Portugal enfrenta um desafio demográfico preocupante: o número médio de filhos por mulher em idade fértil é de apenas 1,4 - a quinta taxa mais baixa do mundo segundo a OCDE. Este número reflete o adiar da parentalidade com as consequentes implicações negativas para a fertilidade mais evidente na mulher, mas também com impacto na fertilidade masculina. Em Portugal a idade materna do 1.º filho em 2023 foi de 30,2 anos. Este adiar da parentalidade leva não só a uma maior dificuldade em engravidar, mas também a mais complicações associadas à gravidez.
Para responder a este desafio, têm sido incentivadas campanhas que alertam para o impacto da idade na fertilidade e têm sido disponibilizadas técnicas como a criopreservação de ovócitos, que, embora não seja um garantia de gravidez futura, pode aumentar as possibilidades daquela mulher vir a engravidar com os seus próprios ovócitos.
Mas está na altura de, enquanto sociedade, olharmos para os motivos que levam a este adiar do projeto de constituir família muitas vezes associado a preocupações económicas, condições laborais inadequadas e a escassez de apoios. A solução passa por uma abordagem integrada que combine apoio médico e programas de educação sobre fertilidade com políticas sociais mais favoráveis às famílias.
Amanhã, dia 5 de junho, no Centro Cultural de Belém, será apresentado o movimento +Fertilidade, liderado pela Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, Ordem dos Médicos e Associação Portuguesa de Fertilidade. O objetivo é claro: mobilizar a sociedade para políticas que valorizem a saúde reprodutiva e inspirar empresas a criarem ambientes verdadeiramente "família-friendly". A abordagem multidisciplinar é fundamental com o envolvimento de varias especialidades médicas, embriologistas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, administrativos e auxiliares, dos doentes que têm cada vez um papel mais ativo, da indústria farmacêutica, dos professores como aliados na transmissão dos estilos de vida que cuidam da fertilidade, políticos, advogados e comunicação social. Todos juntos podemos mudar o rumo da fertilidade em Portugal. Não posso deixar de referir as enormes conquistas que se têm conseguido.
Temos tratamentos cada vez mais “patient friendly” e mais seguros ( foi uma vitoria a diminuição da taxa de gravidez múltipla e do Síndrome de hiperestimulação ovárica). O estigma associado à Infertilidade tem felizmente vindo a desaparecer. O nosso quadro legal é um dos mais progressistas da Europa. Portugal encontra-se num patamar técnico-científico semelhante ao dos países mais desenvolvidos. Os medicamentos são comparticipados em 90% e existem direitos laborais associados às técnicas de PMA. Há maior acessibilidade aos tratamentos tanto no sector publico como privado. O futuro é promissor com desenvolvimento de novos medicamentos ( por via oral em vez de injetáveis ), o uso de inteligência artificial (sempre com supervisão humana), a criação de gametas e úteros artificiais, a edição genética embrionária etc. Mas a inovação vai trazer muitos desafios e muitas considerações éticas e por isso devemos ser cautelosos.
