Bárbara Veiga fotografia
Design e Artes

Ela atravessou 80 países por mar, durante 7 anos, e estas são as suas fotografias

A fotógrafa e ativista Bárbara Veiga mostra o seu Mundo Insular, a exposição das suas fotografias que atravessaram o mundo para dar visibilidade às causas do ambiente. A não perder até 8 de junho no Espaço Espelho de Água, em Lisboa. A Versa entrevistou a artista em exclusivo.

“Sete anos em sete mares”, foi o livro que a fotógrafa e ativista brasileira Bárbara Veiga lançou no seu país, mas também em Espanha e aqui em Portugal, onde agora apresenta esta 26 fotografias na exposição Mundo Insular. Barbara travessou mais de 80 países por mar e fotografou-os para chamar a atenção para as causas socioambientais que parecem não conseguir proteção efetiva por parte dos governos e sua legislação, assim como não vêem mudanças nos hábitos egoístas de uma maioria de nós.

“A ideia é conectar as pessoas com estes universos que parecem estar tão distantes da maioria – as ilhas. E fazer uma aproximação aos seus ecossistemas, seus povos, originários ou não, e suas culturas.” Assim, encontramos aqui imagens dos nossos Açores, mas também da ilha brasileira, linda linda, que é Fernando Noronha, no Brasil, uma ilha ecológica cada vez mais ameaçada desde a subida de Bolsonaro ao poder, mas também a italiana Strombolica ou a espanhola Lanzarote, e Cuba, Austrália, Maldivas, Japão, Tailândia, entre tantas outras. E 20% do valor arrecadado pela venda das obras serão doados a pequenas e médias instituições e associações portuguesas que trabalham em prol da conservação ambiental.

Nascida do Rio de Janeiro, a artista co-fundou o movimento Liga das Mulheres Pelo Oceano e participou em diversos projetos na televisão brasileira na área da produção audiovisual cobrindo da Amazónia à Antártida. Para além da fotografia, também apresentou performances artísticas como Sea Woman no Japão, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal e O que eu preciso, no Brasil.  E não deixa de ser curioso que tenha escolhido o Espaço Espelho D’água para mostrar essa sua visão do mundo, um espaço que quer ser de cruzamento cultural, mesmo em frente ao rio Tejo e ao Padrão dos Descobrimentos.

De onde vem o amor à fotografia, ao mar e à viagem?

Um dos pilares principais dentro das minhas ferramentas de trabalho vem da liberdade do criar e do mover. Desvendar culturas, espaços e mergulhar em histórias cativantes. Escrevia cartas de lugares imaginários, desenhava selos e por anos me via flutuando em águas de países diferentes. Sou ávida pelo que é inusitado, busco o refresco do que meus olhos vêem. O contacto com o mar me faz sentir mais perto de mim mesma e foi assim que essa conexão aconteceu já na minha infância. Por influência da fotografia me transportava para situações e emoções que a imagem pode provocar. Foi a partir daí que comecei a me arriscar num experimento visual que me levou, fisicamente, para muitas experiências que atravessaram da Amazônia à Antártica, ao longo dos 20 anos de trabalhos em temas que refletem sociedade e meio ambiente.

A ideia dos 7 anos e 7 mares foi planeada ou foi acontecendo?

Quando recebi o convite para trabalhar na minha primeira missão embarcada, cruzando a costa do Brasil, do sul do país à Amazónia, não tinha ideia de que este seria um projeto de vida que levaria tanto tempo. Acontece que uma vez que estou debruçada sobre um projeto que tem tanto significado, não há outro caminho a não ser mergulhar profundamente e sentir toda essa energia e vibração transpirar sobre meus poros. Me encantei e me entreguei completamente ao sentir que poderia ser feliz com esse estilo de vida, porque senti que, na verdade, podemos viver com muito pouco. O planejamento foi ocorrendo pouco a pouco, de viagem em viagem, de ilha em ilha, de cada ponto do GPS à outro, até sentir que era a hora de voltar para "casa". Ao retornar à terra escrevi o livro biográfico Sete anos em Sete Mares com o objetivo de compartilhar minhas experiências e abraçar uma nova jornada. Tinha chegado a hora de mudar o rumo e desenvolver novos desafios. Desde então tenho desenvolvido internacionalmente exposições multimídia, performances artísticas, palestras para empresas ou universidades e storytelling para crianças.

