Gwyneth Paltrow
Gwyneth Paltrow | Fotografia: Gilbert Carrasquillo, Getty
Controversa

Há qualquer coisa de enternecedor na polémica em torno de Gwyneth Paltrow

Não o anúncio. Não os apartamentos. Nem sequer a discussão geopolítica que, nesta fase, não é capaz de despertar uma tal de consciência humanitária a Gwyneth Paltrow... ou a "Gwynocide", como preferirem.

A atriz e empresária é o rosto de uma campanha para o 51 Park, um empreendimento de luxo em Herzliya, perto de Telavive. No vídeo, tudo acontece como seria de esperar no universo da atriz e empresária: arquitetura irrepreensível, vistas desafogadas, interiores luminosos e a promessa de uma vida tranquila, exclusiva e cuidadosamente curada. A promessa de metros quadrados generosos... e a ilusão de que o mundo pode ser resolvido com uma boa vista para o mar.

O problema é que o mundo insistiu em existir.

Quando o anúncio revela que o projeto fica em Israel, a internet fez aquilo que a internet faz melhor: indignou-se.

Mas o que verdadeiramente surpreende é a surpresa.

As pessoas olham para Gwyneth Paltrow a passear por um empreendimento de luxo em Israel, a vender vistas desafogadas e metros quadrados premium num dos momentos mais tensos da história recente da região, e reagem como se tivessem apanhado Madre Teresa a fugir aos impostos... ou a vender apartamentos de luxo ali perto de Telavive. 

Mas estamos a falar de Gwyneth Paltrow.

A mulher que transformou ovos vaginais, velas inspiradas na sua anatomia e tratamentos de bem-estar para milionários entediados num império empresarial. A mulher que há muito escolheu não habitar o mesmo planeta que o resto da humanidade... 

Porque haveria ela de descobrir agora o contexto?

Porque haveria de desenvolver, aos 53 anos, uma súbita consciência de um tal de momento histórico?

Porque haveria de olhar para uma campanha milionária e pensar: "Talvez isto não seja uma boa ideia"?

Há uma certa inocência coletiva na forma como continuamos a exigir profundidade moral a pessoas que têm como principal talento serem fotografadas em boa luz (sim, Paltrow é estupidamente... fotogénica).

É quase comovente esperarem outra coisa de Paltrow.

Gwyneth Paltrow não está desligada da realidade por acidente. A desconexão é literalmente o produto. É a marca. É o negócio.

Durante anos vendeu a fantasia de uma vida tão distante das preocupações comuns que até as recomendações de saúde pareciam escritas por alguém que nunca teve de se preocupar. 

E, sejamos honestos, resultou.

Milhões de pessoas compraram essa fantasia.

Por isso talvez seja injusto pedir-lhe agora que represente a lucidez coletiva.

Seria como exigir consciência ambiental a um jato privado, ou moderação a uma conta offshore: tecnicamente possível no papel, praticamente irrelevante na prática. Seria como pedir coerência emocional a uma app de bem-estar de 599 euros mensais. 

Não é para isso que existem.

No fundo, Gwyneth fez aquilo que Gwyneth faz melhor: apareceu impecavelmente penteada, disse meia dúzia de frases sobre qualidade de vida e foi embora.

E provavelmente recebeu muito bem por isso.

Talvez a verdadeira lição não seja sobre mais uma escolha questionável de Gwyneth. 

Talvez seja sobre nós.

Sobre a estranha expectativa de que alguém que vive há décadas numa bolha de privilégio consiga acordar numa terça-feira e tornar-se a voz da sensatez.

Coitadinha da Gwyneth.

Pediu-se-lhe consciência situacional quando ela mal consegue localizar-se no mesmo universo que o resto de nós... é quase ternurento. 

Nécessaire

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