Há dias em que abrimos as nossas redes sociais e encontramos pessoas que publicam tudo e mais alguma coisa. O pequeno-almoço, o treino, uma reunião, uma viagem, uma salada, os pés… enfim, diria quase tudo. Há outras de quem não sabemos nada durante semanas ou até meses. Têm redes sociais, mas raramente as utilizam. Preferem observar os outros. E há ainda quem não tenha qualquer presença digital. Ainda assim, também comunicam. Como é possível?
Vivemos numa época em que confundimos presença com visibilidade. Parece existir uma regra não escrita: quem publica mais existe mais. Mas será que é mesmo assim?
Nos últimos meses, chamou-me a atenção o regresso de várias figuras públicas que, após um período de silêncio, voltaram a reaparecer no espaço mediático. O curioso é que a ausência não reduziu necessariamente a sua influência. Em alguns casos, tornou-a até mais relevante, porque o silêncio despertou curiosidade e a expectativa substituiu o ruído.
Um exemplo foi o de Catherine, Princesa de Gales. Durante meses esteve ausente do espaço público por motivos de saúde. Essa ausência deu origem a inúmeras especulações e quando decidiu comunicar através de um vídeo muito pessoal, retomou o controlo do seu storytelling.
Outro exemplo foi o de Jão. Ao anunciar uma pausa, explicou claramente a razão da decisão: explicou que precisava de criar, desacelerar e afastar-se da pressão da presença permanente. O seu regresso foi recebido com interesse porque a pausa não representou um desaparecimento sem explicação.
Este fenómeno não acontece apenas com figuras públicas. Acontece também com empresas, líderes, instituições e universidades. Quando uma organização deixa de comunicar, as pessoas continuam a construir uma narrativa. O espaço vazio, na maioria dos casos, raramente permanece vazio. É preenchido por interpretações, expectativas e até suposições.
No fundo, não é a frequência das publicações que constrói uma reputação, mas sim a consistência da identidade de uma marca. Há profissionais que publicam diariamente e deixam pouca memória. Outros intervêm poucas vezes, mas cada intervenção reforça a imagem e o posicionamento que construíram ao longo do tempo. Talvez por isso a pergunta relevante já não seja: "Com que frequência devo publicar?", mas outra: "Aquilo que publico, ou escolho não publicar, está alinhado com a pessoa ou a organização que quero ser?"
Porque, no fim, todos comunicamos. Mesmo quando escolhemos o silêncio. A diferença é que, quando não controlamos o storytelling, alguém acabará por o construir por nós.
