Afinal, onde dá para viver em Portugal? O que esperar dos preços das casas?
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Francisca Salema
- 15 jun, 15:40
Encontrar casa em Portugal tem sido, cada vez mais, uma espécie de corrida com obstáculos para muitas famílias. Nos últimos anos, os preços aceleraram de norte a sul do país e há municípios onde, desde 2017, o valor das casas mais do que duplicou. Conseguimos comprar casa?
Um estudo do Banco de Portugal, publicado no Boletim Económico, mostra precisamente isso: os preços da habitação subiram mais de 100% em 157 municípios entre 2017 e 2025. E, como seria de esperar, as maiores subidas concentraram-se sobretudo na Área Metropolitana do Porto, na Grande Lisboa e na Península de Setúbal.
Entre os exemplos mais marcantes estão Sintra, Seixal, Barreiro, Moita e Setúbal, onde o valor mediano por metro quadrado das casas vendidas cresceu mais de 200% no período analisado.
E não é só na compra que se sente esta pressão. Também o arrendamento entrou neste ritmo acelerado. Segundo os dados do Banco de Portugal, o valor mediano das rendas por metro quadrado mais do que duplicou em 23 municípios. Grândola, Sines e Moita destacam-se, com subidas superiores a 125% entre 2017 e 2024, o último ano com dados disponíveis.
O estudo aponta ainda para uma mudança interessante: parte desta valorização aconteceu em zonas que, até há poucos anos, eram vistas como alternativas mais acessíveis. À medida que os centros urbanos ficaram mais caros, a procura foi-se deslocando "para municípios relativamente mais acessíveis" nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
No Algarve, a história é um pouco diferente. Continua a ser uma das regiões mais caras do país, mas as subidas foram mais suaves. Segundo o estudo, os municípios algarvios "que já se destacavam com rácios preço-renda superiores à média nacional ― muito influenciados pela procura por não residentes", tiveram aumentos menos intensos do que outras zonas do território.
Apesar de tudo isto, o sentimento geral em relação ao mercado imobiliário continua surpreendentemente otimista. O Banco de Portugal refere que as expectativas dos consumidores quanto à evolução dos preços da habitação nos próximos 12 meses "evidenciam uma evolução crescente e níveis persistentemente superiores aos da área do euro".
Entre janeiro e março de 2026, os portugueses esperavam uma subida média de 7% nos preços das casas, enquanto na área do euro a previsão ficava pelos 3,7%. O estudo acrescenta ainda que existe em Portugal "uma perceção generalizada de que o momento atual é favorável ao investimento" e à aplicação das poupanças no setor da habitação.
As expectativas, no entanto, não são iguais para todos. O Banco de Portugal identifica uma "elevada heterogeneidade nas expectativas dos consumidores nacionais": os jovens entre os 18 e os 34 anos antecipam uma subida média de 4%, enquanto os consumidores entre os 55 e os 70 anos apontam para 6,3%.
"Esta diferença poderá estar associada ao facto de as gerações mais velhas, com um historial mais longo de observação dos preços e dos ciclos económicos no mercado imobiliário, tenderem a ancorar as suas expectativas em fenómenos inflacionários já vividos", explica.
Por regiões, o Norte e a Área Metropolitana de Lisboa continuam a ser onde se espera mais valorização, com previsões de 6,8% e 6,6%, respetivamente. Já o Alentejo e o Algarve apresentam uma leitura mais moderada, ambos nos 3,7%.
Outro ponto interessante é a forma como a compra de casa continua a ser financiada. Apesar da subida dos preços, o crédito bancário mantém-se abaixo dos 60% nas transações mais recentes, com o restante a ser suportado por capitais próprios.
Ainda assim, o crédito à habitação ganhou novo fôlego desde o início de 2024, numa tendência associada à descida das taxas de juro e também ao "regime da garantia do Estado" criado para apoiar jovens compradores.
No final, os investigadores deixam também um alerta: ainda falta muita informação para se perceber verdadeiramente o mercado habitacional português. Consideram as estatísticas atuais "insuficientes" para avaliar "as quantidades procuradas e oferecidas para cada preço", a "evolução das preferências das famílias", a "estrutura de custos associada à construção de habitação" e as "condições de concorrência no setor".
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