente, nem tudo o que herdamos pode ser preservado. Receber um legado implica também ter a coragem de o questionar. Há tradições que merecem ser preservadas, outras transformadas e algumas, simplesmente, deixadas para trás. Talvez seja essa a responsabilidade de cada geração: escolher, entre tudo aquilo que recebeu, o que merece ser levado consigo e o que quer deixar a quem vier depois.
Porque o legado nunca é apenas sobre o passado. É também uma decisão sobre o futuro.
Uma peça pode durar cem anos. Uma ideia, um gesto, uma forma de fazer, muito mais. Talvez seja por isso que, também na moda, todos nascemos muito antes de vir ao mundo.
