Durante os últimos dias, as palavras vírus e cruzeiro têm sido usada vezes sem conta. Primeiro, as notícias começaram a relataram um surto de hantavírus num navio de cruzeiro MV Hondius, o que está a deixar muitos com receio de uma nova pandemia, apesar dos especialistas garantirem que tal não vai acontecer.
Depois, as autoridades de saúde norte-americanas confirmaram um surto de norovírus num outro navio, neste caso que estava a navegar pelas Bahamas, e, mais recentemente, surgiram relatos de um terceiro surto, desta vez, num cruzeiro atracado em Bordéus, no sudoeste de França. Também associado ao norovírus.
Ficámos, claro, com várias perguntas, algumas sobre a gravidade e os sintomas de cada um destes vírus, mas também sobre a probabilidade de tudo isto acontecer ao mesmo tempo. Tendo isto em conta, a VERSA esclareceu algumas dúvidas com José Coutinho Costa, um pneumologista da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.
Começa por explicar que "embora estes incidentes representem uma pequena parte" deste universo, os cruzeiros "reúnem condições particularmente favoráveis à transmissão de vírus", algo que se deve à "combinação entre a elevada densidade populacional, com espaços partilhados e circulação constante de passageiros".
Estes fatores acabam por "transforma estes ambientes em locais propícios à rápida disseminação de agentes infeciosos, sobretudo vírus gastrointestinais e respiratórios". Mas, claro, as nossas dúvidas não acabam por aqui.
Porque são os cruzeiros tão vulneráveis a surtos?
De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), os navios de cruzeiro apresentam vários fatores que facilitam a transmissão de infeções:
- contacto próximo e prolongado entre milhares de passageiros;
- utilização intensiva de espaços comuns;
- elevada frequência de contacto com superfícies partilhadas;
- rotatividade constante de passageiros e tripulações;
- dificuldade em conter rapidamente cadeias de transmissão.
Os surtos tornam-se particularmente difíceis de controlar porque muitas infeções virais se propagam antes mesmo do aparecimento de sintomas. Em ambientes fechados e altamente povoados, um único caso pode originar dezenas ou centenas de infeções em poucos dias.
O norovírus continua a ser o principal problema...
O vírus mais frequentemente associado a surtos em cruzeiros é o norovírus, responsável por gastroenterites agudas caracterizadas por vómitos, diarreia, náuseas e dores abdominais.
Segundo o CDC, o norovírus é extremamente contagioso: bastam poucas partículas virais para provocar infeção. Além disso, consegue sobreviver durante dias em superfícies contaminadas e resiste relativamente bem a alguns desinfetantes comuns.
A transmissão pode ocorrer:
- através do contacto direto entre pessoas;
- por alimentos ou água contaminados;
- através de superfícies contaminadas;
- pela inalação de partículas libertadas durante episódios de vómitos.
Apesar de normalmente provocar doença ligeira e autolimitada, o vírus pode representar riscos importantes para idosos, crianças pequenas e pessoas imunodeprimidas, sobretudo devido à desidratação.
Que outros vírus podem circular em cruzeiros?
Além do norovírus, existem outros agentes infeciosos frequentemente associados a viagens marítimas:
- vírus influenza (gripe);
- SARS-CoV-2;
- rinovírus e outros vírus respiratórios;
- rotavírus;
- adenovírus.
A pandemia de Covid-19 demonstrou de forma particularmente evidente como os cruzeiros podem amplificar surtos respiratórios devido à proximidade física prolongada entre passageiros.
Que cuidados devem ter os passageiros?
As autoridades de saúde internacionais sublinham que a prevenção depende sobretudo de medidas básicas de higiene e de comportamento responsável.
Entre as recomendações mais importantes estão:
- lavar frequentemente as mãos com água e sabão;
- evitar tocar na cara após contacto com superfícies públicas;
- permanecer isolado na cabine em caso de sintomas;
- informar imediatamente os serviços médicos do navio;
- evitar frequentar áreas comuns em caso de doença gastrointestinal;
- respeitar as orientações sanitárias da tripulação.
O CDC destaca que os desinfetantes alcoólicos podem ser menos eficazes contra o norovírus do que a lavagem adequada das mãos.
Há medidas preventivas antes do embarque?
Recomenda-se que passageiros com sintomas gastrointestinais, febre ou sinais de infeção respiratória evitem embarcar.
Outras medidas preventivas incluem:
- vacinação atualizada contra gripe e Covid-19;
- atenção especial a pessoas vulneráveis ou com doenças crónicas;
- contratação de seguro de viagem com cobertura médica;
- cumprimento das recomendações sanitárias emitidas pelas companhias marítimas.
