Álvaro vive sozinho numa aldeia e recusa-se a deixar morrer a história que começa na casa de 1794
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Rafaela Simões
- 20 jul, 13:22
Viver num local onde só a natureza habita é um desafio. Mas o isolamento não afastou Álvaro desta pequena aldeia nas Astúrias. As memórias falaram mais alto.
Álvaro vive numa pequena aldeia nas Astúrias e preserva o pouco que o tempo deixou
A vida de Lucía Vázquez numa pequena aldeia da Galiza
Num mundo cada vez mais acelerado, viver longe das grandes cidades continua a ser uma escolha que atrai muitas pessoas. Mas há quem leve essa opção a um extremo pouco comum: viver praticamente sozinho numa aldeia quase esquecida pelo tempo.
É o caso de Álvaro, de 39 anos, que vive sozinho numa pequena aldeia das Astúrias, uma das regiões mais despovoadas de Espanha. Rodeado por casas abandonadas e caminhos engolidos pela vegetação, tornou-se o único habitante permanente da localidade, recusando deixar desaparecer o lugar onde a sua família escreveu parte da história local.
Há seis anos, regressou à aldeia por motivos profissionais e decidiu ficar. Desde então, assumiu uma missão muito própria: preservar o património, as memórias e a identidade de um local que, sem a sua presença, poderia cair definitivamente no esquecimento.
No seu canal de YouTube e no Instagram, denominados Hilux Aventura, Álvaro mostra as ruínas, partilha histórias e documenta o trabalho que realiza para manter viva a pequena comunidade onde vive.
Mas ligação a este lugar nasceu muito antes da sua mudança. Em criança, ouvia o pai recordar os verões passados na aldeia, quando visitavam o bisavô, um homem profundamente ligado àquela terra. Por essa razão, o pai de Álvaro sempre sonhou ter uma casa própria na aldeia, por isso comprou uma propriedade e mandou construir uma habitação inspirada na antiga casa do bisavô, recorrendo a materiais da região e a trabalhadores locais. O projeto acabou por ser uma homenagem às raízes familiares.
Contudo, conseguiu desfrutar da casa durante poucos anos antes de morrer, em 2018. Após a sua morte, Álvaro decidiu mudar-se definitivamente para ali e continuar o sonho que o pai tinha iniciado.
A casa da família, cuja origem remonta a 1794, conserva ainda hoje autênticas relíquias do passado. Entre os objetos encontram-se gramofones, baús em pele de crocodilo trazidos da América, um diploma universitário datado de 1906, jornais da época da Segunda República espanhola com a notícia da morte de Thomas Edison, além de um antigo banco de carpinteiro.
Também os quartos permanecem praticamente inalterados, com camas em ferro forjado, armários e chapéus que permanecem no mesmo lugar desde meados do século XX, quando as últimas famílias abandonaram a aldeia.
Como uma escola preserva uma bonita história de amor
Entre os edifícios mais emblemáticos da pequena aldeia nas Astúrias destaca-se a antiga escola, ligada a uma curiosa história de amor.
Conta Álvaro que uma professora de uma povoação vizinha procurava colocação quando descobriu que a vaga para a qual se candidatara já estava ocupada. Acabou por atravessar a serra e chegou à aldeia onde vivia o bisavô de Álvaro. Os dois apaixonaram-se e, para que ela pudesse exercer a profissão sem abandonar o local, o bisavô mandou construir uma escola.
Ao longo dos anos, o edifício recebeu dezenas de crianças das aldeias vizinhas. Ainda hoje, alguns dos antigos alunos, já idosos, visitam o local e recordam com emoção os tempos em que ali aprenderam a ler e a escrever.
Graças a Álvaro, a pequena aldeia das Astúrias tem um futuro possível, pelo menos, enquanto houver alguém disposto a cuidar das casas, das histórias e das tradições, para que esta herança não caia no esquecimento.
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