Dizem que todos nós temos um “gémeo perdido” algures no planeta. Pode estar noutro país, noutra cidade ou até a passar por nós na rua sem nunca sabermos. Foi essa ideia, entre o acaso e o mistério, que levou o fotógrafo canadiano François Brunelle a dedicar mais de uma década da sua vida a procurar sósias desconhecidos espalhados pelo planeta.
O projeto chama-se I’m Not a Look-Alike! e nasceu de uma experiência pessoal. Brunelle era frequentemente confundido com o comediante Mr. Bean, comparações que, longe de o incomodar, despertaram nele uma curiosidade profunda: até que ponto os seres humanos podem ser parecidos sem partilharem qualquer laço familiar ou genético? A partir desse fascínio, começou a fotografar pessoas que, apesar de não serem da mesma família, tinham rostos quase idênticos.
Ao longo dos anos, o fotógrafo reuniu mais de 250 pares de sósias, captados em mais de 30 cidades pelo mundo. Muitos deles nunca se tinham encontrado antes do momento em que entraram juntos no estúdio. Outros já conheciam as confusões causadas pelas semelhanças: encontros inesperados, abordagens íntimas, erros de identidade que, por vezes, acabaram em amizade e humor partilhado.
Segundo o que conta ao New York Times, um dos casos mais marcantes surgiu quando Agnes Loonstra, nos Países Baixos, foi abordada por um desconhecido num comboio que falava com ela como se fosse alguém próximo. Mais tarde, percebeu que tinha sido confundida com Ester Scholter, uma mulher com quem partilhava uma impressionante semelhança física. Apesar de vidas profissionais diferentes, descobriram afinidades inesperadas, como o gosto pela mesma música.
Em França, dois homens da indústria cinematográfica passaram por situações semelhantes. Ludovic Maillard foi confundido com Marcel Stepanoff, dando origem a encontros embaraçosos que acabaram por se transformar numa brincadeira constante. Hoje, fingem ser irmãos apenas pelo prazer de alimentar o equívoco.
Todos os retratos do projeto são feitos a preto e branco. Para Brunelle, esta escolha não é apenas estética: ao remover cores e detalhes supérfluos, o olhar do público é conduzido para o essencial: o formato do rosto, o olhar, a expressão. Influenciado por fotógrafos como Richard Avedon e André de Dienes, Brunelle procura captar algo mais profundo do que a aparência: a essência humana.
O trabalho é realizado com recursos limitados, apoio de organizações locais e sem remuneração para os participantes. Muitos dos pares chegam até ao fotógrafo através dos meios de comunicação ou por contacto direto, enviando informações e fotografias das pessoas com quem são frequentemente confundidas.
Mais do que um projeto visual, I’m Not a Look-Alike! levanta questões sobre identidade, individualidade e ligação entre os seres humanos.
Para Brunelle, a missão vai além dos rostos semelhantes: é um lembrete poderoso de que, apesar das diferenças culturais e geográficas, estamos todos mais ligados do que imaginamos.