Qual foi o maior desafio desta jornada? E o maior prazer?

Colocar a própria vida em risco muitas vezes ao enfrentar tempestades ou crimes ambientais, abrir mão de uma rotina confortável e estar longe dos amigos em momentos importantes foram imensos desafios ao longo desses anos nómadas. Sou movida pelas pessoas e seguir esse caminho significou aprender a lidar com ausências. No entanto, foi no mar e na liberdade de circular pelo mundo no modo independente que aprendi que tudo é circular. Tudo é movimento. Procuro ser fluida e adaptável, uma vez que não possuo controle sobre nada além dos meus pensamentos e ações. Meu maior ganho foi ter tido a oportunidade de sentir a liberdade do sal na pele: nadar com baleias em Tonga e outros animais marinhos no Pacífico Sul, trabalhar na Antártica, lutar pelas terras indígenas e aprender a riqueza de seus povos, e conhecer pessoas maravilhosas! Aprendi que família é um estado de espírito e que tenho que ir onde meu coração pede. Afinal, nada é permanente.

Do mar contempla-se melhor a terra?

Foram transformadoras as perceções adquiridas ao chegar em terra por via marítima. Porque velejar leva tempo, é preciso concentração e paciência. Sentir o cheiro da terra se aproximando e ver a arquitetura do continente, um país e cidade se desenhando ao tomar forma devagar é uma das cenas mais bonitas que pude testemunhar nos meus anos morando no mar. Cada chegada é um motivo de celebração, de conquista. Belas perspetivas estão diante dos olhos a cada momento e o mar sempre foi meu lugar preferido. Mas também não posso negar os momentos espirituais ao subir o Monte Fuji ou o Monte Roraima e me sentir como se estivesse caminhando no topo do mundo.

O que é que a move nesta vontade de juntar trabalho ao ativismo? E onde quer chegar?
Unir arte e ativismo é sobre encantar, mas também fazer refletir. Procuro constantemente trazer meu olhar político sobre o mundo com delicadeza e poesia. A vida - aqui e agora - já vale a pena por si só, mas quando se pode contribuir de forma criativa, coletiva e construtiva por um mundo mais justo, esse é o único caminho que vejo como possível. Assim acordo e vou dormir todos os dias. É uma paixão que me acompanhará até meus últimos suspiros.

Em quem se inspirou? Quem são as suas referências pessoais e estéticas?

A principal inspiração veio a partir da própria Natureza e todo cenário que se desenha num espaço de tempo fluido e incontrolável do selvagem. É quando se permite observar cenas e situações que mudam constantemente. Fotografar ou filmar requer tempo e muita dedicação. O que me chamava atenção eram momentos como a dança das raias-manta, o entrelaçar dos golfinhos ou o respiro de baleias. Mas o olhar de Ansel Adams, Cristina Mittermeier, Jimmy Nelson ou Marina Cano são referências que compõem minha pesquisa e biblioteca particular.

De que forma é que a palavra mulher e o Oceano estão ligados?

Vivemos num planeta azul, uma vez que mais de 70% da superfície terrestre é representada pela água. E mais de 60% do oxigénio que respiramos vem do Oceano. Nascemos do corpo de uma mulher, submersos e envoltos na água, até olhar o mundo sob outra perspetiva. Entendo que nós, mulheres, como geradoras da vida, temos uma ligação intimamente próxima por este elemento de onde viemos todos. Defender o Oceano é defender a vida, e garantir a sustentação de nossos descendentes.

Espaço Espelho de Água, até 8 de junho, das 11h à 00h
Edifício Espelho d’Água, Av. Brasília, 1400-038 Lisboa
Entrada gratuita

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