"Quando eu acabar, acaba-se a aldeia": É o último habitante de 14 casas
-
Rafaela Simões
- 10 ago, 09:57
Na Sierra de Segura, em Jaén, Paco, de quase 70 anos, é o último habitante de uma aldeia com 14 casas. E não pensa em partir. É mais o que ganha do que perde.
Há uma aldeia que é atravessada pela fronteira entre Portugal e Espanha
Conhece Fernando, o único habitante de uma aldeia em Espanha
Há zonas no interior de Portugal que carecem de habitantes, mas não é só por cá que isso acontece. No interior rural de Espanha, há aldeias tão isoladas que há quem viva longe das estradas movimentadas, dos supermercados, dos serviços e, sobretudo, dos vizinhos.
É numa dessas aldeias que vive Paco. Tem quase 70 anos e é o único habitante permanente de um pequeno núcleo de 14 casas, situado a cerca de 1200 metros de altitude, na Sierra de Segura, no município de Santiago-Pontones, em Jaén (conhecido como o paraíso do interior de Espanha).
Ali, todas as manhãs Paco abre a porta de casa sem esperar encontrar ninguém na rua. Não é por ser demasiado cedo. É porque, simplesmente, já não vive mais ninguém na aldeia. Por isso, Paco é um bocadinho de tudo: é o presidente da câmara, o polícia e o responsável pela manutenção, como brinca em entrevista ao programa televisivo Comando Actualidad, citada pelo site espanhol Viajar.
Das 14 casas que restam, algumas pertencem a familiares que partiram há décadas, outras são de antigos moradores que deixaram a serra à procura de trabalho, muitos deles com destino à Catalunha ou à Comunidade Valenciana.
Paco assistiu a essa transformação desde o início. Quando era criança, a aldeia tinha escola, loja, ferreiro e modista. Havia famílias, crianças e movimento. O antigo forno a lenha ainda permanece junto a uma das casas, embora hoje esteja coberto de entulho e vegetação.
O cenário atual é bem diferente. O silêncio ocupa o espaço que antes pertencia às conversas, aos animais e ao movimento quotidiano. Ainda assim, Paco não olha para a sua aldeia apenas como um lugar vazio. Para ele, continua a ser casa.
"Porque amo a natureza, gosto dela. Foi isto que vivi sempre", explica quando lhe perguntam por que razão nunca decidiu partir. Ainda assim, não deixam de existir dificuldades. A aldeia encontra-se numa zona de montanha onde, durante o inverno, as temperaturas podem aproximar-se dos 20 graus negativos. A neve já chegou a deixar a região incomunicável durante quase três semanas.
É precisamente nesses momentos que a solidão deixa de ser apenas uma característica do lugar e passa a ser um risco e Paco afirma mesmo que, com o avançar da idade, tem medo de que lhe aconteça alguma coisa e ninguém saiba.
Viver numa aldeia sem vizinhos exige ainda uma organização que seria difícil de imaginar para quem está habituado a ter tudo por perto, porque, por exemplo, o supermercado mais próximo fica a cerca de 30 quilómetros. Por isso, Paco costuma fazer as compras aproximadamente uma vez por mês. E mesmo isso é uma sorte.
"Antes fazia-se de ano a ano e desenrascavas-te com o que tinhas", recorda.
A alimentação continua, em grande medida, ligada à terra. Em casa, os presuntos e os enchidos pendurados no teto recordam uma forma tradicional de conservar os alimentos e um grande congelador serve como reserva para os dias em que a neve impede qualquer deslocação.
Uma qualidade de vida como se encontra em poucos lugares
A vida de Paco não se centra naquilo que lhe falta, mas naquilo que considera ter: natureza, tranquilidade e uma sensação de segurança que associa diretamente à aldeia. Ali, pode deixar a porta de casa aberta. Não teme roubos nem sente que alguém o incomode.
É uma qualidade de vida que, admite, é difícil encontrar noutros lugares.
Mas é uma vida que não vai durar para sempre e Paco sabe disso. "As pessoas como eu estão em perigo de extinção. Isto vai desaparecer", diz. "Penso também ultimamente que, quando eu acabar, acaba-se a aldeia".
Paco é, hoje, o último elo entre aquele lugar e uma comunidade que já existiu e enquanto permanecer, a aldeia continua habitada. Quando partir, poderá tornar-se apenas mais um conjunto de casas vazias na paisagem da Sierra de Segura.
Por falar em aldeias espanholas, conhece na galeria de imagens a aldeia que é atravessada pela fronteira entre Portugal e Espanha. E também o Fernando, o único habitante permanente de Benamira.
Peixe grelhado, bom humor e vista sobre o Tejo: o melhor plano de verão
-
Rafaela Simões
- 9 ago, 12:34
